Arte, Os Melhores Livros de 2025,
Relatos entre o nada e o ninguém
Tudo que Sophie Calle faz e escreve é estetizado para alcançar um efeito literário, como suas Histórias reais, que são pura ficção
12nov2025 • Atualizado em: 30nov2025Há um relato específico, que a artista visual e performer francesa Sophie Calle conta em seu Histórias reais, para o qual insisto em voltar. É o pedido de uma estranha (e interpelações de estranhos são recorrentes nos relatos) chamada Mâkhi, que lhe telefona implorando para que se envolva em uma inusitada excursão: Mâkhi informa que havia sido adotada por duas irmãs, mortas aos noventa anos num intervalo de apenas seis meses, no começo da década de 1980. Ela herdara os bens, mas não tinha coragem de visitar o apartamento onde ambas moravam. Um lugar, em suas palavras, “assombrado pelas ruínas, pela morte e pelos fantasmas das duas”. Calle seria a pessoa ideal para ir ao apartamento e fazer o relatório do lar assombrado. A decisão de aceitar a empreitada pode ser lida como exemplar do seu papel como artista ou até da função da literatura em nossas vidas: “Fui até lá por ela. Fotografei a casa abandonada para lhe dar as imagens que ela receava ver”. A artista como alguém que vai “até lá” por nós.
Calle pede para guardar da excursão alguns itens. Quer uma foto das irmãs, em que vemos duas mulheres interpelando fixamente a câmera. Estão juntas, mas parecem distantes, habitando cada uma o seu universo. A da esquerda usa um terno claro; a da direita aparece enrolada em algo como um lençol. Se existe imagem que evoque alguma assombração, é essa. Pede também a Mâkhi para ficar com algumas agendas. Numa delas, na data de 25 de dezembro de 1980, encontra: “Não vi nada — ninguém”. E no ano seguinte: “Natal — nada”.
A palavra ‘real’ não passa do inútil aviso de ‘não mergulhe’, que nos impele a avançar para o mar
Em pouco mais de uma página, temos não só uma espécie de manifesto involuntário do tipo de produção que Sophie Calle realiza, mas também um microconto de terror, expondo que a assombração mais implacável é aquela que nos leva a, recorrentemente, voltar ao mesmo lugar para nada encontrar — apesar das certezas de que algo deveria estar ali.
Histórias reais foi lançado no Brasil em 2009, quando a artista francesa participou da Flip e aproveitou para divulgar sua exposição Cuide de Você, que percorreu vários estados. Esgotado há anos, o livro retorna às livrarias pela Relicário com 27 novos relatos e tradução de Marília Garcia, praticamente uma nova obra. O relançamento de um projeto como Histórias reais acontece em momento oportuno.
Há alguns meses, uma entrevista de Aurora Fornoni Bernardini, tradutora e professora aposentada da USP, para a Folha de S.Paulo suscitou um enorme debate sobre o que seria literatura, no qual reapareceram argumentos dos mais reacionários. Se pudermos extrair uma só lição de tudo o que foi dito, é a certeza de como, em pleno 2025, ainda somos inocentes em relação a essa coisa chamada “literatura”. As décadas podem até passar, mas a poeira do século 20 permanece sobre o nosso corpo, intacta. Ainda somos essencialmente binários e teimamos em discutir tópicos como forma vs. conteúdo. A “literatura” nos ultrapassa e permanecemos nos mesmos lugares.
Nesse contexto, Histórias reais nos leva à questão: trata-se de literatura ou não, já que o termo “reais” caracterizaria um relato de outra natureza? Ora, um título como Histórias reais é tão fantasioso quanto Ficções, título da mais famosa coletânea de contos do escritor argentino Jorge Luis Borges. A palavra “real” não passa de uma ficção; não passa do inútil aviso de “não mergulhe”, que nos impele a avançar para o mar. Relato factual ou não, tudo o que Calle faz e escreve é estetizado para gerar um roteiro ao seu redor. Tudo é performance. Tudo é realizado para alcançar um efeito literário. Penso na já citada exposição Cuide de Você, em que ela transforma um e-mail que recebera de um ex-namorado, colocando fim à relação, num totem, uma escritura sagrada às avessas, que é reinterpretada por dezenas de outras mulheres. O e-mail de rompimento é um dado concreto. Mas seu efeito precisa ser literário.
Extravios
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A escrita de cartas — e como ela se torna um artifício para o literário explodir — é uma constante em Histórias reais. Há sempre uma mensagem extraviada de alguém pelo livro. Algumas são de amor ou sobre a necessidade de sua existência. Em uma delas, lemos:
Há anos está esquecida sobre a minha escrivaninha uma carta de amor. Nunca recebi uma carta de amor. Esta foi uma encomenda a um escritor de cartas. Recebi, oito dias depois, uma bela carta de sete páginas, escrita em versos com caneta-tinteiro. Custou 100 francos e o homem dizia: “… sem um pingo de esforço, eu estava sempre aonde você ia…”
Ela nunca recebera uma carta de amor, a fantasia romântica burguesa maior, e por isso precisou encomendar a sua própria. Não é o amor que está em jogo, mas a sua performance. Em outra passagem, encontramos:
Eu queria uma carta dele, mas ele não me escrevia. Um dia, li meu nome, “Sophie”, no alto de uma página em branco. […] Dois meses depois do nosso casamento, reparei que havia a ponta de uma folha saindo debaixo da sua máquina de escrever. Deslizando-a em minha direção, li a frase: “Vou te confessar que ontem à noite beijei sua carta e sua foto”.
Mas a carta não era endereçada a ela e, sim, para alguém cujo nome tinha como inicial a letra H. O que fazer então? Recorrer de novo à ficção: “Risquei o H e o substituí por um S. Essa carta de amor se transformou na carta que eu nunca recebi”. Mais uma vez, Calle se coloca como a artista que precisa ir “até lá” e fazer algo com o “nada” e o “ninguém” do cotidiano.
Talvez o relato mais exemplar da encenação radical realizada por Calle seja a descrição de um exame médico. Ao chegar a um consultório, recebe um extenso formulário, com centenas de perguntas, sobre o seu histórico clínico. “Se eu já tinha tido rubéola, varíola, varicela, cólera, febre amarela, tétano […]. Se sofria de vertigem ou tinha colesterol alto, diabete, pressão alta…” Responde não a todas elas, com exceção de uma: “E de repente, sem mais nem menos, perdida no meio da enxurrada, a pergunta: ‘Você é uma pessoa triste?’”. Assim destacada, a pergunta ganha uma potência literária. E nos engole.
Assombração
Quando li Histórias reais pela primeira vez, há quinze anos, estávamos num outro patamar da nossa sociedade do espetáculo. Se houve um tempo em que tudo era feito para virar imagem, tudo hoje é produzido para se tornar a encenação da imagem perfeita, stories no Instagram. Ler o livro em 2025 é uma experiência ainda mais radical. Se hoje tudo pode e precisa ser visto em detalhes, em “tempo real”, talvez a literatura esteja no que ficou de fora e não foi visto nem lembrado. Talvez esteja na assombração/encenação do “nada” e do “ninguém”, como na memória de praia, de quando Calle tinha apenas dois anos (o seu primeiro assombro como o maior de todos):
Minha mãe me deixou aos cuidados de um grupo de crianças. Eu era a menor e elas tentavam se livrar de mim. Andavam juntas, falavam cochichando, gargalhavam e fugiam quando eu me aproximava. Eu corria atrás delas gritando: “Me espera, me espera”. Até hoje me lembro.
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