Literatura,
O caso Kamel
Escritor franco-argelino põe em cena o tabu da guerra civil em seu país natal e é acusado de violar intimidade de sobrevivente
15jan2026 • Atualizado em: 16jan2026 | Edição #102O romance Língua interior, do escritor e jornalista franco-argelino Kamel Daoud, goza de um duplo status: em solo francês, é celebrado por sua coragem em retratar os horrores da guerra civil de seu país natal, tendo sido premiado com o Goncourt em 2024; já na Argélia, Daoud é considerado um traidor.
Acusado de ter rompido o pacto de silêncio que se impôs via decreto em 2005 a respeito da guerra civil, soma, a essa acusação de traição, outra: a de ter usado, sem consentimento, detalhes da vida privada de Saâda Arbane — única sobrevivente de um massacre durante a guerra — para construir a história de sua protagonista. O agravante: Arbane fora paciente psiquiátrica da esposa de Daoud, que também está implicada no processo por violação de sigilo médico.
Em seu primeiro grande romance, O caso Mersault (Biblioteca Azul, 2016), Daoud ganhou notoriedade ao recontar a história de O estrangeiro, de Albert Camus, a partir da perspectiva do irmão do Árabe assassinado. O personagem anônimo na obra do filósofo ganha nome e voz na versão decolonial do jornalista, publicada originalmente na Argélia em 2013.
O livro foi proibido na Argélia e há mandados de prisão expedidos contra o autor pelo governo argelino
Embora o livro explore frontalmente as consequências devastadoras do colonialismo no contexto do país pós-independência, a polêmica suscitada pela história valeu a Daoud uma ameaça de morte (fatwa) por parte de um grupo radical islâmico. Uma década depois, o autor é novamente alvo de perseguição.
Língua interior foi proibido na Argélia, o túmulo de seu pai foi profanado e há dois mandados de prisão internacional expedidos contra ele pelo governo argelino. É neste contexto de crise diplomática e suspeita de violação de intimidade que a obra tem sido recebida.
Conflito armado
Língua interior conta a história do conflito armado entre 1992 e 2002, em que se opuseram o governo argelino e grupos rebeldes islâmicos, pela perspectiva de Aube, uma jovem de 26 anos sobrevivente do massacre de Had Chekab. Aube tinha cinco anos quando um grupo de rebeldes invadiu sua aldeia. A protagonista escapa à degola e é resgatada e adotada.
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Como consequência dessa lesão na garganta, Aube se torna muda e usa uma cânula de plástico fixada à laringe, que a jovem dissimula com o auxílio de um lenço. Além disso, seu rosto porta um eterno sorriso, uma cicatriz deixada pelo talho da faca de seu algoz. Esse trauma é o fio condutor da narrativa, com a guerra civil inscrita no corpo da protagonista. Suas memórias, amalgamadas às de seu país, são narradas à filha que ela carrega no ventre.
A estrutura do romance é composta por duas epígrafes, três seções e um epílogo. Desde a epígrafe inaugural, um trecho da Descida de Ishtar (Inanna) aos Infernos, a primeira catábase conhecida em que uma mulher é protagonista, imaginamos o que vem. A segunda epígrafe é um trecho do artigo 46 da “Carta pela paz e reconciliação nacional”, redigida em 2005 pelo presidente argelino Bouteflika, em uma tentativa de encerrar a guerra civil, oferecendo anistia para a maioria dos atos de violência perpetrados durante o conflito. Ambas oferecem pistas fundamentais do romance: a primeira como uma alegoria da descida aos infernos vivida pela protagonista; a segunda, o caráter interdito dessa história, o tabu nacional contra o qual o autor se ergue.
Amanhecer
As três seções do romance, distribuídas ao longo de mais de quatrocentas páginas, chamam-se “A voz”, “O labirinto” e “A faca”. No início dos capítulos, em destaque, as datas: da noite de 16 ao amanhecer de 21 de junho de 2018. Às três seções soma-se o epílogo, também marcado temporalmente: “Orã, um ano depois”. Daoud distribui sua narrativa nessas três partes com esses marcadores temporais a partir de alegorias e referências que servem de guia à leitura. A mais importante delas diz respeito ao nome da protagonista, Aube, que em francês significa “amanhecer”.
