Estrutura do FliParaíba no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa (Secult-PB/Divulgação)

Bagagem Literária, Festival literário,

Aposta na lusofonia vira trunfo de festival literário paraibano

FliParaíba, em sua segunda edição, cria pontes entre autores de países que compartilham a língua portuguesa e começa a firmar uma identidade

03dez2025 • Atualizado em: 04dez2025

Festivais literários espalham-se de norte a sul do Brasil numa velocidade nunca vista. Se por um lado isso é uma boa notícia para o mercado editorial e aproxima mais pessoas da leitura, por outro pode resultar em concorrência entre eventos do gênero, gerando disputa por autores e dividindo a atenção da imprensa. 

A última semana de novembro foi um exemplo. Entre quinta-feira (27) e domingo (30), quatro festivais importantes aconteceram quase ao mesmo tempo: a já tradicional Festa Literária das Periferias (Flup) e a estreante Festa Literária da Casa de Rui Barbosa (FliRui), ambas no Rio de Janeiro; e dois festivais menores que chegaram à segunda edição — a Flipetrópolis, na cidade serrana fluminense, e o Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba), em João Pessoa.   

Sobressair nesse cenário não é tarefa simples, sobretudo para os festivais menos conhecidos, que ainda buscam firmar uma identidade. No caso do festival paraibano, a aposta de juntar autores de diferentes países que falam português pode ser considerada o grande trunfo do evento, que este ano aconteceu de 27 a 29 de novembro.       

“A Paraíba é um lugar simbólico, o lugar mais oriental das Américas, o meridiano [do Brasil] que fica mais próximo da África e de Portugal”, diz o escritor português José Manuel Diogo, curador do evento, enxergando na cartografia uma vocação do território paraibano para erguer pontes que estimulem trocas culturais entre a comunidade lusófona. Tudo tendo como força motriz “a cidadania da língua”, define Diogo. 

Encontros

Nas mesas da programação e no convívio durante o FliParaíba 2025, escritores do Brasil (Silviano Santiago, Itamar Vieira Junior, Ernesto Mané, Calila das Mercês, Edney Silvestre), de Portugal (Inês Pedrosa, Afonso Cruz, Alberto Santos, José Manuel Diogo) e da Guiné-Bissau (Odete Semedo) trocaram ideias sobre literatura, história, democracia e sobre como a língua portuguesa se insere em discussões sobre identidade e direitos civis. 

Os encontros tiveram participação de autores, professores e jornalistas da cena literária paraibana, mas o evento acabou não contando com a presença de uma das principais atrações anunciadas: o escritor cabo-verdiano Germano Almeida, vencedor do prêmio Camões que, por causa de um problema de última hora no joelho, não pôde viajar e enviou um vídeo. Em algumas mesas, a interação entre os convidados foi comprometida pela leitura de textos sem brechas para muito diálogo. Mas, no balanço final, as interlocuções foram predominantes.      

Depois de uma emocionante abertura oficial recheada de apresentações musicais na noite de quinta, o primeiro dia de debates teve discussões sobre o futuro do nosso idioma, as autorias femininas e a presença da oralidade nos livros. Num encontro cuja proposta era discutir a língua como território de cidadania, o escritor e crítico literário Silviano Santiago defendeu o fim das fronteiras oficiais e gramaticais entre os diferentes “portugueses” falados no Brasil, Portugal e países da África. 

O escritor e crítico literário Silviano Santiago no FliParaíba 2025 (Leonardo Ariel/Divulgação)

Santiago defendeu que a língua, mais que um traço cultural compartilhado, pode representar um território. “Será que podemos e devemos debater a possibilidade de um território lusófono constituído por uma língua lusófona?”, provocou.

Provocações também deram o tom da participação da portuguesa Inês Pedrosa. Numa mesa sobre os mundos criados por mulheres na literatura, ela rebateu a ideia de que a escrita das emoções seja exclusividade feminina. “Temos que acabar com essa difusão de que a feminilidade é o reino da afetividade. As mulheres são o quê, umas frouxas?”, disse em tom de desforra, requisitando que elas tenham o direito de escrever sobre tudo que diz respeito à condição humana.

