Literatura,
Uma cidade de palavras
Autor de uma das mais persistentes radiografias literárias de Cuba, Leonardo Padura faz de novo romance um caderno de viagem interior pela paisagem que o formou
08dez2025 • Atualizado em: 09dez2025 | Edição #101Há escritores cuja obra nasce de uma geografia física; outros, de uma geografia moral. No caso de Leonardo Padura, Havana é as duas coisas. Nascido em 1955 no bairro de Mantilla, um canto discreto da capital cubana, Padura fez da cidade o seu horizonte íntimo e o seu campo de observação política. Ficou quando tantos partiram. Permaneceu no lugar que o formou — por lealdade afetiva, mas também por necessidade de testemunhar de dentro a lenta metamorfose do país. Escritor, jornalista, cronista do real e das suas zonas opacas, compôs ao longo das últimas décadas uma das mais persistentes radiografias literárias de Cuba, entre romances policiais protagonizados por Mario Conde e o grande fôlego histórico de O homem que amava os cachorros (Boitempo, 2015, trad. de Helena Pitta).
Dito isto, Ir até Havana (Boitempo, 2025, trad. de Monica Stahel) é talvez o gesto mais depurado dessa relação entre cidade e escritor: um regresso à cidade como quem regressa a uma ferida antiga. Não é um guia, não é uma reportagem, não é um passeio nostálgico. É um caderno de viagem interior, um livro que pensa a cidade enquanto caminha por ela, atento às sombras das fachadas, aos corpos que se movem lentos, à obstinação cotidiana dos que ainda acreditam que a vida tem o peso e a dignidade das pequenas coisas repetidas.
De Guadalajara, no México, onde participou da Feira Internacional do Livro, Padura fala-nos dessa Havana onde não procurou coisas épicas, mas o detalhe. De um motor antigo, de um café improvisado, da alegria súbita de um vendedor de rua, da ruína que avança. E não cede ao sentimentalismo. O olhar é terno, mas nada indulgente. Tem a ética do testemunho que recusa folclore.
O mais silencioso dos livros do autor é um mapa emocional de um lugar que continua a pulsar
No livro, como na conversa, a cidade é uma personagem vulnerável, contraditória, exausta e viva. É a metáfora do próprio país, um espaço suspenso entre a memória e o adiamento, entre a promessa revolucionária e o desgaste material que corrói expectativas e cotidianos. É a cidade enquanto ponto de partida para uma reflexão sobre pertencimento, desencanto e resistência. Num tempo em que Havana é frequentemente reduzida a postal, ideologia ou ruína fotogênica, Padura oferece o contrário: complexidade. Devolve a cidade ao campo íntimo onde a literatura acontece, onde o real se transforma em consciência. Ir até Havana é, talvez, o mais silencioso dos livros de Padura, um mapa emocional de uma cidade que continua a pulsar, e é nesse pulso, irregular e teimoso, que o escritor encontra o seu centro.
O título do livro recupera uma expressão que de alguma forma sintetiza o seu caso com a cidade. Como definiria este modo de dizer “ir até Havana”?
A minha casa fica num bairro no sul de Havana, na periferia. Quando nasci, era o derradeiro local ao sul a partir do centro da cidade numa continuidade de construções urbanas. A seguir, já havia espaços que não estavam construídos. Nesse bairro nasceram o meu pai, os meus avós, e foi onde eu nasci e continuo a viver há setenta anos. Dali sempre tivemos a necessidade, ou o prazer, de nos deslocarmos para o centro institucional, comercial e histórico. Na minha casa e em todo o bairro se dizia: “hoje vamos a Havana”, como se não vivêssemos na cidade. E íamos como se fosse uma viagem, uma excursão. Havia um movimento. Quando eu era pequeno, cada uma dessas excursões, dessas viagens, tinha o sabor de uma aventura e houve algumas descobertas importantes que fiz indo a Havana com o meu pai.
Por exemplo?
Uma das memórias mais bonitas e antigas que tenho é das vitrines das lojas que se preparavam para o Natal. Era um espetáculo ver aqueles cenários dos Reis Magos. Já começava a haver uma influência da presença do Papai Noel, mas havia brinquedos, árvores, enfeites, luzes. Nunca mais voltei a ver algo tão atraente. Talvez seja o olhar de uma criança — deve ser o olhar de uma criança — mas nunca mais voltei a ver algo tão impressionante como aquelas vitrines. Também íamos a um lugar que mais tarde descobri ser o bairro judeu da cidade, onde se passa parte do meu romance Hereges (Boitempo, 2015, trad. de Luiz Bernardo Pericás), que fala sobre os judeus em Cuba. Lá morava uma das minhas tias com dois dos meus primos. Era um lugar muito atrativo, pois tinha restaurantes, cinemas, cafés e confeitarias. Havia uma confeitaria onde se comiam os melhores bolos de goiaba que já comi na vida. Mantém-se na minha memória essa sensação de descoberta do que era agradável, amável e belo na cidade. Sei que é uma visão parcial, mas é a visão que me acompanhou durante todos estes anos em cada tentativa de ir até Havana. Depois, fui a Havana de muitas maneiras, é claro. Fui como estudante, como jornalista, como escritor, como um jovem que ia a locais de diversão em um determinado momento, aos cinemas de Havana, mas aquelas aventuras foram o início de um amor e de um encantamento pela cidade.