Os cinco dias em que se passa a história coincidem com os preparativos para a festa do Eid, dia do sacrifício, em que se imola um carneiro segundo a tradição do Alcorão. Enquanto o drama se desenrola nesse curto intervalo, a memória de Aube, cuja história deve ser silenciada em nome da paz nacional, remete a outros tempos: 1962 — a guerra de independência da Argélia; 1999 — o massacre do vilarejo; e 2005 — o pacto de silêncio nacional.
A primeira seção, “A voz”, é inteiramente dedicada à protagonista, Aube. Uma jovem arruinada que esconde (ou exibe, dependendo do ponto de vista que se adota) um sorriso estranho e monstruoso. Ao longo de um monólogo interior que cobre as primeiras 150 páginas, Aube narra suas memórias à criança que carrega e que ela quer abortar, pois se recusa a trazê-la a uma sociedade onde as mulheres são condenadas à violência.
A protagonista confessa ser dotada de duas vozes: uma interior, que rapidamente se compreenderá ser a língua francesa, aquela em que ela pode dizer tudo, uma vez que ela e a sua “futura” filha são as únicas a ouvi-la; e uma exterior, a língua árabe, língua da repressão, das proibições e da violência.
Labirinto
A segunda seção, “O labirinto”, retoma a famosa metáfora emprestada da mitologia grega antiga para embarcar o leitor em um caminho sinuoso, cheio de perigos para a protagonista. Ela pega a estrada de volta para seu vilarejo natal, local do massacre. Um novo personagem surge, o motorista Aïssa, que dará carona a Aube. Os capítulos dessa seção alternam o discurso do homem e o monólogo interior da protagonista, em uma espécie de relato dentro do relato, cuja extensão dificilmente se justifica dentro da lógica narrativa interna que Daoud cria para a aventura de Aube.
A cronologia fica bastante confusa e é preciso estar muito atento para não se perder — como em um labirinto. O que o autor parece mostrar é que os relatos da guerra de independência são glorificados na narrativa hegemônica nacional e que os relatos sobre a guerra civil são sistematicamente apagados. O romance busca, assim, remediar esse apagamento. No fim do labirinto, o que Minotauro Aube deverá enfrentar?
As memórias da jovem, amalgamadas às de seu país, são narradas à filha que carrega no ventre
Finalmente, a terceira seção, “A faca” conta a chegada de Aube à aldeia, os abusos que ela sofre por parte do imã e o resgate milagroso por Aïssa, que reaparece no momento certo. No epílogo, um ano depois, em uma praia de Orã, a tragédia se converte em final feliz. A faca é um leitmotiv recorrente tanto para a Argélia quanto para outros países árabes-muçulmanos: a faca de O estrangeiro, a faca do relato de Salman Rushdie, a faca do sacrifício do cordeiro, a faca que degola a protagonista, que sobrevive ao massacre e se apresenta doravante como monstro em seu eterno sorriso de Medusa de Cixous, outra argelina nascida em Orã.
É na escrita labiríntica entre a faca e a voz, em que o romancista privilegia a concentração e a repetição como técnicas narrativas, que Língua interior escapa às páginas de crítica literária e alcança o debate jurídico. Daoud, que em 2013 apresentou O caso Mersault, ocupa agora o banco dos réus, desta vez acusado de traição à causa nacional e, por conseguinte, muçulmana.
Em sua tentativa de narrar a história da guerra civil entre argelinos, Daoud teria apresentado uma verdade que teria excedido os limites éticos tanto profissionais quanto nacionalistas. Doravante, o público aguarda a resolução do imbróglio onde um franco-argelino pode ser condenado por ter dito aquilo que julga ser a verdade. A ficção tem o privilégio de contar a verdade, ainda que ela seja como o brilho do sol refletido na lâmina de uma faca.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “O caso Kamel”
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