Crítica Cultural,
Eu vi o mundo… Ele começava no Curvelo
Entre crônica, crítica literária e biografia, Elvia Bezerra mostra o papel central do bairro carioca de Santa Teresa em obra e amores de Manuel Bandeira
12fev2026 | Edição #103Li A trinca do Curvelo pela primeira vez pouco depois do lançamento. Quinze anos mais tarde, conheci a autora, Elvia Bezerra, fiquei amigo dela e acompanhei as idas e vindas da nova edição, retocada e ampliada. Fica aqui o aviso para desenredar esta coluna, exercício explícito de admiração, do franciscanismo escamoteado no “é resenhando que se é resenhado”. Advertência feita, o importante é chamar atenção para um tipo de ensaísmo literário raro.
Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Nise da Silveira, subtítulo da edição original, publicada pela Topbooks no final de 1995, declarava a originalidade da empreitada: reatar os laços de personagens que na década de 1920 moraram na mesma rua de Santa Teresa, bairro carioca encarrapitado numa montanha entre a Lapa e a zona sul, onde a própria Elvia vive há cinco décadas. Os afetos de Manuel Bandeira, o novo subtítulo, alude ao que une os três e também a autora, leitora apaixonada e minuciosa dos dois escritores e testemunha do inesgotável vigor da Doutora (“era assim que a chamávamos, como se fosse nome próprio”, conta ela), com quem colaborou por onze anos.
“O morro do Curvelo entrava, sem saber, na tradição literária”, escreveu Ribeiro Couto ao rememorar Manuel Bandeira num ensaio biográfico da década de 50. “Faz-se necessário, portanto, integrar definitivamente o morro do Curvelo à tradição literária. Desta vez, sabendo”, completaria Elvia décadas mais tarde. A herança literária do punhado de casas debruçadas sobre a baía de Guanabara, numa espécie de sub-bairro de Santa Teresa, não é só livresca ou intelectual. Está nas esquinas, no casario (em parte ainda de pé), nas conversas de vizinhos de sabor provinciano, no alvoroço da “trinca”.
“No baralho, a trinca são três cartas do mesmo valor. A semântica da molecada alarga o conteúdo da palavra e fê-la sinônimo de baderna de bairro”, explica Bandeira em “A trinca do Curvelo”, crônica de 1932 da qual o ensaio toma emprestado o título. “É o conjunto da molecada do bairro”, prossegue, “que a gente vê a todas as horas batendo bola, empinando pipas, estalando os tecos na buraca.”
Entre 1920 e 1933 Bandeira viveu, sozinho, no número 51 da rua do Curvelo, atual Dias Barros. Sobrevivera à tuberculose num sanatório suíço e às perdas sucessivas, em seis anos, de mãe, irmã, pai e irmão. Tocava uma vida modesta: escrevia para jornais, traduzia, dava aulas particulares. Por um tempo, chegou a ter inquilinos na casa cuja principal característica se mantém no predinho que a ela deu lugar: as janelas dos fundos se abrem para o mar, que dali parecia a ele uma “mesa posta”.
Atenta ao poeta, Elvia persegue pessoas, alusões e detalhes que reverberam em poemas e crônicas
Nos treze anos em que desfrutou dessa luxuosa simplicidade, Bandeira encontrou na vizinha Frédy Blank a “grande querida”, com quem viveu cinquenta anos em casas separadas e sem assumir um casamento formal. E incorporou à sua obra muito do que ali viu e viveu. “Minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista”, diria ele no Itinerário de Pasárgada (1954). “Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo.”