‘Minhas personagens expressam-se em habanero, há micromundos culturais aos quais se pertence’
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No início do seu livro, você fala justamente de amor e encantamento como definidores da relação que tem com Havana.
Acontece uma coisa com as cidades: à medida que as vamos conhecendo e as vamos vivendo, temos sensações diversas com esse espaço urbano que também é um espaço histórico e, acima de tudo, um espaço humano. O que dá sentido às cidades é o fato de haver pessoas a viver nelas. Fui descobrindo essa cidade e fazendo uma série de apropriações que depois foram muito importantes para o meu trabalho como escritor, porque havia uma série de lugares muito carregados de simbolismo ou de significado. Por exemplo, o Malecón. O calçadão de Havana é talvez o lugar que mais contribui para o caráter da cidade, porque é uma cidade à beira-mar e, às vezes, dependendo de onde nos sentamos no calçadão, podemos ficar de frente ou de costas para o mar e isso faz com que a nossa visão da cidade seja a de uma última fronteira. Há uma rua em Havana que fica num lugar que se tornou o bairro central da cidade, El Vedado, que desce em direção ao mar. Esse lugar estava cheio de pontos para ouvir música, ir a exposições e cinemas, e também foi um dos lugares de que me apropriei de forma muito intensa numa fase da minha vida, a da adolescência e juventude. Mas, acima de tudo, há um
bairro vizinho do meu, La Víbora, onde fiz os meus estudos pré-universitários. Foi nesse bairro que nasceu a minha mulher, Lucía. Naquela época, eu ainda não a conhecia, mas foi um local muito importante porque o vivi ali num momento em que ainda não se é adulto, mas já não se é criança e
começa-se a ter uma ideia muito maior das relações de amizade, de amor, de companheirismo, e a ter certas responsabilidades. Foi nesse bairro que fiz a transição da adolescência para a vida adulta. Havana está cheia de lugares que têm um significado muito grande para mim, que vão além da sua estrutura física. O que aconteceu ou o que pode acontecer nesses lugares dá-lhes um significado mais profundo. Foi isso que tentei transmitir neste livro. Ele não é um passeio pelos edifícios e pela história da cidade, não é um passeio para que um turista compreenda Havana. É um passeio para falar sobre como se manifesta o processo de conhecimento e apropriação de uma cidade.
É também uma espécie de encontro, de definição de identidade. Para si, o que é ser habanero?
Há habaneros há dois séculos. Somos verdadeiramente cubanos desde o início do século 19, há duzentos anos. Antes ainda não existia a cubanidade, uma identidade própria. Falo muito disso em O romance de minha vida (Boitempo, 2019, trad. de Monica Stahel), sobre o poeta José María Heredia. Mas há muitas maneiras de ser habanero. A paixão por um clube de beisebol aproxima-se do pertencimento à cidade. Ao longo da vida, pode-se mudar de parceiro, de partido político, de gostos gastronômicos, mas não se muda a paixão pelo clube de futebol, no caso dos brasileiros, ou pelo clube de beisebol, no caso dos cubanos. Essa paixão é uma forma de ser habanero. Ou a relação com a música. Havana é uma cidade onde se criou muita música. No século 20 houve três variedades musicais que marcaram o mundo: a música dos Estados Unidos, a música brasileira e a música cubana. Ou seja, estamos a falar de um grande acervo musical. E toda essa estética, por exemplo, do bolero, que é semelhante à da bossa nova, a música em que a letra, o texto, é muito importante… Tudo isso são formas de ser habanero. E, no meu caso, há uma forma muito importante: a apropriação da língua. Eu escrevo em habanero. As minhas personagens expressam-se em habanero. Há micromundos culturais aos quais se pertence. No caso do escritor, a língua é fundamental e, a partir daí, há diversas expressões de pertencimento à cidade. Há pessoas que saíram de Cuba, habaneros que estão fora do país e continuam a ter uma relação muito estreita com o lugar de onde saíram.
Você fala da sensação de “allenitude” para caracterizar essa relação. Como a definiria ou como é que ela se lhe revelou como essencial no seu modo de ser habanero?
