Literatura, Os Melhores Livros de 2025,
A insubmissa ‘soy yo’
Romance de formação autobiográfico da uruguaia Cristina Peri Rossi é puro deleite literário
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100A história não é incomum: passamos a descobrir ou a reconhecer o valor de uma escritora só depois de ela receber um prêmio de irrefutável prestígio internacional, como se vinte livros de poesia, quinze de contos, sete romances, mais outros livros de ensaios e memórias — sigo contando? — e uma consistente carreira literária de mais de sessenta anos não fossem suficientes para despertar interesse e ampliar a presença de suas obras em português, para que se reverencie entre nós uma escritora brilhante como a uruguaia Cristina Peri Rossi.
Tudo bem, o Prêmio Cervantes chegou às mãos dela agorinha, em 2021, e não foi o primeiro nem o único em reconhecimento dessa autora que muito jovem, nos anos 70, encontrou exílio na Catalunha e de lá quase não saiu, exceto por um exílio dentro de outro, quando precisou recluir-se em Paris por quase dois anos, novamente perseguida por outra ditadura, não mais a uruguaia, mas a de Franco. Peri Rossi regressou escassas vezes ao seu país de origem, menos ainda depois da morte de sua mãe e de sua irmã, nem mesmo quando a prefeitura de Montevidéu, sua cidade natal, outorgou a ela o título de cidadã ilustre, pouco tempo atrás. Nem Mujica a conseguiu levar de volta.
Ela também não compareceu à cerimônia de entrega do Cervantes, em Madri, por uma crise de asma — sofre desde criança de afetações pulmonares —, mas foi dignamente representada pela atriz argentina Cecilia Roth, que leu seu discurso corajoso e irreverente diante dos reis da Espanha, do jurado do prêmio e dos membros do Ministério da Cultura, no dia de aniversário de morte do mais célebre escritor espanhol, Miguel de Cervantes, como manda o costume. Foi Dom Quixote, aliás, que inspirou o discurso — não o cavaleiro da triste figura, mas uma personagem secundária, a pastora Marcela, cobiçada, assediada, injustiçada, feminista sem sabê-lo, que rejeitou os homens e reivindicou sua liberdade, isolando-se no campo.
Mas não vai por aí A insubmissa, que chegou neste ano ao Brasil. Não vai por aí, nem por caminhos quixotescos, mas é que escrevo com alegria, como de rabinho abanando, não me aguento no entusiasmo.
Obstinação
Trata-se de um romance de formação autobiográfico que não apenas é delicioso de ler como apresenta a autora em suas facetas mais admiradas: sua vida (sim), sua escrita (sim), seu olhar sobre o mundo (sim). Chega pela Bazar do Tempo na tradução de Anita Rivera Guerra, também autora do posfácio sobre a trajetória de Peri Rossi, hoje com 84 anos e ainda produzindo — e chega graças à obstinação da tradutora.
Conta a pesquisadora que descobriu Peri Rossi durante a graduação, dez anos atrás — antes do Prêmio Cervantes, portanto — enquanto pesquisava a produção de autoras lésbicas latino-americanas para seu trabalho de conclusão de curso de jornalismo na UFRJ. Debruçou-se sobre sua poética, voltou a ela no mestrado, trabalho que virou material para um artigo na revista piauí, em abril de 2022. Recentemente, foi visitá-la em Barcelona.
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Não me estranha uma escritora mulher ser apresentada por outra mulher. Foi também assim que conheci a autora, já que no Uruguai o banimento de Peri Rossi desde os anos prévios à ditadura naquele país cobrou seu preço. No ano de sua publicação, 1971, o primeiro poemário da autora, Evohé, foi considerado um escândalo. Mesmo no lendário semanário Marcha, onde trabalhou, os poemas foram recebidos com reservas. Isso até antes do golpe de 1973, quando o nome dela foi banido por forças militares, e seus livros em seguida proibidos pelo regime ditatorial.
