Ensaio,
Feliz e triste Natal
Escritora e tradutora gaúcha relembra Natais passados e a perda do irmão, morto em decorrência de uma leucemia em 25 de dezembro de 2024
19dez2025Esta não é uma história convencional de Natal, não quero enganar ninguém que comece a ler isso aqui. Esta história é também de luto. No dia 25 de dezembro de 2024, meu irmão morreu.
Sempre gostei do Natal. Acordo no dia 24, coloco a minha playlist méri crizmas, fico ouvindo música, desejando feliz Natal aos amigos e amigas. Recebo e envio fotos aleatórias do momento presente, de e para quem está longe. Preparo lentamente toda a ceia, que varia um pouco a cada ano.
Em 2024, teve o ceviche natalino de coco. Em 2023, o frango com laranja e o bolo de gengibre. Sempre tem a farofa de banana, cebola e azeitona. Em 2022, teve o arroz com romã. Em 2021, fiz uma torta fria vegetariana — receita da minha irmã — com palmito, cenoura e pepino, que ficou seca.
Gosto de inventar drinks natalinos alcoólicos e não alcoólicos. Água tônica com chá de especiarias, drinks com canela defumada e uísque de maçã, espumantes, refrigerantes caseiros. Eu realmente amo a festa. Compro luzinhas diferentes, umas que piscam, outras que não piscam, em formato de pinheirinho, de bolas, gorrinhos vermelhos.
Mais Lidas
Não tenho árvore grande e pomposa. Costumava desenhar a árvore e o presépio com giz na parede da sala; nos últimos anos, enfeitamos as plantas da casa ou uma pequena arvorezinha plástica com bolinhas, presentinhos e outros enfeites desproporcionais. Meus gatos não deixariam uma árvore maior em pé. Gosto de comprar lembrancinhas para as pessoas que vêm para a ceia, alguma besteira baratinha, e embrulhar num pacotinho bonito, com um recado especial.
Minha avó gostava muito de Natal. Mesa farta, cheia de comidas desconexas, porque cada um gostava de uma coisa — e a gente fazia tudo. Comíamos sempre bem antes da meia-noite, cedo, lá pelas 19 horas, e quando chegávamos à mesa do jantar já estávamos empanturrados. Hoje sigo esta tradição: chego na mesa farta de beliscar coisinhas. É gostoso passar o dia assim.
Na véspera do Natal passado, minha namorada Luciany e eu beliscamos a tarde toda, jogamos alguns jogos, cantamos canções natalinas e brincamos de desenhar uma a outra. Trocamos presentes sobre os quais já sabíamos, somos curiosas. No dia seguinte, comemos a sobra da ceia com duas amigas e bebemos espumante sem álcool.
À noite, perdi meu irmão.
Krishna e Jesus
Mateus era muito comilão. Comia muito, com gosto. Era também um homem religioso. Ainda na adolescência encantou-se com Sri Krishna e decidiu cedo ser monge e viver uma vida de entrega mística, além de celibatária. Isso não foi uma constante, mas foi a maior parte da vida. Por isso, vivemos geograficamente afastados por longos períodos.
Ele morou em muitos lugares do Brasil e do mundo, em busca de servir aos propósitos daquilo em que acreditava. Era um místico, um ser curioso com a vida e seus mistérios, o meu querido irmão. E gostava de sincretismos: uma das figuras religiosas que admirava, fora das constelações védicas, era Jesus. Nos quartos de hospital que ocupou por um ano inteiro, sempre pendurava na parede Krishna, um anjo e Jesus Cristo.
Lá por dezembro de 2023, recebi a notícia de que o Mateus estava internado com algum problema de saúde. Uma doença no sangue, me disseram os médicos, por telefone, de Reims, na França, onde ele estava morando. Ele tinha largado a vida monástica, conhecido Annabelle e casado havia pouco mais de um ano. Dias depois recebemos o nome completo do problema: leucemia mieloide aguda.
Nos quartos de hospital que ocupou, sempre pendurava na parede Krishna, um anjo e Jesus Cristo
Virei dias e noites pesquisando sobre o assunto, fiz contato com a Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), com o Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), vi depoimentos de pessoas com câncer e de seus familiares, passei a seguir a Fabiana Justus, que tinha recebido o mesmo diagnóstico. Pensei que estaria mais pronta para o que viria — não estava.
