Crítica Cultural,
Ninguém segura a mão de ninguém
O Centro Distante quer reformar o debate público segundo os princípios de um iluminismo de LED
15jan2026 • Atualizado em: 30jan2026 | Edição #102Em 2020, nós, os que pudemos nos isolar, firmes numa consciência garantida por variados privilégios, até achamos simpático, imaginem, ouvir nas redes, no Zoom, no telefone ou no portão: “Ninguém solta a mão de ninguém”. A pandemia do coronavírus dera encarnação biológica à infecção fascista instalada no Planalto, e em algum momento o desamparo teria nos unido a todos, todas e todes — que, como desconfiávamos, éramos poucos, poucas e pouques, pouquíssimes.
A convalescença da pandemia, acreditamos, seria uma espécie de convalescença democrática: o fascismo derrotado nas urnas e nos escombros de Brasília, derrotado pela justiça e pela estupidez dos próprios fascistas, derrotado pelo indiciamento e prisão de golpistas de batom e de coturno. Nunca foi cura, mas um respiro necessário e breve. Brevíssimo.
“Ninguém segura a mão de ninguém” é o que hoje não se fala nem ouve, mas se percebe em toda parte. Em diversas frentes, desponta e se fortalece uma reação firme a conquistas sociais e políticas. Não se trata de um levante de minions humilhados e ofendidos, que, como a Minas Gerais de Otto Lara Resende, estão onde sempre estiveram. A sublevação insidiosa parte de gente fina, elegante e sincera que se tem na mais alta conta: assina manifesto pago em jornal, se horroriza com 122 cadáveres do massacre da Penha e em outubro próximo até topa um nazista moderado, a ser contido pelos tais “freios e contrapesos”.
Em diversas frentes, desponta e se fortalece uma reação firme a conquistas sociais e políticas
A reação parte do lugar que Andrea Long Chu, crítica da revista New York, localizou no mapa ideológico como Centro Distante, “coalizão frouxa”, diz ela, reunindo gente que “rejeita a ideia de uma ideologia ou de uma política compartilhada”. Prodigiosos em autoestima, “seus integrantes se veem como indivíduos independentemente lúcidos — cidadãos engajados que desejam apenas defender a sociedade civil das insuportáveis intromissões da política”. Unificado pela antipatia ao que entendem como uma “esquerda iliberal”, o Centro Distante é, para Long Chu, “liberal, na medida em que seu valor supremo é a liberdade; mas é também reacionário, pois sua concepção de liberdade carece de qualquer visão correspondente de justiça”.
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Aqui, como nos Estados Unidos, o Centro Distante tem seus alicerces bambos na ideia de polarização. Neste modelo de interpretação, de forte apelo ao senso comum, as mobilizações contra as agendas alimentadas pela ofensiva global da extrema direita teriam resultado, sobretudo entre as esquerdas, na reprodução do autoritarismo que se queria combater. Tomando como medida a terra sem lei do ambiente digital, a reação produz extrapolações oportunas para desqualificar qualquer posicionamento firme como radicalismo, associar embate a cancelamento e demonizar interpelação como censura.
Ao se apresentar como a possibilidade de restaurar valores de justiça, razoabilidade, equilíbrio e moderação, a reação não hesita em esgrimir aberrações cognitivas como “racismo reverso”, doutrinação ideológica na universidade e a pitoresca vitimização do homem pelos feminismos. Numa defesa pavloviana do status quo neoliberal, se distingue da direita rombuda declarando-se simpatizante “crítica” de causas progressistas, aceitáveis na medida em que se conformem a modelos de debate e atuação “consensuais”, ou seja, estabelecidos pelo Centro Distante.
Protocolo
Na chave neutra de um humanismo abstrato, a reação inventa um antirracismo e um feminismo adversativos, mais para protocolo do que para mobilização. Comemora que o mercado editorial possa, enfim, se desobrigar de publicar autores e autoras negros para voltar a uma “ficção de qualidade” (produzida por homens brancos, claro), defende “chamar as coisas pelo nome” (mesmo que o nome, “escravo”, por exemplo, guarde uma conotação política nefasta), desqualifica posicionamento político como pretensa “superioridade moral”.
A reação vive do extrativismo analítico da “polarização”, da qual se apresenta como alternativa, e de seus personagens mais proeminentes, “os identitários”, a quem elegeram como antagonistas. Por seu salvacionismo cool, garante exposição contínua no espaço público em colunas rebarbativas, programas de TV de nicho e entrevistas calibradas no caça-clique. Em palestras, cursos, canais de vídeo, podcasts e outras tribunas retóricas, os desmilitantes da reação (militantes são os outros, é óbvio) tranquilizam uma classe média ilustrada, sequiosa por verniz intelectual para seu niilismo político, em busca de justificativas para a indignação que a invade episodicamente ou mesmo de um abracinho para aplacar o horror a qualquer refrega que de alguma forma comprometa seu conforto.
A agenda declarada da reação é o combate aos autoritarismos “de direita e de esquerda” — e jamais àquele que provém dos consensos pactuados entre os seus na imprensa, nos meios intelectuais e artísticos e até na universidade. Daí o menosprezo e o ataque a toda e qualquer atuação no debate público que ignore autorizações tácitas de grupos de influência ou mesmo legitimação institucional.
Arengas recicladas
O Centro Distante se funda na laboriosa construção de opositores, de um vasto elenco escalado entre as esquerdas. É contra estes que se voltam suas principais intervenções críticas, em geral uma sucessão de arengas recicladas e anedotas pinçadas no noticiário para corroborar “em cima do lance” teses depreciativas sobre qualquer interlocutor em potencial que atue pelo confronto direto ou a partir de uma marca forte de raça, identidade ou classe.
A reação só é solidária no cancelamento, num roteiro por demais conhecido. Começa quando um ou uma desmilitante lança na arena pública, como quem não quer nada, uma provocação casual, clickbait fantasiado de opinião forte. A dinâmica das redes se encarrega do resto: às críticas que se sucedem, previsivelmente exaltadas, o provocador se apresenta como vítima. Denuncia, sem corar, que sofre censura e perseguição, senha para que outros espíritos liberais iniciem, cada qual em sua tribuna, uma defesa coreografada, comportamento que, entre os ditos “identitários”, é reprovado como “tribalismo”. A cada ciclo de provocação, vitimização e demonização do “agressor”, a reação avança um pouco mais.
A reação não hesita em esgrimir aberrações cognitivas como ‘racismo reverso’
O Centro Distante se delegou como missão reorganizar o debate público de acordo com as próprias regras. É curioso imaginar que, na hipótese de esta reconfiguração acontecer, os próprios reformistas, mais reativos do que propositivos, perderiam a relevância. Como na imaginação fabular de “À espera dos bárbaros”, o poema de Konstantin Kaváfis, o Centro Distante é uma cidadela que vive em função da ameaça de invasão, jamais concretizada. “Sem bárbaros o que será de nós?”, escreve o poeta grego. “Ah! eles eram uma solução.”
Em 2026, anotem, ninguém segura a mão de ninguém. Ou melhor, a reação não larga a mão de Adam Smith, aquela que já se quis invisível como tentáculo do mercado, e pode até abraçar o inominável. Tudo em nome da razão, do equilíbrio e do iluminismo de LED dos bem-pensantes.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.
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