O escritor baiano Itamar Vieira Junior no FliParaíba (Leonardo Ariel/Divulgação)

Já o baiano Itamar Vieira Junior, que conversou sobre a oralidade com o paraibano Bráulio Tavares e a poeta pernambucana Iza Mara (Poetiza), enfatizou a importância da linguagem popular para sua escrita — o que trouxe de volta ao palco questões envolvendo a língua como identidade e território. “Preciso contar as histórias da maneira com que as pessoas contam”, disse o autor de Torto arado e do recente Coração sem medo

Em trânsito

A escrita a partir dos deslocamentos de escritores viajantes, amarrada às travessias da própria língua, dominou boa parte das conversas no segundo dia. Nascido em João Pessoa, de onde partiu há vinte anos para andanças pelo mundo como pesquisador de física e, depois, diplomata, o escritor Ernesto Mané chamou a atenção para o desconhecimento no Brasil, ainda hoje, sobre a vida e a história dos países africanos aos quais foi imposto o português dos colonizadores. 

Mané disse que essa incompreensão — muitas vezes expressa em desinteresse — foi um dos motivos que o levaram a escrever Antes do início, misto de ensaio e relato de viagem sobre sua busca pela família paterna na Guiné-Bissau, de onde, nos anos 70, o pai emigrou para Brasil. “Queria deixar esse registro [da busca] e ao mesmo tempo fazer uma denúncia dos efeitos do colonialismo no outro lado do Atlântico, algo que nós, brasileiros, nem sempre entendemos”.

O escritor Ernesto Mané no FliParaíba (Roberto Guedes/Divulgação)

A jornada de Mané em busca do “outro” que também fala português ressoou na participação do escritor de romances históricos Alberto Santos, atual secretário de Cultura de Portugal. “A língua portuguesa é uma língua de viagem”, disse Santos ao lembrar dos deslocamentos de celtas e galegos na Península Ibérica, que deram origem ao português, e das mudanças que vieram com a incorporação de termos e modos de falar de idiomas africanos e indígenas. 

Interessado em “dar voz à gente que não teve voz nos livros históricos” por meio de romances como A senhora das Índias (inédito no Brasil), Santos disse que vê, nas “viagens ao passado”, uma maneira de observar “a perspectiva do outro, de civilizações passadas e pessoas que viveram nelas, com a perspectiva de que a nossa própria civilização seja mais tolerante.”

Amplitudes

O valor das outras visões de mundo foi novamente ressaltado na mesa que reuniu o também português Afonso Cruz, a baiana Calila das Mercês e o fluminense Edney Silvestre. Questionado sobre concordar que a cultura nos salva, mas pode nos aprisionar, Cruz lembrou que os oficiais nazistas assassinavam judeus em Auschwitz e depois ouviam Bach, um símbolo da cultura erudita . “Que tipo de cultura era essa em que as pessoas não tinham nenhuma questão ética? A resposta é que faltava diversidade à cultura deles. Pessoas de um livro só, de uma cultura só, são muito perigosas”, declarou. 

Mirando perspectivas mais amplas, Edney Silvestre disse que sua travessia começou com a educação, graças à avó lavradora que apostou na educação dos descendentes. Conciliando há anos o trabalho de jornalista com a ficção — ele acaba de lançar o romance O último Van Gogh —, Silvestre afirmou que busca, com a literatura, chegar a verdades mais profundas.

A poeta baiana Calila das Mercês no FliParaíba (Roberto Guedes/Divulgação)

Já Calila das Mercês defendeu amplitudes mais radicais, que não tenham necessariamente a espécie humana no centro. Depois de publicar em 2022 a coletânea de contos Planta oração — em que explora a ideia de “biointeração” e narra histórias sob a perspectiva de plantas —, a poeta, ficcionista e pesquisadora aprofunda o deslocamento do olhar a partir da natureza em seu primeiro romance, previsto para o próximo ano. “Por que os seres humanos precisam ser protagonistas de todas as histórias?”. Para Calila, dar papel central aos humanos é puro narcisismo.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista, é editor da Quatro Cinco Um