Desde o dia daquela ligação até o dia em que ele morreu, um ano depois, tudo foi uma cansativa montanha-russa de emoções.
Naquele dezembro de 2023, minha irmã e eu fizemos testes de compatibilidade e assim descobri, com esperança, que eu era cem por cento compatível para doação de medula óssea. Feliz e apreensiva, abri o ano de 2024 com uma diverticulite e muita angústia. Estávamos eu e Luciany em Salvador. Era a primeira vez que passaríamos mais tempo juntas.
Submersa
Meu irmão saiu de um coma e foi transferido para Paris, onde passei cinquenta dias ao lado dele para todos os exames, resguardos e a cirurgia de doação, que é bem exigente com o nosso corpo. O governo francês pagou minha viagem e eu visitava meu irmão diariamente no hospital Pitié-Salpêtrière. Eu chegava sempre perto do meio-dia e ia embora às 20 horas. Às vezes ia mais cedo, às vezes ficava até bem mais tarde. Minha irmã e minha mãe chegaram depois — nos organizamos financeiramente para levá-la, meu pai não conseguiu ir.
Fui literalmente sugada. Doei a medula óssea, meu irmão recebeu o transplante. No dia em que fiz a cirurgia, acordei fraca e zonza da anestesia, e uma emissora francesa mostrava na televisão uma cidade absurda, a minha cidade, tomada de água. Era maio e Porto Alegre e outros municípios do Rio Grande do Sul estavam submersos. Custei a acreditar. Minha mãe já havia retornado e estava ficando na minha casa, cuidando de Chico e Pandora, meus gatos. A enchente não tinha chegado lá, uma preocupação a menos.
Eu tentava compreender o que estava acontecendo, enquanto tentava me recuperar de um cansaço que nem conseguia processar, e ainda cuidar do meu irmão e conversar com ele. A leucemia é uma doença desgraçada. Os resquícios da quimioterapia são horríveis: a pessoa sente dor, fica fraca, é um reset total. Não tive tempo de entender como estava me sentindo, tamanha é a sobrecarga de cuidar de um paciente oncológico. Ser a rede de apoio de um casal recém-casado, sem condições de ser rede de apoio de ninguém.
Duas semanas depois retornei ao Brasil, a uma Porto Alegre devastada. Horrível sensação de que o mundo estava mesmo se acabando. Voltei frágil e dolorida.
Imbatíveis
Em agosto, quando tudo se amenizava, descobrimos que o transplante não tinha dado certo. Pedi como presente de aniversário a todos os deuses e entidades que meu irmão melhorasse. Em outubro, voltei a Paris para ficar com ele, agora sozinha e por minha conta. Não dava para pagar para mais ninguém. Meu irmão parecia bem, ao mesmo tempo que não parecia. Que doença desgraçada, volto a dizer.
Conversamos muito nesses dias. Sobre a vida, sonhos, planos, e sobre a morte. Um dia, no pátio do hospital, ele me perguntou: “Nati, tu acha que é o meu fim?”. E conversamos largamente sobre a vida e seus mistérios e sobre a morte e seus mistérios, sobre os egípcios e suas tecnologias ancestrais, renascimento, tempo, comidas favoritas, passeios que queríamos fazer, Krishna e Jesus Cristo.
Meu irmão e eu sempre tivemos nossas diferenças, às vezes ele era irritadiço. Mas o nosso humor sempre foi imbatível. Desde criança, éramos capazes de nos divertir juntos, nas brincadeiras mais idiotas. Enterrados até os joelhos em montes de areia de construção, correndo um atrás do outro com uma vassoura, andando de bicicleta, jogando videogame da Família Adams ou Super Mario até o controle quebrar, falando besteira, lembrando do que só nós dois vivemos na infância e na adolescência.
Seguimos vidas diferentes, mas sempre nos encontramos naquilo que é próprio dos irmãos
A bicicleta de bicicross, os Changemen, as letras que inventávamos para as trilhas de abertura do Jaspion e do Jiban e dos Super campeões, nossas dublagens de Cavaleiros do Zodíaco. Teve tudo isso. Fomos amigos, irmãos, confidentes, inimigos, piratas, aventureiros, fomos personagens de Pigmalião durante os almoços e ensinávamos bons modos um ao outro, rindo de como a mãe se horrorizava ao ver que um de nós estava limpando a boca na toalha de mesa, no Natal.
