Literatura,
A arte do ensaio impessoal
Precisamos estar dispostos a criar espaços em que a solidariedade é uma das possibilidades
01jan2026 • Atualizado em: 05jan2026 | Edição #101O primeiro ensaio que se escreve é uma redação para o colégio. Foi assim comigo. Mas os únicos exemplos dos quais me lembro são os que escrevi nas provas finais, as do A-level [curso preparatório para a universidade]. Um comparava Hitler a Stálin. Outro, Martin Luther King Jr. a Malcolm X. Tinha o maior orgulho da redação em que discutia se o poeta John Milton — com o devido respeito a William Blake — era “do partido do diabo sem ter consciência disso”. Eu me saía bem nas provas padronizadas, mesmo que a aprovação não fosse nada garantida. No ano anterior, tinha fumado maconha demais, estudado pouquíssimo e me ferrado nos simulados. Desde então, havia tomado jeito — mais ou menos —, mas ainda me sentia sobrecarregada com a tarefa que tinha pela frente. “Todo o meu futuro”dependia de redações escritas no corredor do colégio, com meras três horas de prazo? “Sério?” Nos anos 90, era isso que a gente chamava de “meritocracia”. Como sistema de avaliação, a meritocracia favorecia os ousados e os arrogantes, arrasava com o restante e era irrelevante para os ricos, cujos colégios inculcavam técnicas de redação nos alunos desde o início. Num colégio como o meu, as provas eram uma surpresa. Até então, pensávamos no colégio basicamente como um evento social, uma recepção para um grupo diversificado de adolescentes, muitos tendo chegado ao país pouco tempo antes — uma ONU em miniatura, mas com acesso mais fácil a psicodélicos. Praticamente metade da escola era eliminada logo no primeiro obstáculo, abandonando os estudos após o G.C.S.E., com apenas dezesseis anos. (Para o G.C.S.E., o exame de conclusão do ensino médio britânico, geralmente se estudavam cerca de nove matérias; para o A-level, apenas três.) Aqueles de nós que sobreviveram lutaram para seguir em frente, tentando passar pelos furos cada vez mais finos da peneira. Se você não conseguia fazer contas e tinha dificuldade nas ciências exatas, cada furinho vinha acompanhado de um tema de redação. (Fiz para inglês, história e estudos teatrais.) O risco parecia não só elevado, mas existencial. Você tinha que escrever mil palavras impactantes sobre a ascensão dos cartistas — ou então… O que significava “ou então”? Nunca ganhar mais de um salário mínimo, nunca sair do apartamento da mãe, nunca “ser alguém na vida”. A ansiedade com tudo isso me paralisava.
Como sistema de avaliação, a meritocracia favorecia os ousados e os arrogantes, arrasava com o restante e era irrelevante para os ricos
Então aconteceu uma coisa. Um professor de inglês me chamou de lado e desenhou um retângulo numa folha, colocou uma seta em cada canto do retângulo, outra na metade da linha horizontal superior e uma última seta, na mesma posição, logo abaixo. “Seis pontos”, o professor disse. “No sentido horário, a primeira seta é a introdução, a última seta é a conclusão. Entendeu?” Entendi. Ele continuou: “Na segunda seta você basicamente desenvolve o que disse na introdução. Na terceira seta ou você desenvolve aquela ideia ou banca a advogada do diabo. Na quarta seta está começando a ver a linha de chegada, então comece a reduzir o ritmo, comece a resumir. A quinta seta indica que está um passo mais perto de concluir, então repita o que foi dito antes, mas com variações. Na sexta seta está na reta final: chegou à conclusão. Facinho, facinho. É só isso aí mesmo”. Tive a sensação de estar sendo admitida no santuário particular daquele professor sobrecarregado, como se ele tivesse desenhado aquele pequeno retângulo com seis setas nas próprias provas, muito tempo atrás. “Ah, e lembre de colocar o título da redação naquele quadrado. Vai ajudar você a não perder o foco.”