A “allenitude” é aquela reação que nos faz sentir estranhos diante de algo que conhecemos. As cidades são organismos vivos. Mudam, evoluem, crescem, há edifícios ou costumes que se transformam. Isso cria um movimento e, no meu caso, esse movimento tem sido mais uma desconstrução da imagem da cidade do que uma nova construção. Isso faz-me sentir muito estranho em relação a comportamentos, lugares, reações das pessoas, manifestações artísticas. Por exemplo, hoje em dia a música de Havana é o reggaeton, que é uma música muito difícil de aceitar, uma vez que o resultado atual dessa grande tradição musical cubana é uma música muito pobre na sua componente musical e muito escatológica no seu conteúdo verbal. Portanto, são atitudes e manifestações com as quais me sinto estranho. E há duas razões para isso: a própria evolução ou involução da cidade e também a minha própria evolução, porque não é a mesma coisa ver uma cidade aos vinte, quarenta e setenta anos. Às vezes, tenho medo de que tenha sido eu a mudar demasiado e não tanto a cidade.
Referiu a sensação de estar de frente ou de costas para a cidade e a propósito escreve que a cultura e, sobretudo, a literatura cubana começaram a se desenvolver no momento em que Havana se virou para si mesma e não para o mar. Pode-se fazer um paralelo entre isso e a sua descoberta de si mesmo como escritor?
Não sei se posso fazer um paralelo, porque foi um processo histórico muito peculiar. Na década de 1830, Cuba e Porto Rico eram os únicos territórios do império espanhol que continuavam a ser espanhóis. E um grupo de aristocratas, de burgueses cubanos, ligado à produção de açúcar, precisava criar uma imagem de um país para depois construir esse país. Foi uma coisa muito planejada. Começa-se a escrever literatura sobre Havana, que produziu obras importantes, outras menores, mas que foi criando o imaginário de Havana. Essa literatura se estabelece nessa altura, 1830, 1840, e vai evoluindo num processo de apropriação, de integração da cidade na literatura. Ao longo de todo o século 20, esse processo continua de forma cada vez mais profunda e é dele que eu tiro partido quando começo a escrever. Eu sou o resultado do longo processo de converter uma cidade física, de pedras, numa cidade de palavras. Há uma série de escritores que me antecederam e que trabalham com a linguagem da cidade, com os locais, com a história, e tudo isso me alimenta como escritor. A minha ligação à cidade ocorre num momento histórico que é o resultado de muitos momentos históricos anteriores. Há o cruzamento de experiências: a das primeiras descobertas após o enraizamento dessa imagem e, depois, os benefícios que recebo como escritor. O problema é que uma parte da literatura que eu e alguns dos meus contemporâneos escrevem, em vez de mostrar uma imagem de construção da cidade, dá uma imagem de sua demolição. Ela começa a deteriorar-se, a destruir-se, e isso é uma coisa a que estamos a assistir e que se está a refletir na nossa literatura. Há vários autores, Pedro Juan Gutiérrez, Abilio Esteves, Carla Suárez, que publicaram livros sobre Havana, tal como os meus, e expressamos essa sensação, que é a de uma cidade que está a se destruir e que apresenta elementos de ruína que são muito evidentes.
É como se Havana fosse a grande protagonista da sua literatura. O que seria Padura sem Havana ou vice-versa?
Às vezes, estou em determinados lugares que me atraem — cidades, espaços culturais históricos — e as pessoas me dizem: “Por que não escreve um romance de Mario Conde que se passe aqui?”, e eu digo sempre: “Não poderia, porque Mario Conde é como aquelas plantas que estão coladas à parede, e a parede é a cidade”. Sou como Mario Conde. A minha literatura pode percorrer outros espaços urbanos, e de fato o faz. Um romance como O homem que amava os cachorros passa-se na Barcelona da guerra civil, na Moscou de 1960.
Mas esse lugares também fazem parte da história de Havana.
Havana é uma cidade cosmopolita, o seu mundo também não se reduz a um espaço próprio; tem muitos outros espaços aos quais posso ter acesso, mas não pertenço a eles. Aconteceu–me uma coisa importante: há já uns quinze anos, tenho dupla nacionalidade, espanhola e cubana. A Espanha concedeu-me a cidadania através de um procedimento chamado carta de naturalidade, que é um procedimento honorífico. E, no princípio, os jornalistas diziam-me: “Bem, agora tem dupla nacionalidade”. E eu respondia sempre: “Não, tenho dupla cidadania, que é uma categoria, um conceito legal, migratório, mas nacionalidade — o conceito cultural —, só tenho uma, e o meu espaço literário e de reflexão fundamental é a cidade de Havana e, por isso, todos os meus romances passam por lá”. Um dos mais recentes, com o personagem Conde, chamado Pessoas decentes (Boitempo, 2023, trad. de Monica Stahel) também é uma homenagem a Havana. É a cidade do início do século 20 e do início do século 21, com todos os seus traumas, com todos os seus problemas, mas é o espaço em que sou capaz de mover e encontrar os conflitos das minhas personagens.
