Literatura, Os Melhores Livros de 2025,
De perto nada é normal
Nos seis contos de O bom mal, Samanta Schweblin escancara a fragilidade humana criando uma atmosfera de assombro e estranheza
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Sem muito interesse pelo desenho animado na tela da televisão, um menino de dois anos sai engatinhando enquanto o pai e a avó conversam na sala de jantar. Também ele, o menino, conversa com os objetos que não conhece, experimenta cada um deles com os olhos, as mãos, a boca, e, num instante de descuido do pai, engole uma bateria. O acidente, a tragédia: lesões na laringe afetam as cordas vocais da criança, que emudece, e problemas respiratórios levam à traqueostomia, o “Olho na garganta”, que dá título a um dos contos mais impressionantes deste conjunto de narrativas incômodas e tão sombrias quanto arrebatado-
ras. É difícil abandonar um livro de Samanta Schweblin, especialmente este, que não apenas retoma, como também eleva a tensão e a ambiguidade de seu primeiro romance, Distância de resgate (Fósforo, 2024).
Aos 47 anos, Schweblin já conquistou prêmios como Juan Rulfo, Casa de las Américas e o National Book Award na categoria tradução, com os contos de Sete casas vazias (publicado no Brasil em 2022, pela Fósforo, num volume que une a estes os contos de Pássaros na boca). Traduzida em mais de quarenta idiomas, a escritora foi finalista do International Booker Prize com os romances Kentukis (Fósforo, 2021) e Distância de regaste, que, apesar das diferenças formais (trata-se de uma novela construída basicamente com diálogos), tem muitos pontos em comum com os contos de O bom mal: o incômodo, o mistério e, mais que tudo, o desalento com a percepção de que não há como escapar do pior.
É dentro das casas e nos espaços onde acontecem as relações cotidianas que a escritora situa suas personagens enredando homens, mulheres e crianças a um acontecimento inesperado que abala irreversivelmente a (hipotética) ordem da vida real. Borrando a fronteira entre a realidade, o sonho e o pesadelo, Schweblin retrata o universo familiar pela ótica do absurdo, expondo a inquietação, o vazio e a vulnerabilidade de personagens em pleno colapso — o deles e o do mundo que os (nos) rodeia.
É o que leva uma mulher a entrar num lago com pedras amarradas na cintura, aparentemente serena, se perguntando quanto tempo até perder a consciência; de repente, ela desiste, se livra das pedras e volta para casa, para o marido, os filhos e a rotina sufocante, onde já não consegue respirar. É o estranhamento da narradora que relembra as férias de um verão antigo, quando ela e a irmã conhecem a poeta que, por não conseguir escrever, tenta se pendurar no ventilador. Ou, ainda, a personagem que se conecta com um cavalo ferido depois da catástrofe envolvendo o filho de sua amiga. A morte, ao mesmo tempo próxima e distante, da mulher que vê o gato de estimação na janela — breves narrativas com personagens que deixam no leitor “algo do impacto de um romance”, como escreveu Joyce Carol Oates, na resenha publicada em setembro, no The New York Times.
Melancolia
Como nos contos dos livros anteriores, as narrativas de O bom mal são marcadas pelo insólito, situações em que o absurdo se naturaliza sem explicações, provocando, mais do que dúvidas, uma espécie de certeza, ou melhor, o pressentimento de que nem tudo é real dentro da realidade — ideia que Schweblin reforça escolhendo a citação da escritora argentina Silvina Ocampo para a epígrafe do livro: “O estranho é sempre mais verdadeiro”. Mas, se antes as histórias flertavam com o realismo fantástico evidenciando as fissuras do dia a dia, aqui as frestas esgarçam a vida doméstica prenunciando o abismo do qual as personagens já não podem escapar.
A prosa guia os leitores por um território desconhecido sem afrouxar o fio da tensão
Não há gritos nem sangue. O horror se instaura discretamente como desconforto, desorientação, perplexidade, espanto e, por vezes, atitudes imprevisíveis, como a da protagonista do conto “O todo-poderoso faz uma visita”, subitamente faminta depois de uma situação de extrema violência, e o horror ao qual ela se rende, desorientada e refém da impotência que a acompanha desde sempre. Neste, como nos outros contos do livro, o terrível é impregnado pela melancolia:
Mais Lidas
Ficava pensando no que era tudo aquilo, quer dizer, para que aquele papo todo de ter uma vida. Era alguma coisa que em algum momento a gente devia entender? […] Mas se nessa coreografia de quase sessenta anos de baile que continuava a se mover bem debaixo do seu nariz não tinha havido nenhum sinal, nada que lhe dissesse “é por isso que você está aqui”, “é isso o que deve ser compreendido”, então estava indo na direção certa? Para que fazia o que fazia?
Com tradução impecável de Livia Deorsola, a prosa de O bom mal envolve os leitores no limiar entre o possível e o inexplicável, e os guia com autoridade por um território desconhecido sem afrouxar o fio da tensão. Schweblin brilha pelo que não é dito com uma habilidade que vem colecionando elogios de seus pares: “Uma das escritoras mais empolgantes do mundo”, disse o escritor norte-americano George Saunders introduzindo a leitura de “Um animal fabuloso” em seu clube de leitura. Nas palavras do escritor, “um conto impressionante, destinado a se tornar um clássico”.
Às vezes sonho que volto a Buenos Aires. Quase sempre estou em um táxi, olhando com atenção pela janela. E então o vejo. Eu o reconheço imediatamente. A cor, a altura, as orelhas. Ele puxa a carroça sem cansaço. Uma carroça enorme, desproporcional para o seu tamanho. Peço que parem o carro, desço e corro até ele. O homem que o conduz a chicotadas não entende o que está acontecendo, puxa as rédeas para freá-lo. O cavalo se detém, bufa, vira para mim. Toco sua cabeça enorme, a minha testa outra vez na testa dele. Uma palma aberta em seu pômulo, a outra em seu peito. Ele é tão enorme e lindo, e estou lhe pedindo perdão.
E de onde vêm as histórias? Aos leitores do clube de leituras de Saunders, Schweblin respondeu: “Muitas vezes as histórias nascem da combinação de duas coisas aparentemente sem relação. No caso deste conto, eu carregava uma lembrança muito dolorosa da minha própria experiência, porque cresci naquele bairro, em Hurlingham [cidade na Argentina], onde vi […] muitos desses animais fabulosos sendo maltratados. […] Guardo muitas emoções assim, emoções muito precisas da minha própria experiência. […] Mas esta também é uma história sobre as histórias que contamos a nós mesmos.
E como diz J. M. Coetzee, as histórias que contamos a nós mesmos podem não ser verdadeiras, mas são tudo o que realmente temos”.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “De perto nada é normal”
Porque você leu Literatura | Os Melhores Livros de 2025
Universo particular
Bruna Dantas Lobato explora caminho pouco trilhado na rica tradição de romances universitários ao narrar, em tom intimista, o exílio de uma estudante brasileira
DEZEMBRO, 2025