Tinha dezessete anos quando recebi esse conselho valiosíssimo. Agora tenho quase cinquenta e, embora não desenhe o retângulo com tanta frequência, esse modelo simples e elegante ficou gravado no meu córtex cerebral, iluminado feito o capacitor de fluxo em De volta para o futuro. Ainda uso. Ainda penso nele toda vez que me sento para escrever algo como o que você está lendo agora. Continuo admirando seu ímpeto impessoal e implacável. E, quando iniciei as temidas provas do A-level do ensino médio, esse pequeno rabisco foi a primeira coisa que fiz, direto na mesa, com resultados imediatos. Minha respiração se acalmou. Estava tranquila. Facinho, facinho. O que parecia uma tarefa impossível se transformou numa questão prática de seis setinhas que irradiavam de um conceito central. E as setas um e seis já estavam definidas! (Ainda escrevo primeiro as frases de abertura e de conclusão dos ensaios.) “Certo, agora a coisa é só uma questão de quatro setas?” Pela minha experiência, todo tipo de escrita exige algum tipo de truque mental estilo Jedi para acalmar a mente e, quando se trata de um ensaio, esse retângulo é o meu truque.
*
A experiência formativa seguinte envolvendo a escrita de ensaios ocorreu na faculdade. Continuava devota do método impessoal do retângulo, mas era 1994, estava chegando à idade adulta enfim, e a questão pessoal era, aparentemente, tudo o que restava no cenário intelectual. Como consequência, mudei de rumo e minha primeira redação para o curso de letras foi um relato apaixonado do que a literatura havia significado para mim, uma jovem londrina nos anos 80, um tópico a que dei vida transformando todos os escritores que considerava importantes — incluindo os que já haviam falecido — em personagens que jantavam comigo, e que então começavam a discutir todas as maneiras como seus escritos me afetaram, a mim, Zadie, pessoalmente, e como eu em especial me sentia a respeito daquilo. Estava apaixonada por esse ensaio. Atravessei o pátio correndo e o empurrei por baixo da porta do escritório do meu professor no meio da noite. Dois dias depois, foi devolvido com um único comentário: “Isto não é um ensaio”.
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Fiquei arrasada, mas não devia ter me surpreendido. Era uma reação perfeitamente representativa de The Cambridge Mind [sem tradução no Brasil], o título de um livro que encontrei num sebo e que comprei no verão antes de “ascender” ao King’s College, numa tentativa de compreender o que logo ia ter de encarar. Em meados da década de 90, o tipo de espírito cujo desenvolvimento era incentivado no King’s College era basicamente o mesmo esperado dos alunos por volta de 1500. (A faculdade fora fundada por Henrique 4º em 1441.) Um espírito discursivo, objetivo, irônico, filosófico, elegante e racional. Eu não era nenhuma dessas coisas. Era expressiva, desorganizada, caótica e ficava cada vez mais furiosa. Grande parte da minha fúria era direcionada à própria universidade. Quanto mais ouvia sobre a vida pregressa dos meus colegas, mais furiosa ficava. Não sabia que existiam escolas de onde a grande maioria dos alunos deslizava, ano após ano, sem exceção, para o equivalente britânico da Ivy League. Como é que todos eles “mereciam” aquilo? E por que é que parecia haver tantos Bertie Woosters e tão poucos Alan Turings? Ouvi uma história diferente: que, todo ano, dois ou três excepcionalmente brilhantes saídos de um colégio com 2 mil alunos — ou de uma cidadezinha inteira! — escreviam as melhores redações e, portanto, entravam nas melhores universidades. (Uma imoralidade em si, mas pelo menos uma imoralidade compreensível para a adolescente ambiciosa e patética que eu era naquela época.) Como se viu, a coisa nunca teve a ver com redações. Não tinha a ver com mérito. Os pouquíssimos alunos negros e pardos, os pequenos grupos de alunos de escolas públicas, o punhado ainda mais reduzido de alunos da classe trabalhadora do entorno de Londres ou dos condados vizinhos — éramos só as exceções que confirmavam a regra. A exposição súbita e total a essa verdade me deixou perturbada. Síndrome da impostora não chega nem perto de descrever a situação. No meu primeiro ano, tive um pequeno colapso e fui reprovada nas provas simplesmente porque entrei na sala e… não escrevi nada. Nenhuma redação sobre Gawain e seu Cavaleiro Verde [da saga da Távola Redonda]. Nenhuma redação sobre coisa alguma. Fiquei sentada lá por três horas olhando a página em branco e, então, saí.