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Atenta ao poeta, sem sobrepor à sua voz elucubrações interpretativas, Elvia persegue pessoas, alusões e detalhes que reverberam em poemas e crônicas. Estão entre as figuras marcantes os meninos Lenine, Ivan, Ernani, Álvaro, Antenor e Piru Maluco, artífices da trinca, e a empregada de Bandeira evocada em “Irene no céu”. Aquele tempo e lugar realmente nutrem o lirismo tão próprio do poeta, que se lê nos versos de “Comentário musical”. Incluído em Libertinagem (1930), se refere ao “quarto de dormir” invadido pela maresia e por tudo o mais que chega ao alto do morro:
O comentário musical da paisagem só podia ser o sussurro sinfônico da vida civil
No entanto o que ouço neste momento é um silvo agudo de saguim:
Minha vizinha de baixo comprou um saguim.
Homem cordial
Foi Rui Ribeiro Couto quem despertou Bandeira para os encantos da rua do Curvelo. Estudante de direito, escritor iniciante e futuro diplomata, desembarcou no Rio em 1918 vindo de Santos, onde nasceu, e logo conseguiu encontrar o poeta tão admirado. “Exuberante, sedutor e bem-humorado”, como o descreve Elvia ao reunir traços dispersos por escritos e conversas, Couto seria responsável por mudanças decisivas na vida do autor de A cinza das horas (1917), que em muito extrapolariam o novo endereço.
Foi por intermédio dele que Bandeira conheceu Mário e Oswald de Andrade, Sérgio Buarque de Holanda e Jayme Ovalle. No convívio, o poeta pernambucano deixaria de ser “Le Petit Chat Gris”, o pequeno gato cinzento, apelido dado por Couto para traduzir um temperamento a princípio distante e arredio. Em carta, Bandeira agradecia e dava crédito ao feito do amigo doze anos mais novo, que em suas palavras “foi ao canto do borralho, puxou o gatinho, vestiu uma roupinha bonita e levou ele pro baile público da vida”.
Notório por ter cunhado a expressão “homem cordial”, incorporada por Sérgio Buarque como conceito fundamental de Raízes do Brasil, Couto se consagraria por um romance popular que até telenovela virou, Cabocla (1931). Na poesia, leva o crédito pelo controverso penumbrismo, segundo ele mesmo, menos um gênero do que “uma certa atitude reticente, vaga, imprecisa, nevoenta, no jeito de escrever versos”. Era devoto de Santa Teresinha, a quem atribuía a cura de uma tuberculose, outro ponto de contato com Bandeira.
Em Belgrado, onde serviu como embaixador por dezesseis anos, chorava de saudade do Brasil ouvindo “Chiquita Bacana”. Morreu em 1963 praticamente cego, aos 65 anos, depois de infartar no saguão do Lutetia, o imponente hotel parisiense onde vivia Menina, a namorada de sempre, com quem foi casado num prudente regime de separação de países.
Doutora
Em 1927, quando foi morar na rua do Curvelo, Nise da Silveira tinha 22 anos. Recém-formada em medicina, chegara de Salvador com o primo e namorado, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira. Os aluguéis proibitivos de Copacabana levaram o casal ao número 59, bem em frente a Bandeira e de suma importância em sua mitologia particular: a dona do casarão, que lhes alugara um quarto, era a mãe de Lenine, um dos líderes da trinca.
Vez por outra Nise usava o telefone do poeta — não sem antes assistir à meticulosa limpeza do aparelho, ritual a que ele se dedicava por temer que algum vestígio da tuberculose pudesse ser transmitido aos vizinhos. Elvia observa que os dois tinham um humor parecido, com “o riso provocado para disfarçar dores maiores”. Em 1930, quando detectou num exame periódico a presença de bacilos de Koch, rastros persistentes da doença, o poeta de “Pneumotórax” confidenciou à médica, como quem conta um caso: “acabo de ver dois jovens”.
A atenção ao miúdo é marca comum à dicção de Bandeira e ao ensaísmo de ‘A trinca do Curvelo’
Em 1937, Bandeira a convidaria para um almoço especial na confeitaria Colombo, comemorando sua libertação das prisões de Vargas. Nise passara um ano e quatro meses detida por manter títulos marxistas entre seus livros no Hospício Nacional dos Alienados, onde começara para valer a revolução na psiquiatria brasileira que resultaria, entre outras conquistas, na criação do Museu de Imagens do Inconsciente.
