Os Melhores Livros de 2025, Poesia,
Nem no passado nem no futuro
Poemas e canções que compõem a coletânea Fullgás espelham a paixão exigente de Antonio Cicero pela vida, até o último verso
01dez2025 | Edição #100No ensaio “Poesia e preguiça”, o poeta Antonio Cicero forja uma expressão que abraça sua obra poética: “preguiça fecunda”. Cicero está debatendo a capacidade da poesia para estabelecer uma outra temporalidade, oposta à “temporalidade abstrata do cotidiano”. Contra a imposição do “tempo é dinheiro”, a poesia “esbanja o tempo” do poeta e também do leitor.
Esse era um tema caro ao poeta-filósofo, a que ele volta no ensaio “A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo” (os textos estão republicados nos volumes A poesia e a crítica, de 2017, e O eterno agora, de 2024, ambos da Companhia das Letras), em que afirma: “é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje”. Em suma, poesia é questão de ritmo, sempre, e mais que isso: disputa o ritmo da vida.
Os livros e as letras de canção que compõem Fullgás: poesia reunida, num arco entre os anos 70 e seu último ano de vida, se ajustam bem a essa ideia de uma disputa entre o tempo errático que o poema cria (e em que se cria) e a aceleração que cerca quem o escreve e quem o lê. No entanto, é muito justo que a poesia reunida de Cicero ostente esse título acelerado e consagrado na canção que ele dividiu com a irmã Marina Lima, Fullgás: a entrega total de “full” e a energia de “gás” desdobrando-se na urgência de “fugaz”, que também se insinua como um luminoso “fulgurar”. Mas, por conta dessas ricas contradições de que a melhor poesia é feita, a grande lição que se espalha pelos seus versos é lenta: sorve lentamente a vida.
Cicero lançou seu primeiro livro de poemas, Guardar (1996), aos 51 anos. Depois publicou A cidade e os livros (2002) e Porventura (2012). Mas muito antes da estreia literária sua poesia já era bastante conhecida no universo das canções, especialmente na voz de Marina, mas também nas de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Lulu Santos, Adriana Calcanhotto, entre outros.
Desde os anos 70, a letra de canção foi o veículo escolhido por Cicero —ainda que agora saibamos que não foi bem “escolhido”, porque a irmã começou a parceria à revelia do poeta: sorte dele, nossa sorte! — para difundir um jeito de olhar para a vida em que, nos seus termos, “os momentos felizes/ não estão escondidos/ nem no passado nem no futuro”, como canta Marina em “À francesa”.
Aconteça o que acontecer, a única vida que importa é aquela que aproveita o presente com seus prazeres, aquela que “agarra o passageiro”, como ele diz, não sem ambiguidade, em “Desejo”:
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Só o desejo não passa/ e só deseja o que passa/ passo o meu tempo inteiro/ enfrentando um só problema:/ ao menos no meu poema/ agarrar o passageiro.
Presente, desejo, prazer, flerte, mar… em torno dessas palavras é possível constelar toda a poesia de Cicero, espécie de “último romântico” a “tomar o mundo feito Coca-Cola”, mesmo que, em especial nos livros, seu “carpe diem” se mescle a recursos formais (a versificação rigorosa, por exemplo) e temáticos (mitologia, filosofia) que nublam o “menino do Rio” que observa e é observado em seus versos.
Impossível não lembrar aqui, também, um poema-tradução de Paulo Henriques Britto, “Horácio no Baixo (Odes I, 11)”, que parece ter sido feito para retratar o sujeito que nos interpela na poesia de Cicero:
Tentar prever o que o futuro te reserva/ não leva a nada. […] Toma o teu chope, aproveita o dia,/ e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.
Eterno agora
Em muitos poemas de diferentes fases, ouvimos a voz de um convicto “inocente do Leblon” — na expressão de Drummond, também incluída por Cicero em “Virgem”, para lembrar que seu pai a usava para se referir a ele e seus amigos de praia. Porém, se no Drummond de 1940 esses inocentes são a representação de uma alienação política, na poesia do autor esse sujeito — “o inocente” que escreve e não apenas é “escrito” — quer viver plenamente e mune-se da poesia para tensionar o que temos chamado de vida.
Cada poema é um elogio daquela “outra temporalidade”, por si só crítica porque se coloca em crise contra a temporalidade imposta. Aquilo que parece alheamento, portanto, é sua forma de combate nesse “eterno agora”.
No excelente posfácio a Fullgás, pensando sobre essa expressão a que Cicero se dedica no ensaio “A sedução relativa” e que dá título à sua última coletânea de ensaios, Noemi Jaffe afirma:
Nessa expressão breve […] pode-se dizer que está sintetizado todo o paradoxo de que se nutre o trabalho poético de Antonio Cicero, sempre provocando um estranhamento tenso e teso entre pares só aparentemente inconciliáveis: o clássico e o contemporâneo, as formas fixas e as formas livres, o elevado e o baixo, o absoluto e o relativo, o eu e o outro, a superfície e o fundo, o lado de fora e o lado de dentro. Uma enumeração que poderia ainda se estender, mas que, de qualquer forma, exemplifica o nó que, numa poesia de dicção quase sempre serena, mantém a voltagem.
É esse “nó” que “mantém a voltagem” que dá consistência ao conjunto de poemas escritos por Cicero, bem como à sua reflexão filosófica, sempre tão articulada em torno desse questionamento da vida no nosso tempo, sem se afastar, lá e cá, da lição epicurista: não se trata apenas de viver, muito menos de sobreviver, mas de viver bem.
Em 23 de outubro de 2024, uma notícia se somou de modo definitivo à figura do poeta: Cicero realizou um suicídio assistido na Suíça, para interromper o sofrimento do Alzheimer. Horas depois, já circulava também a mensagem de despedida que ele enviou a alguns amigos: “Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia. Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo”.
É impossível separar essa decisão, esse ponto-final, daquilo que se espalha pelas páginas de Fullgás: a paixão exigente pela vida. Paixão, sim, mas exigente porque disposta a tudo para viver com dignidade, o que inclui, claro, “encontrar um modo digno de [se] mandar”, como ele escreveu em um de seus últimos versos.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Nem no passado nem no futuro”
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