Não consigo me derramar na página, mesmo sabendo que muitos veem isso como um sinal de autenticidade
Toda a minha trajetória acadêmica poderia ter seguido assim. Mas, no segundo ano, o contato com um trio de grandes ensaístas mudou o rumo da minha vida. Um deles era meu professor, Peter De Bolla, o do “Isso não é um ensaio”. Os outros eram os dois Tonys — Tanner e Judt —, nenhum dos quais cheguei a conhecer. Os três tinham sido kingsmen [alunos do King’s College], mas o que esses homens realmente tinham em comum, na minha opinião, era a classe social. Em alguma medida, pertenciam a uma classe que eu quase reconhecia. A mãe de Tony Tanner era professora e ele estudou na escola primária local. Tony Judt era filho de um cabeleireiro e cresceu no andar de cima do salão onde os pais trabalhavam. Pete, por sua vez, era filho de um homem que saiu de casa e da escola aos nove anos e se tornou açougueiro. Não me pareceu coincidência que os três escrevessem com raiva, precisão e sagacidade sobre o papel da cultura literária nos sistemas de classes. Seus ensaios me inspiraram: a literatura era uma preocupação viva nas obras deles, não um jantarzinho burguês animado. Li o que Judt escreveu sobre a irresponsabilidade política de Sartre e li o que Tanner escreveu sobre as ideias políticas perspicazes de Jane Austen. Ouvi Pete falar do papel dos pobres nos cenários e na imaginação dos ricos. Comecei a pensar nos meus ensaios de forma diferente. Não era uma questão de Andrew Marvell significar algo para mim, pessoalmente. Era uma questão de o poema “O jardim”, de Andrew Marvell, revelar algo sobre a atitude inglesa em relação à terra e ao capital. Desenvolvi uma noção diferente do que um ensaio poderia ser. Compreendi que os três eram “ensaístas pessoais”, no sentido de que se importavam profundamente com os temas, mas quase nunca eram figuras centrais nos textos; a energia deles estava direcionada para outros assuntos. E segui o exemplo, canalizando minha fúria para explicações, descrições e análises expressas com frieza. Na dissertação que escrevi para a avaliação final, acabei seguindo literalmente o exemplo de Pete e retratando com a maior vivacidade possível as estruturas econômicas e as hierarquias de classe ocultas no projeto de um jardim aristocrático inglês. (O que uma cerca de contenção esconde? O fato de que a terra foi cultivada por trabalhadores.) Mas e meu tom? Controlado. Impessoal.
Esse tom, para o bem ou para o mal, permaneceu comigo. Fui ensinada a escrever assim e escrevo assim. Simplesmente não consigo me derramar na página como algumas pessoas se derramam ou usar letras maiúsculas ou itálico para expressar emoção, mesmo sabendo que é o esperado e que muitas pessoas não só preferem isso como veem a coisa como um sinal de autenticidade. Os hábitos de redação da época de escola nunca me abandonaram. Percebo que continuo não querendo que as pessoas se identifiquem com o que digo num ensaio ou mesmo que se comovam com a forma como digo. (Com a ficção, minha sensação é oposta.) Só quero pensar em voz alta a respeito das coisas que mais importam para mim.