‘Cuba não é nem o inferno que a direita apresenta nem o paraíso que a esquerda romântica idealiza’
Ir até Havana é um livro assumidamente autobiográfico. É ensaístico e dialoga com toda sua obra e sua relação com a cidade. Como foi expor essa intimidade?
Não fazia sentido escrever sobre a minha relação com a cidade sem mencionar a minha relação literária com a cidade. A certa altura, comecei a contar essa relação pessoal, histórica, sentimental com a cidade, e a minha mulher, Lucía, disse-me: “Há coisas que estás a dizer aqui que já disseste nos teus livros através da personagem de Mario Conde e de outras pessoas, e esse jogo de espelhos entre o que sentiste e o que expressaste na literatura através da tua personagem completa a imagem da cidade e completa a tua relação com a cidade”. Veja, se eu fosse jogador de beisebol, escreveria sobre uma cidade. Se eu fosse um músico, escreveria sobre outra cidade, mas sou um escritor e essa cidade já está escrita, então acho que essas duas formas de ver a cidade, a mais pessoal e a já elaborada literariamente, se complementam. E depois há uma coisa importante: na segunda metade do livro há uma série de trabalhos jornalísticos escritos ao longo de quarenta anos, nos quais se vê muito bem como me aproximei dessa cidade e a fui escrevendo. Através de lugares, histórias, personagens, os músicos. Tudo isso vai compondo este livro que não sei se é possível definir como memórias, como uma autobiografia, como um testemunho da cidade. Enfim, acho que é um livro muito heterodoxo e disso eu gosto muito porque acho que também sou heterodoxo.
É um livro de encontros e um livro político. É inevitável, ao falar de Havana, falar de política?
A questão política está muito ligada à história de Cuba. Desde o século 19, vivemos num país constantemente marcado por questões políticas, que tinham a ver com a relação entre Cuba e Espanha, depois com a relação entre Cuba e os eua. Em Pessoas decentes fala-se muito da frustração do ideário independentista cubano com as intervenções militares norte–americanas, que obrigaram a uma emenda na Constituição de Cuba que autorizava os Estados Unidos a intervirem nos assuntos do país sempre que desejassem. Houve duas intervenções militares. E depois, o processo revolucionário que começa em 1959 e que cria esta sociedade em que se vive até hoje, com muitas características que podem ser tanto favoráveis quanto negativas. Mas o que aconteceu no mundo, e sobretudo na América Latina, é que a revolução cubana teve um valor simbólico muito importante para aqueles que a apoiaram. E às vezes é difícil convencer, por exemplo, amigos brasileiros de que aquilo que eles pensam ser a realidade cubana atual é muito diferente do que ela realmente é. Porque ou ficou a imagem romântica ou a imagem maldita. No caso do Brasil, se alguém tem alguma ideia um pouco mais à esquerda, dizem “Vá para Cuba”. Cuba não é nem esse inferno que a direita apresenta, nem é o paraíso que a esquerda romântica idealiza. Mas a política continua presente em todas as dimensões da vida em Cuba. Por questões políticas, Cuba não fez as mudanças necessárias que, na minha opinião, deveria ter feito na sua economia, para evitar a atual situação de empobrecimento da população. Há alguns dias, uma professora especialista em questões de pobreza disse que entre 40% e 50% da população cubana vive em níveis de pobreza salarial. Ou seja, o seu salário não lhes permite sair dos níveis de pobreza.
Neste momento em que falamos, está no México. Se lhe perguntar, a essa distância, sobre Havana, qual é a primeira imagem que lhe ocorre?
O conceito de pátria, que é um conceito abstrato, mas que tem expressões como o hino nacional, a bandeira, o escudo, isso tem um significado, mas a imagem da pátria para mim é a minha casa no bairro de Mantilla. A casa que o meu pai e a minha mãe construíram para eu nascer. É a casa onde vivi e é a casa onde o meu pai morreu e onde a minha mãe ainda vive. É esse bairro, nessa pátria pequena, mas tão minha. A minha mãe chama-se Alicia, o meu pai chamava-se Leonardo, tal como eu, e chamavam–lhe Nardo. Nessa pequena pátria, para muitas pessoas, eu não sou o escritor Leonardo Padura, sou o filho de Nardo e Alicia, e isso faz com que eu seja mais a pessoa que sou do que em qualquer outro lugar do mundo.
Matéria publicada na edição impressa #101 em janeiro de 2026.
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