Peri Rossi escapou antes de ser capturada. Encontrar Evohé,bem como outros títulos de sua obra, iniciada aos 22 anos, era raro. Há pouco mais de uma década que os livros dela começaram a ser republicados. Durante a pandemia, em Montevidéu, uma amiga me chamou a atenção na livraria: leva. Trouxe os que pude, e desde então não largo mais. Outra amiga carregou as 1.272 páginas de uma coletânea da poesia de Peri Rossi numa viagem de 2 mil quilômetros de ônibus. Trouxe na mão e não soltou, nem mesmo nas paradas.
Amadurecimento
Organizado em relatos mais ou menos costurados, que poderiam até ser lidos independentemente, A insubmissa atravessa os primeiros anos da infância de Cristina (autora, narradora e protagonista coincidem) até a adolescência, numa curva de amadurecimento e transformação percebida aos poucos, seja por episódios de violência, misoginia, descoberta do desejo, seja por se ver como dissidente numa sociedade em geral conservadora e moralista.
Tudo isso em uma prosa inteligente, que permite belos mergulhos literários, nas paisagens do campo, por exemplo, ou nas descrições precisas sobre as tardes de Montevidéu, e também saltos ficcionais maravilhosos, como a história do casamento de um mendigo que intriga a protagonista, ou a criação de um passado para a bisavó que emigrou da Itália a bordo de um navio. A passagem sobre o próprio exílio, atravessando as memórias, é de uma beleza ímpar, bem como seu olhar sobre os desaparecidos ou a cena de um trem sendo transformado em campo de concentração de presos políticos — os traumas da ditadura entrando pelas fissuras. Nada há de ingênuo nos relatos; saímos de A insubmissa como de uma leitura de nosso próprio continente.
A escrita de Peri Rossi algumas vezes exibe fios que se repetem, reiterações, assuntos que voltam como se quisessem ampliar um sentido, criando percepções transversais que explicam a personagem, aos três anos de idade, manifestar o desejo de se casar com a mãe (“A primeira vez que me declarei à minha mãe, eu tinha três anos”, assim começa o livro), ou, não muito mais tarde, associar-se a ela para protegê-la dos atos violentos do pai. É do pai, aliás, que parece vir o título do livro, como uma resposta a quem “não podia tolerar a insubmissão (a rebeldia) da filha”.
Delicioso de ler, o livro apresenta a escritora em suas facetas mais admiradas
Assim, desde muito cedo, ela se põe a prestar atenção nas palavras, na tonalidade das palavras, como quem aprende a antecipar-se a um insulto e a defender-se dele, eventualmente com uma faca, em silêncio, postada à porta onde pai e mãe brigam. Decisões quase impossíveis para uma criança que é descrita por ela mesma, mais madura, já beirando os oitenta anos. Uma mulher mais velha revê sua vida sem deixar de saber o que sabe, mas preservando o olhar fresco da menina que um dia foi:
Ia para a escola, fazia os deveres, subia em árvores, tentava destilar pétalas de rosa para fabricar perfumes, brigava com minha irmã, odiava meu pai, escrevia peças de teatro, escutava árias de ópera, tentava fabricar pólvora com uma fórmula que tinha encontrado em um livro, respondia aos mais velhos…
Uma das coisas que mais impressionam ao terminar a leitura é a certeza dessa criança de que vai virar escritora um dia. A narradora já sabe, mas ela ainda não. É uma inspiração vê-la colecionando pérolas, suas palavras apreciadas, como delectación (traduzida como “deleite” ou “grande prazer”), ou as detestadas, como pollera, que significa “saia” em castelhano, mas cuja origem pode derivar de (ou remeter a) polla, ou pênis.
Uma alegria, por fim, ler A insubmissa em português, saber que aqui agora escutamos essa voz. E fico satisfeita de terminar o texto sem precisar mencionar a longa amizade que Peri Rossi manteve, de admiração mútua e profunda, com um escritor de erres arrastados, pernas compridas, imensos olhos azul-claros e aquosos e, assim como ela, um verdadeiro cronópio. Sorte teve o Julio de conhecer e ler a Cris, como nós agora.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “A insubmissa ‘soy yo’”
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