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“Como posso saber o que penso antes de ver o que eu disse?” Outro kingsman: E. M. Forster. Entendo o que ele quis dizer, mas em mim o processo é inverso. Porque, a bem da verdade, costumo ser imediatamente influenciada pela última moda intelectual, e o primeiro rascunho de qualquer ensaio é, na maior parte das vezes, uma repetição cínica e obediente do argumento do dia. Mas, depois de uma hora ou mais, vejo o que escrevi e percebo que não penso nada daquilo. Releio. Enrugo a testa. Apago. Tento de novo, desta vez me permitindo pensar com honestidade, em voz alta, um processo que envolve as diversas correntes do meu pensamento debatendo entre si, como sempre fazem. Sendo totalmente sincera: no fundo, essas vertentes são extraídas de quatro grandes “ismos”. Feminismo, existencialismo, socialismo e humanismo. Só o primeiro continua na moda, e o último foi tão corrompido, mal utilizado e instrumentalizado ao longo dos séculos que se tornou quase impensável em conversas com pessoas educadas. Ainda assim, essas são as ideias que me moldaram na adolescência e que permanecem na minha maneira de pensar e escrever. Não importa qual seja o tema no retângulo, elas estão à espreita, me cutucando, me corrigindo, me lembrando daquilo que realmente penso. Daquilo em que realmente acredito.
O primeiro rascunho é uma repetição do argumento do dia. Depois percebo que não penso nada daquilo
Na prática, são como um quarteto irritante de figuras maternas, resmungando caso me vejam, por exemplo, tratando um ser vivo como um meio em vez de um fim — mesmo que retoricamente, mesmo que por um instante —, ou suspirando tristemente quando uso aquele termo totalizante, “o povo”, que pode obscurecer tanto quanto ilumina. Transformam cada ensaio numa batalha. A existencialista que se senta à minha escrivaninha sente que cada um de nós é jogado individualmente no abismo da existência e incumbido de nadar, e que essa incumbência é terrível e difícil. Mas tanto a socialista quanto a feminista sabem que nem todas as extensões de água são iguais. (Algumas são piscinas cristalinas e cheias de cloro, rodeadas por cercas altas. Outras são pântanos nos quais você não ia gostar de molhar os pés.) A humanista, por sua vez, acredita que, se você insiste em água limpa para todos e na justiça dessa exigência, provavelmente vai ter de explicar por que não abre exceções à palavra “todos” — apesar das inúmeras diferenças entre as pessoas, apesar das histórias e experiências distintas — e apresentar esse argumento numa linguagem que não seja, no fundo, metafísica. (Uma linguagem metafísica e sagrada talvez funcionasse igualmente bem, mas, atenção, ia alienar os ateus.) Bom, e quanto à água, o que isso tudo significa? É a romancista dentro da ensaísta, que adora uma metáfora e pressente que uma metáfora tende a ser mais compreensível para o leitor genérico do que mil páginas do meticulosamente fundamentado Thomas Piketty.
E escrevo ensaios para o leitor genérico. Eles não têm como alvo o estudante de pós-graduação do Brooklyn que vive um relacionamento poliamoroso, assim como não têm como alvo a enfermeira sobrecarregada de Déli ou o advogado rico de Lagos. Embora eu nunca tenha desejado que nenhum leitor (ou qualquer pessoa, na verdade) se “identificasse” propriamente comigo, sempre quis estar “em relação”, o que é diferente. Não precisamos ser iguais uns aos outros, nem sequer gostar uns dos outros, para estarmos em relação. Só precisamos estar dispostos a criar e frequentar espaços em que a solidariedade é uma das possibilidades. Para vários leitores, claro, a solidariedade ainda pode se mostrar impossível. Pode ser impraticável, impensável, uma traição aos próprios sistemas de pensamento, ou simplesmente cringe, “constrangedora”. Mas tento escrever de um jeito que mantenha essa possibilidade viva. Para mim, a prática do ensaísmo é isto: uma tentativa hesitante de recriar, com a linguagem, um espaço comum, que seja aberto a todos. É desse lugar otimista que apresento minhas ideias e argumentos, sim, tais como são, é claro, mas sem exigir o documento de identidade de ninguém no parágrafo introdutório. Porque isso foi algo que aprendi ao longo dos anos. Às vezes é preciso, de modo a criar esse espaço mais aberto, afrouxar o apego aos seus “ismos” mais queridos.
