A escritora portuguesa Catarina Gomes (Daniel Rocha/Divulgação)

Encontro de Leituras,

À memória as batatas

A partir da relação de uma família com o tubérculo e com a terra, Catarina Gomes cria um ‘léxico familiar’ português

24fev2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103

Não é a primeira vez que leio Terrinhas. Já o emprestei a amigos e hoje, ao terminá-lo, tenho vontade de o deixar na mesa de cabeceira do meu filho mais velho. Mesmo ao escrever esta resenha é-me impossível fugir da ternura e do lugar de verdade que este livro inspira. 

Cumprindo os requisitos de Calvino para uma literatura do século 20, Terrinhas é tão leve como profundo e consegue trazer para as mãos do público um “léxico familiar” português. Os Mendes são os pais e os avós de um Portugal pré-União Europeia mas pós-25 de Abril. Encontramos no livro referências aos valores e às crenças próprias dessas duas gerações: por exemplo, a cidade como símbolo de progresso, de libertação frente a um passado rural duro e precário. 

Catarina Gomes é uma retratista exímia do país e das três gerações, mas não só. Retrata a flor da batata, o olho da batata, a casca e o coração da batata, expressão que nunca ouvi, mas que surge a partir da leitura de Terrinhas. Vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2021 e publicado pela Gradiva em Portugal, o romance chega ao público brasileiro pela Dublinense, com uma capa que recupera a ideia de superfície interior e exterior. 

Todo o livro se constrói nestes contrapontos: dentro e fora; cá e lá; nossas e outras; cidade ou aldeia; sujo ou limpo; mostrar e ocultar; partir e chegar. Opostos que, costurados pelo tempo e pela memória, nos mostram uma integração possível ao tornar-nos adultos (e para nos tornarmos).

Gerações

A família Mendes é constituída por um casal de primos diretos e a sua filha única: Cláudia. Este casal é a primeira geração a deixar a terra Arrô para ir à grande cidade: Lisboa. Conhecemos a família primeiro pela sua relação com as batatas. Elas tomam conta da casa, monopolizam a despensa e todos giram em torno a elas. “As nossas batatas” vêm da terra e marcam a diferença entre o mundo e a família, e as desta têm sabor, as outras não. A maneira como cada um se ocupa das batatas marca o lugar dentro da pequena família, a mãe que as espalha, o pai que corta as partes que se estragam e a protagonista, desdenhando o cuidado com as batatas, questionando o valor delas e por fim cozendo as “nossas” e as do supermercado e não encontrando diferença.

Começamos a leitura pelo ponto de vista da filha criança e adolescente. 

Quer queira, quer não, nas minhas memórias mais antigas parece que descubro batatas. Sempre me foram íntimas.

Cláudia é a observadora feroz do pai, da mãe e de um mundo a mudar: “A vida estava a melhorar. Bastava carregar no on”. Na terrinha temos a avó, a mãe e a tia Adozinda. Com paciência e constância a autora mostra-nos que a avó é a própria batata: suja de terra, silenciosa, nutritiva (não deixava que nada faltasse), enrolando e desenrolando fios de cabelo enormes como um caule de flor de batata, amarrado no cocuruto e escondido num lenço que a declarava de luto. 

E as batatas não são como os frutos, não aparecem cá fora para se fazerem legenda, crescem escondidas.

As batatas são uma imagem perfeita para retratar o desarraigo, este sair da terra e ir, ao mesmo tempo que são a imagem da resistência, do cuidado, do carinho.

Vinte anos depois da morte dos pais, Cláudia recebe uma carta, um testamento de um tio-avô que a torna herdeira dele, de seus pais, de seus avós. Com relutância, tem que regressar à aldeia para se desfazer das terras que lhe são “impostas”: 

Invade-me o desconforto de ser incluída nesse grupo de desconhecidos: ‘A nossa família’.

Em Arrô descobre que não pode escapar ao contacto com os habitantes. As suas terras não estão “nomeadas”, só através dos antigos pode saber quais são. As terras “partem” com outras terras. Ou seja, as terras delimitam-se no confronto com as terras dos outros. Belíssimo e real. A autora é atenta ao poder que as palavras podem trazer. Partir é ir embora, é morrer, mas é também fazer fronteira com o outro: “Eu também sou fronteira”.

A terra é pensada como um lugar de diferenciação, onde nos escondemos ou nos plantamos

Nestes caricatos encontros com a aldeia que recorda e a aldeia que encontra, dou por mim a pensar que este romance tem que ser autobiográfico, que Cláudia é Catarina. O nível de detalhe na observação de mundo que é feita pela personagem é tão imersa num Portugal que conheço, num quotidiano tanto da cidade como do campo, em episódios tão cheios de idiossincrasias corriqueiras, que é com surpresa que, ouvindo as suas entrevistas, vejo que Cláudia é ficção. Aqui surge a Catarina Gomes — jornalista e autora de três livros de não ficção — investigadora. 

Todo o livro se constrói dialogando com detalhes cuidadosamente escolhidos. O campo lexical não é vasto, é preciso, bem explorado. Acompanhamos a personagem em movimento, descobrimos as coisas ao mesmo tempo que ela, escorregamos para dentro de um tempo outro. Lemos Terrinhas com esse vagar que as coisas levam a florescer. No passear pela memória surge o mistério, o enigma, o que a personagem intuía como estranho e desconcertante. Gomes deixa sementes para o leitor, tal como Hansel e Gretel [João e Maria, do conto dos irmãos Grimm]; vai fazendo não só o seu caminho à casa, mas também o nosso: de quem viemos, de que histórias escondidas, de que segredos, de que conjecturas nascemos? A origem é também um lugar a que se regressa. 

Terrinhas pode bem ser um romance ecológico. Pelo menos traz uma provocação aí. A nossa relação com a terra, a terra mesma, tem mudado tanto nos últimos anos e precisa de continuar a se ressignificar. Vemos Cláudia descobrindo isso. O romance oferece essa reflexão a quem souber colhê-la. 

A terra é pensada ao longo de todo o livro como um lugar de diferenciação. Ser do campo ou da cidade. Ser de perto ou de longe: ir à terra/ ir à terrinha. É ainda a nossa diferença entre vivos e mortos, os que caminham sobre ela e os que ela mineralizou e reduziu a ossos. A terra é palco de um léxico próprio onde os verbos se conjugam com acertos e erros específicos, o lugar onde a tristeza é “murzanga”, mesmo que não exista essa palavra no dicionário. A terra pode ser o lugar onde nos escondemos ou nos plantamos:  

Dizer “terrinha” significava também colocarem-se de fora sendo ainda profundamente de dentro. Só que no “terrinha” do pai e da mãe pressentia algo mais. Aquele “terrinha” era amargura mas também algo que se parecia com alívio, como se os pais lá tivessem deixado qualquer coisa que não queriam que andasse com eles.

Fica o convite a este livro tão português que inevitavelmente se torna universal. Reflectir sobre de onde viemos é pensar onde estamos e para onde queremos ir: “ Sabemos lá nós o que vai ficar para a nossa história”.

Quem escreveu esse texto

Raquel Laranjeira Pais

Psicanalista e cocriadora da multiplataforma literária Literapistas, é autora de Trinta e três de agosto (Perspectiva)

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026.