A poeta Orides Fontela (Fritz Nagib/Divulgação)

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Orides Fontela é a homenageada da Flip 2026

A Festa Literária Internacional de Paraty anunciou nesta terça (10) a autora — ‘nossa Rimbaud’, segundo Antonio Candido — como homenageada deste ano

10fev2026 • Atualizado em: 23fev2026

Desconhecida do grande público, mas bastante valorizada pela crítica acadêmica, Orides Fontela (1940-98) foi “descoberta” em meados da década de 60 pelo crítico literário Davi Arrigucci Jr., que, como Fontela, nasceu na pequena São João da Boa Vista (SP). Arrigucci Jr. levou um poema dela para seu então orientador Antonio Candido, que teria dito: “Temos aqui poesia e uma poeta”, conta Rita Palmeira, curadora da 24ª Flip. 

Segundo Palmeira, Candido se referia a ela como “a nossa Rimbaud”, por causa de seu temperamento difícil. A curadora diz que Fontela acabou ficando mais conhecida por sua biografia do que por sua obra — e uma das ideias da curadoria é voltar os holofotes para a produção desse nome importante da poesia brasileira contemporânea, da mesma geração de Paulo Leminski, Hilda Hilst e Adélia Prado. 

A escolha da homenageada parte de várias decisões da curadora junto ao diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz. Entre outros fatores, Palmeira achava importante ser uma autora. “Já fazia três anos sem uma homenageada mulher”, diz ela, que tem uma visão, discutida internamente na Flip, sobre o que deveria nortear a decisão. 

Quando a Flip surgiu, em 2003, a ideia do autor homenageado era também apresentar a literatura do Brasil para o exterior, onde era menos conhecida. “O cenário mudou, apesar de ainda serem muitas as queixas — com razão. E o autor homenageado passa a ter outra função, um pouco como se a gente fosse apresentar um autor brasileiro para o Brasil”, diz a curadora. 

Dívida histórica

Quando conversou com a Quatro Cinco Um, Palmeira disse não saber qual seria a reação do público. “Talvez tenha gente falando ‘Quem é essa?’, mas muita gente também não devia saber quem era Maria Firmina dos Reis quando ela foi homenageada [em 2022]. Olha quantas escritoras legais existem que a gente não conhece ou conhece pouco. Divulgá-las também é uma função da Flip.”

Orides chega com sua poesia singular e inovadora, um pouco obscurecida por uma vida tortuosa. “Acho que temos essas dívidas históricas, homenagear cada vez mais escritoras mulheres e chamar a atenção para a obra da Orides, porque o anedotário em torno dela é enorme, mas pouca gente lê a sua poesia.” 

Essa era, ainda em vida, uma preocupação de Fontela, que chegou a dar os direitos autorais de sua obra para Antonio Candido. “Ela tinha pavor que a obra dela desaparecesse. À beira da morte, procurou o Arrigucci com essa preocupação, e ele a tranquilizou, dizendo que a obra iria permanecer, a poesia, ficar”, conta Palmeira.

Como uma espécie de bônus à escolha, há o fato de Fontela ser publicada por uma casa editorial de pequeno porte, a Hedra. “Não foi fundamental para a decisão, mas isso é também valorizar o trabalho das pequenas editoras, muito relevante no panorama editorial e cultural brasileiro. É um jeito de fortalecer o mercado”, diz Palmeira.  

A dobradinha de poetas (Leminski em 2025, Fontela neste ano) aconteceu por acaso. “Tem essa coincidência, mas é curioso também mostrar como dois poetas da mesma geração faziam poesia [de modo] tão diferente. Olha como a poesia brasileira é plural”, comenta Palmeira. Enquanto Leminski é pop, Fontela é cult. 

“Ela aspira quase à transcendência e tem uma depuração formal muito interessante. Não é uma poesia confessional, normalmente as pessoas acham mais difícil, mas que fala o tempo todo do pássaro, da semente… tem uma observação do mundo natural superbonita e com imagens muito fortes, acho que pode ecoar nos leitores.” 

Esse aspecto também é ressaltado por Munhoz: “Para enfrentarmos os desafios da contemporaneidade, temos que entender que cultura e natureza são a mesma coisa, e que nós, humanos, fazemos parte dela. É interessante observar que essa dimensão, que é tão clara hoje, já estava sugerida na obra de Orides Fontela. Esse também é o sentido de homenageá-la nesta Flip.”

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, editora da Quatro Cinco Um, é autora de Tantra e a arte de cortar cebolas (Editora 34).