Que tipo de linguagem vai modelar e deixar em aberto a possibilidade de solidariedade?
Se dependesse de mim, por exemplo, eu trocaria com muita alegria aquele termo frágil e sempre inadequado, “humanismo”, por algo mais amplo, mais abrangente. Um neologismo brilhante e reluzente que ainda pusesse o florescimento humano no centro dos nossos processos sociais e políticos, mas que também englobasse a supremacia de todos os seres vivos — incluindo o mundo natural. Como filosofia, o termo rejeitaria fortemente a crença atual na supremacia das máquinas e do capital. Filoanimismo? Mas o nome não é bom. (Gostaria de ouvir outras opções!) Seria um trabalho coletivo, o desse discurso, e ele compreenderia que, nestes tempos conturbados, embora nossas semelhanças possam ser tão pequenas ou difíceis de localizar a ponto de nos desanimar, elas ainda existem. Já conseguimos localizá-las antes, e não faz muito tempo, usando a linguagem como bússola. Por exemplo, o slogan político mais inspirador (para mim) dos últimos vinte anos conseguiu criar um espaço comum numa única expressão: “os noventa e nove por cento”.
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Às vezes, o próprio ato de buscar solidariedade é caracterizado simplesmente como a demanda de um “terreno comum”, um destino fácil de menosprezar como um lugar medíocre, como um não lugar, como algo apolítico. Outras vezes, suspeita-se que seja uma zona ingênua de pensamento mágico, onde as pessoas têm de fingir que são iguais e que vivenciaram as mesmas coisas para poder trabalhar juntas. Prefiro pensar nisso como “espaços comunitários”. E, quando me sento para escrever um ensaio, acho útil lembrar as raízes históricas radicais desse conceito. Imagino a charneca devastada do século 19, um descampado prestes a ser cercado pelas forças do capital onde uma grande multidão se reuniu justamente para protestar contra o cercamento iminente. Mas não só isso. Uma variedade de causas sobrepostas é representada por aquele espaço, embora todas estejam, no fundo, relacionadas à liberdade. Os abolicionistas, os sufragistas, os sindicalistas, os trabalhadores e os pobres estão presentes em peso, ao lado de alguns radicais da reforma agrária que poderíamos chamar de cristãos socialistas e, sim, tudo bem, alguns cartistas da velha guarda. Além de alguns antivacinas, alguns jacobitas e alguns milenaristas. (Esse é o problema de não haver cercas: qualquer um pode aparecer.) Hoje, no espaço comunitário, todas essas pessoas se reuniram para se opor a um inimigo comum — o latifundiário —, mas a disputa e o debate ainda estão por toda parte, e você, o próximo orador a subir no palanque, precisa decidir de que jeito se dirigir a essa multidão enorme. Você pode ter um objetivo muito específico em mente: um argumento em particular, uma causa singular, um profundo desejo de converter ou de influenciar. Mas você não está na sua sala de estar, na sua igreja, na sua sala de reuniões ou no seu cantinho da internet. Você está num palanque improvisado no espaço comunitário; qualquer pessoa pode se postar diante de você. Você vai ser tão genérico e abrangente a ponto de dizer quase nada? Ou tão específico que, na prática, vai falar sozinho? É complicado. Alguma retórica é necessária, sem dúvida. Você vai precisar prepará-los antes de começar a falar. E nunca deve se esquecer de que à sua volta há uma explosão de alteridade: pessoas com histórias, traumas, lembranças, esperanças e medos únicos. Mas essa multiplicidade não precisa alterar seus comprometimentos — pode até intensificá-los.