Na penitenciária, então povoada por intelectuais e ativistas, teve como companheiros Olga Benário Prestes, a cronista Eneida e Graciliano Ramos, com quem matava tempo imaginando idas ao cinema. Em Memórias do cárcere, o autor de Angústia registra “os bugalhos enormes” da “pessoinha tímida sempre a esquivar-se, a reduzir–se, como a escusar-se de tomar espaço”. Elvia lembra que, além do encontro das “raízes alagoanas”, estabeleceu-se entre eles “a cumplicidade de dois temperamentos reservados, aparentando frieza, mas na verdade profundamente calorosos e atentos às expressões humanas”.
Detalhes
A trinca do Curvelo é resultado de um ponto de vista singular, que dissolve limites entre biografia, crítica, crônica e ensaio. Lembra as narrativas de Brito Broca, o autor de A vida literária no Brasil: 1900, sobretudo pela atenção aos detalhes, tão importantes quanto a literatura ou a história ao flagrar um modo de ver e viver a poesia, a cidade, a vida. Antonio Candido observou que em Brito Broca “a interpretação adere de modo indiscernível à descrição: quando está descrevendo, enumerando, detalhando, o cronista está ao mesmo tempo sugerindo, desvendando e analisando” — definição que, sem favor, se aplica à autora.
É ainda notável como Elvia maneja a primeira pessoa, que pontua a narrativa não apenas em digressões, mas pela forma com que apresenta protagonistas e coadjuvantes e, com sutileza, se faz discreta personagem. É o testemunho dela que dá cor especial a uma Nise da Silveira longe de idealizações. E, principalmente, ao perfil de uma das testemunhas decisivas desta história, Joanita Blank. Encontramos a filha de Frédy, que foi aluna de Bandeira e amiga de toda a vida, em Laren, cidade da Holanda onde vivia, octogenária, numa casa de repouso.

Da conversa das duas, em 1992, vêm detalhes tocantes do cotidiano do poeta e o oferecimento de 28 cartas de Bandeira e dos retratos a óleo que a jovem Joanita pintou de Álvaro e Ernani, dois dos meninos da Trinca — retratos que, nas paredes de outra casa em Santa Teresa, velaram a escrita deste livro. As posições de entrevistadora e entrevistada se diluem em cenas admiravelmente narradas, com a mesma naturalidade com que, em outro momento, acompanhamos o pintor Cicero Dias voltar com Elvia à rua de Santa Teresa onde pintou o monumental Eu vi o mundo… Ele começava no Recife.
Dois ensaios inéditos que complementam a nova edição dão conta de amores do poeta. Em “A flor de Belém”, um Bandeira perto dos oitenta anos, adoecido, triste e melancólico com a morte de Frédy, se encanta pela paraense Luci Soares, quase seis décadas mais moça. A ela dedica poemas e dela espera atenções que não viriam. Além dos detalhes da relação com Frédy, “A grande querida”, o segundo ensaio, introduz personagens oblíquos na vida sentimental de Bandeira: a enfermeira e poeta Dulce Ferreira Pontes e Lourdes Heitor de Souza, com quem ele traduziu A prisioneira, quinto volume de Em busca do tempo perdido, e que dele cuidou até a morte, em 13 de outubro de 1968, aos 82 anos.
A atenção ao miúdo e à dita desimportância cotidiana é marca comum à dicção de Bandeira e ao ensaísmo de A trinca do Curvelo. De caso pensado, mas como quem não quer nada, alinhavando histórias, interpretações críticas e conversas, Elvia oferece não só uma imersão no universo do poeta; lembra indiretamente que, sem a vida vivida, a literatura vale pouco. E que, quando se ignoram as “pequenas magias inúteis” tão caras a Borges, não há mesmo muito o que preste a se fazer por aqui.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Eu vi o mundo… Ele começava no Curvelo”
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