Abrimos garrafas de cerveja para provar e colocar água dentro depois, colocamos cabeças de fósforo nos cigarros do pai e aguardamos ansiosos pela explosão, fumamos jornal, tudo a gente fez juntos, carrinho de lomba, andar no mato, braço quebrado, música! Tivemos uma banda, ele tocava bem demais. Eu gostava de cantar. Cantamos juntos no coro da universidade. “Navidad Nuestra” e a “Misa Criolla”. Canções natalinas que vezenquando repetíamos em casa, nessas ocasiões de festividades.
Seguimos vidas diferentes, mas sempre nos encontramos naquilo que é próprio dos irmãos.
Dezembro
No dia 20 de dezembro, aniversário do meu irmão, eu liguei do Brasil. Duas amigas minhas foram à casa dele, levaram comidas e uma blusa bonita que escolhi. Ele parecia fraco, mas feliz. Tinha deixado a barba e o cabelo crescer. Depois da químio, tudo cai, incha, muda de cor. Ele estava um pouco amarelo. Reclamou de sentir um gosto ruim. Desliguei desejando feliz ano-novo.
No dia 24, falei com ele e Annabelle. Ele havia retornado ao hospital. Luciany e eu passamos a véspera de Natal juntas em Porto Alegre. Só nós duas. Eu estava triste e cansada, mas como gosto da festa, arrumei a mesa e enfeitei a casa com flores.
No dia 25 de manhã, Annabelle me ligou: estava cansada. Nos animamos, planejando passar o próximo Natal todos juntos. Na França ou no Brasil. À tarde, Annabelle ligou de novo para dizer que talvez Mateus não passasse daquela noite. Fomos deitar cedo. Fiquei colada ao celular. Um novo telefonema de Annabelle: ele partiu.
Ficamos vinte minutos cantando o “Maha Mantra” ao telefone. Eu pensando que teria que ligar para a minha irmã e combinar quem ligaria para a mãe e quem ligaria para o pai. E assim fizemos na noite do dia 25 de dezembro. Como se conta a uma mãe e a um pai que seu filho morreu? Como se assiste a um amor partir? Meu irmão dizia que não era morrer, era “abandonar o corpo”. Perdi meu irmão. Só consegui chorar quinze dias depois.
Agridoce
Amo Natal, mas nem sempre foi assim. Passei um ou outro trabalhando, como garçonete em um bar em Caxias do Sul. Outros passei sozinha e magoada, porque tinha brigado com a minha família. Minha sorte é que não sou de guardar mágoa. Bate o sino e já esqueci. Teve um ano em que roubei as fotos da minha família. Estavam mal guardadas, mofando em uma caixa de sapato. Roubei. Não se deram conta, fui embora antes. Passei sozinha. Hoje não sei se guardo as fotos tão melhor assim. O fato é que desde aquele dia, lá pelos anos 2000, decidi que teria bons Natais.
Ah, Mateus, tu foi morrer, cara! Por quê? E bem no Natal. Fiquei feliz em poder estar mais perto de ti nos últimos tempos, de poder me doar no meu mais íntimo. Tudo valeu a pena. Mas que doença desgraçada do caralho. E bem no Natal, ela te levou.
Sugeri que celebrássemos o Natal deste ano aqui em casa. Minha mãe pediu que as comidas fossem todas vegetarianas, para lembrarmos do meu irmão. Outro dia mandei para ela uma foto da toalha de mesa e ela respondeu: quero muitas luzinhas para iluminar o Mateus.
Não sei como vai ser. Triste porque sentiremos a tua falta, porque não vamos poder mandar selfie usando gorrinho de Papai Noel, e não receberemos vídeos de “Natal sem carne” no dia 24, nem gravações de canções natalinas com voz e violão. Triste, como está sendo escrever este texto, que só aceitei porque talvez assim eu conseguisse elaborar esses sentimentos esquisitos que vêm com o luto. Tudo manchado com alguma tristeza.
O certo é que nada é uma coisa só na vida. Estamos munidas de luzinhas, como minha mãe pediu. Hoje meu pai me mandou uma mensagem dizendo que não vê a hora de estar com a gente. Foi um ano corrido, não conseguimos estar tão perto. Mas, neste Natal agridoce, estaremos juntos. Já decidimos o cardápio: uma torta fria e o pastelão de legumes da mãe, pratos que Mateus adorava. Celebraremos a memória do meu irmão, que era Hare Krishna e que gostava de Jesus. Vai ser um encontro de vida.