Cada versão de mim é pacifista. Cada versão acredita que a vida humana é sagrada
Imagine, por exemplo, uma abolicionista do início do século 19, em pé, no frio, ouvindo um ativista trabalhista. Ele defende a expansão do direito de voto de uma elite proprietária — masculina, é claro — para todos os trabalhadores, mas em nenhum momento menciona o voto feminino. Minha abolicionista imaginária fica cada vez mais rígida — e mais irritada. Mas a visão limitada do cavalheiro também pode levar a uma nova forma de solidariedade, fazendo com que ela perceba que argumentos em favor da mera “liberdade” dos escravizados, como são os dela, são insuficientes: seu apelo deve incluir a reivindicação do pleno direito de voto. Da próxima vez que essa minha abolicionista pisar no espaço comunitário, vai se sentir mais disposta a subir no palanque e estabelecer uma conexão entre as diversas formas de privação de direitos que, embora possam parecer diferentes, têm pontos cruciais de contato. Afinal, uma coisa que trabalhadores, mulheres e quase todos os escravizados tinham em comum, num espaço comunitário, era o fato de que nenhum deles podia votar. (Um ponto de convergência que Robert Wedderburn — ensaísta e pregador, e filho de uma mulher jamaicana escravizada — observou várias vezes.)
Que tipo de discurso pode estabelecer essas analogias, ao mesmo tempo reconhecendo e preservando a diferença? (Um homem escravizado não está na mesma situação que um camponês trabalhador.) Que tipo de linguagem vai modelar e deixar em aberto a possibilidade de solidariedade, mesmo que seja a solidariedade mais pragmática e temporária? O orador vai ter de ser aberto, vai ter de ser claro, vai ter de ser um tanto engenhoso. Vai ter de ser relativamente sucinto, apresentando o argumento em não mais do que, digamos, seis partes. Seu discurso vai ser apaixonado, mas genérico, e acho que ajuda um pouco se tiver um toque de elegância, permitindo que os argumentos deslizem à revelia das defesas habituais do ouvinte, embora esse deslizar — feito um pato atravessando um lago — geralmente envolva remadas frenéticas lá embaixo, fora do campo de visão. Uma performance complexa, portanto. Porque a multidão é complexa. Porque a vida é complexa. Qualquer ensaio que inclua a frase “De fato é muito simples” nunca vai ser um ensaio para mim. Nada que tenha a ver com a vida humana é simples. A estética não é, nem a política, nem o gênero, nem a raça, nem a história, nem a memória, nem o amor.
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“Fazer um ensaio” é, óbvio, tentar. Minha versão de tentar envolve expressar ideias de uma forma suficientemente aberta, espero, para que os leitores sintam que estão experimentando junto comigo. Enquanto tento, também me esforço para permanecer envolvida (e envolvente) porém impessoal, porque, embora o pessoal sem dúvida seja interessante, humano e vívido, ele me parece um tanto limitado, privado e parcial. Consequentemente, a palavra “nós” aparece com bastante frequência nos meus ensaios. Isso não acontece porque acho que falo por muita gente, ou porque espero que minhas opiniões se apliquem a todos, mas porque estou em busca do pequeno pedaço de chão onde esse “nós” é aplicável. Porque, uma vez encontrado esse espaço ideal, é possível erguer algo ali. É a existencialista na minha escrivaninha que está em melhor posição para encontrar esse lugar. Ela diz para si mesma: Quase todas as pessoas que conheço (e eu mesma) já sofreram. E absolutamente todas as pessoas que conheço (e eu mesma) vão morrer.
