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FliParaíba: primeiro dia põe em xeque fronteiras do português e ‘reino dos afetos’ feminino
Festival literário em João Pessoa começa com Silviano Santiago propondo universalização do idioma e Inês Pedrosa dizendo que tanto mulheres quanto homens podem escrever sobre tudo
28nov2025 • Atualizado em: 03dez2025Às vésperas dos 90 anos da morte de Fernando Pessoa, que se completam no domingo (30), a frase “Minha pátria é a língua portuguesa”, uma das mais conhecidas do poeta, viria a calhar como lema da mesa inicial da segunda edição do Festival Literário Internacional da Paraíba, nesta sexta (28), em João Pessoa. Num encontro cuja proposta era discutir a língua como território de cidadania, o escritor e crítico literário Silviano Santiago defendeu o fim das fronteiras oficiais e gramaticais entre os diferentes “portugueses” falados no Brasil, Portugal e países da África.
Para o escritor, que venceu em 2022 o prêmio Camões, a ideia culminaria na “universalização” do idioma — e daí nasceriam até compêndios de uma língua portuguesa total, reunindo palavras e expressões utilizadas em todos os países lusófonos e democratizando seu conhecimento a todos os falantes.
Santiago defendeu que a língua, mais que um traço cultural compartilhado, pode representar um território. “Será que podemos e devemos debater a possibilidade de um território lusófono constituído por uma língua lusófona?”, provocou. Mais tarde, em conversa com a Quatro Cinco Um, chegou a imaginar um mapa-múndi dividido não entre países, mas em comunidades linguísticas: “o território das línguas inglesa, francesa, espanhola, portuguesa…”
Na mesa no FliParaíba — que reuniu ainda o autor português José Manuel Diogo, também curador do evento, e as escritoras e professoras paraibanas Aline Cardoso e Bernardina Freire —, o escritor mineiro de 89 anos justificou a provocação destacando a vocação comunitária do idioma.
“Trata-se de uma língua comum, mas ainda inexistente em dicionário e gramática. Ela nos é comum porque é ela que nos une, nos ata e nos solidariza na fala cotidiana e também em comunidade artística tricontinental”, disse Santiago no Centro Cultural São Francisco, cuja igreja barroca concluída no século 18 serve de auditório para o festival literário.
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O templo religioso, aliás, serviu de mote para outra provocação do dia, feita pela escritora, jornalista e tradutora portuguesa Inês Pedrosa. “Viemos para uma igreja finalmente fazer aquilo para o que deviam ser feitas as igrejas, que é pôr as pessoas a pensar”, disse a autora da coletânea de contos Fica comigo esta noite (2003) e do romance O processo violeta (2019), entre outros.
Mulheres e afetos
Pedrosa participou de uma mesa sobre autorias femininas ao lado da escritora e promotora de justiça paraibana Andréa Nunes — autora de romances policiais como A corte infiltrada (2017) e Jogo de cena (2019) — e da escritora e ativista política guineense Odete Semedo — autora de Guiné-Bissau: história, culturas, sociedade e literatura (2010) e A palavra grávida (2014).
Observadora atenta das mudanças culturais e políticas nos últimos anos, a portuguesa recheou sua fala com frases pungentes. Sobre a seletividade da opinião pública quanto à opressão sofrida pelas mulheres ao redor do mundo, disparou que “as mulheres do Afeganistão não têm direito a médico e não há ninguém no mundo que esteja a se manifestar sobre isso”.
Ao lembrar das lutas pelo direito ao divórcio em décadas nem tão distantes, chamou o século 20 de “o século do encontro”, por ser “o primeiro em que as famílias são feitas por amor e escolha” e as mulheres deixam de ser obrigadas a casar com quem os pais escolhem.
Mirando diretamente o tema da mesa — os mundos fundados por mulheres na literatura —, apontou que a escrita das emoções não pode ser vista como uma exclusividade feminina. “Temos que acabar com essa difusão de que a feminilidade é o reino da afetividade. As mulheres são o quê, umas frouxas?”, disse em tom de desforra, requisitando que elas tenham o direito de escrever sobre tudo que diz respeito à condição humana.
Pedrosa ainda fez o raciocínio contrário e defendeu a afetividade oriunda das masculinidades. “Um homem que mata o outro na guerra não sente?”, questionou. Mas a colher de chá terminou por aí. Ao mencionar o mundo das ditaduras e do autoritarismo masculino que prevaleceu no século passado, “em que os homens eram obrigados a ir para a guerra” e se viam obrigados a decidir e ordenar, a escritora portuguesa foi enfática: “O machismo faz os homens muito infelizes, o patriarcado é o regime que cria infelicidade.”
Os encontros literários do FliParaíba acontecem até sábado (29). Saiba mais sobre os convidados e veja a programação aqui.
Festival Literário Internacional da Paraíba (FliParaíba)
27 a 29 de novembro de 2025
Centro Cultural São Francisco
Ladeira São Francisco • Centro • João Pessoa (PB)
O repórter viajou a convite da organização do FliParaíba
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