Esses dois fatos, um quase absoluto e o outro universal, representam o “nós” mais sólido que conheço e ocupam minha imaginação desde a adolescência. Foi naquele momento que a constatação de que todos nós estávamos diante da morte e próximos do sofrimento se tornou evidente, e pareceu deixar totalmente claro, por exemplo, que a pena de morte era uma monstruosidade e a prisão, geralmente, um erro conceitual, em que o crime mais comum era a pobreza. Foi só na faculdade que conheci pessoas que, diante dos mesmos fatos fundamentais — dor, morte —, chegaram ao que consideravam conclusões perfeitamente razoáveis, mas muito distintas. Conheci pessoas que acreditavam em algo como “mentalidade criminosa”. Conheci pessoas que pensavam que a pobreza era sobretudo um sinal de preguiça ou de falta de ambição. O que antes parecia simples tornou-se complexo. Mantive minhas crenças, mas a ideia de que eram ou deveriam ser “totalmente óbvias” para todos — isso sim se dissipou.
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Além do fato de que nunca tive a intenção de ser ensaísta, o detalhe que mais me surpreendeu nos últimos vinte anos foi que, na verdade, escrevi ensaios de forma mais pessoal do que jamais imaginei ou pretendi. Ainda assim, ao revisitar meu “eu” em tantos ensaios, percebo que a pessoa que digita esse “eu” permanece muito difícil de definir, até mesmo para mim. Para começar, nunca é exatamente o mesmo “eu” que digita a palavra “eu”, por causa da forma como o tempo funciona. Por causa da forma como a vida é. Já fui, por exemplo, muito solteira e muito casada. Já fui pobre, de classe média e rica. Já amei mulheres, já amei homens, mas nunca amei ninguém especificamente por causa do gênero da pessoa — sempre foi uma consequência de quem eram essas pessoas. Às vezes me sentei à mesa vestida como Joan Crawford. Outras vezes, como alguém que veio consertar a pia. Já estive totalmente distante da maternidade e, depois, grávida ou com um bebê num cesto aos meus pés. Já fui mãe de um cidadão britânico e depois mãe de um americano. Como figura pública, fui alvo de diversas projeções e vi versões irreconhecíveis de “mim” circularem na esfera digital, muito além do meu controle. Mas também continuo sendo quem e o que sempre fui: uma mulher negra birracial, nascida no noroeste de Londres, filha de mãe jamaicana e pai inglês. Pessoalmente, sinto que sou uma estranha que não pertence a lugar nenhum — e nunca me importei muito com isso —, mas, no contexto dos meus ensaios, entendo que muitos, ou até mesmo a maioria, dos meus leitores têm sentimentos diferentes diante dessa questão espinhosa do “pertencimento”, então muitas vezes tento escrever frases que levem em consideração esse fato fundamental.
Se meu próprio “eu” continua sendo algo diverso — como já escrevi muitas vezes —, é justamente a variedade que me obriga a reconhecer os pontos de continuidade: os fundamentos. Aquilo em que acredito sinceramente, como ser humano. Cada versão de mim é pacifista. Cada versão acredita que a vida humana é sagrada — apesar de a palavra “sagrado” ser frequentemente usada como arma nos argumentos dos conservadores e permanecer basicamente inadmissível dentro dos quatro “ismos” que mais contribuíram para me formar. (Mas essa é a vida de uma romancista. Não podemos funcionar só com base em “ismos”.) Cada versão de mim sabe que educação, saúde, moradia, água potável e segurança alimentar são direitos, não privilégios, e devem ser garantidos dentro de um espaço comunitário que seja protegido a despeito dos caprichos do mercado. No entanto, dizer essas coisas é (na minha opinião) dizer o mínimo necessário: é dizer quase nada. Para mim, a única importância dessas crenças quando estou escrevendo um ensaio é que elas são praticamente inabaláveis e, seja quando estou analisando um filme, descrevendo uma pintura, defendendo um argumento ou ponderando uma ideia, representam os lados sólidos do meu maldito retângulo, não importa qual seja o título no centro.
(Tradução de Camila von Holdefer)
Esse texto foi publicado originalmente na New Yorker com o título “The Art of the Impersonal Essay“, em 22 de setembro de 2025.
Copyright © Zadie Smith 2025. Reproduzido com a autorização da autora a/c Rogers, Coleridge & White Ltd., 20 Powis Mews, London W11 1JN.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026. Com o título “A arte do ensaio impessoal”
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