Encontro de Leituras,
O primeiro Outro de Fernando Pessoa
Nos 90 anos da morte do poeta português, são reunidas pela primeira vez toda a poesia e toda a prosa de seu heterônimo Ricardo Reis
03nov2025 • Atualizado em: 21abr2026 | Edição #100Não sei bem quanto a lances de dados, sortilégios numéricos, cálculos de ábacos e jogo do bicho, mas Fernando Pessoa (1888-1935) era chegado numa cabala. No embalo, reparo que a edição cem da Quatro Cinco Um entabula, nos noventa anos da morte do lisérgico poeta lisboeta, sua sexta obra publicada pela Tinta-da-China Brasil: Obra completa de Ricardo Reis. Com edição crítica de Jerónimo Pizarro e Jorge Uribe, o livro reúne, pela primeira vez, toda a poesia e toda a prosa do primeiro e mais longevo heterônimo de Pessoa — em criterioso cotejo de fontes e com a habitual ecdótica erudita.
A editora já publicou 136 pessoas de Pessoa (2017, edição de Pizarro e Patricio Ferrari), com os heterônimos afora os três mais conhecidos (Reis, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos) e celebridades como o ortônimo Bernardo Soares. Deste, a editora lançou em 2023 o assombroso Livro do desassossego. E, no mesmo ano de 2023, o guia Ler Pessoa, de Pizarro, curador da coleção. Em 2025, remeteu aos apaixonados destinatários pessoanos as Cartas de amor, integral das missivas do autor de Mensagem para Ofélia. Para 2026, a Tinta-da-China Brasil prevê publicar a obra completa de Campos, e uma Antologia mínima, com os textos, miúdos e à minuta, de prosa e poesia daquele que é considerado um dos mais caudalosos autores da literatura.
O primeiro heterônimo criado por Pessoa foi discípulo de Caeiro. Moldado nas odes e ondas do poeta romano Horácio (65 a.C.- 8 a.C.), Ricardo Reis nasceu em 1887 no Porto (numa primeira versão, nasceu em Lisboa), um ano antes de Pessoa. Era médico. O mediúnico Pessoa publicou Reis pela primeira vez em 1924, ao assumir o posto de editor da revista Athena. Protestando contra a instauração da República em Portugal, Reis imigrou para o Brasil — expatriado voluntário e exilado vocacional; convicto integralista lusitano a justificar a posição de errático monárquico (um personagem para Oswald de Andrade?).
Em 1916, coube-lhe traduzir Ésquilo e, em 1921, Safo e Aristóteles. Aedo andante e neopagão parido no seio cristianizado, Reis ainda vivia no Peru quando Pessoa morreu em 1935 — o criador deixou a criatura sobreviver-lhe. O primeiro retrato está em Ricardo Reis: vida e obra. Na formidável carta de 13 de janeiro de 1935 a Adolfo Casais Monteiro, Pessoa lavrou um impressionante relato sobre a figura de seu duplo r, sua última descrição e, como nas delirantes e fascinantes — além de provisórias, póstumas e providenciais — ficcionalizações de biografemas das máscaras heteronímicas, arrolou peripécias rocambolescas.
Em 12 de junho de 1914, véspera de seu 26° aniversário, Pessoa escreveu, com a persona de Reis, seis odes e, no mês, contabilizou um total de quinze. A leva de poemas levou-o a confidenciar a aparição de Reis ao amigo e poeta Mário Sá-Carneiro, um dos maiores da língua portuguesa, que, em cartas parisienses de 23 e 27 de junho de 1914, felicitou o rebento e elogiou as odes. Ao cabo de 1914, Pessoa escrevera quarenta odes de Reis e, em 1924, o conjunto era de 117. Projetos esboçados de 1917 a 1932 indicam que Reis seria autor de “uns três ou cinco livros” de odes e que se manteria ativo (em menor fluxo) até 1935 — o último poema é de 13 de novembro deste ano.
Se as biografias que Pessoa forjou para suas personae poéticas atiçariam o leitor tiktok do século 21 (esse alcoviteiro ligeiro da vida alheia e do alheio), o que importa ainda há de ser a poesia e, no caso do objeto desta resenha, o que Pessoa escreveu na pessoa de Reis. Em texto de 1931, o poeta justifica-se à la Rimbaud (“je est un autre”, lê-se na “Carta do Vidente”, de 1871), afirmando que nas obras heterônimas predomina o verso porque “em prosa é mais difficil de se outrar”. Foi-o outrora agora.
O poeta diz que nas obras heterônimas predomina o verso porque ‘em prosa é mais difficil de se outrar’
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O eixo “Poesia” da Obra completa de Ricardo Reis organiza-se em quatro núcleos cronológicos: Odes (livro escrito entre 1914 e 1917); Livro I, publicado na revista Athena (1924); poemas avulsos publicados na revista Presença (1927-1933); “outras odes e poemas” (1914-1935), que não foram indexados nem publicados em vida por Pessoa, enrustidos nas lendárias arcas do lisboeta.
Em “Prosa”, estão os prefácios às Odes e a Caeiro (a quem, desde 1914, dedicou poemas) e “outros textos”. O volume de pouco mais de quinhentas páginas inclui anexos, notas, reproduções de manuscritos e datiloscritos, bibliografia e índices (onomásticos e dos primeiros versos). Os poemas de Reis foram coligidos em livro em 1946 (pela editora Ática) e a prosa o foi em 2003 (Assírio & Alvim). Segundo os organizadores da Obra completa, Pessoa confessou: “Reis [escreve] melhor do que eu, mas com um purismo que considero exaggerado”.
Os versos deste poeta estoico disciplinam-se em medidas harmônicas e versam sobre a condenação irremediável da condição inexorável de todos os seres. Entre os principais poemas, estão: “Aqui, sem outro Apolo do que Apolo”, “Colhe o dia, porque és ele” e “Segue o teu destino”. A um leitor afeito às conexões anacrônicas e improváveis, o poema “Os jogadores de xadrez” (1916) remeteria ao enxadrista autômato que Walter Benjamin denominou “materialismo histórico” nas inacabadas “Teses sobre o conceito de história” (1940) e às partidas de Marcel Duchamp e Man Ray nos telhados e botecos de Paris.
Leitura afinada
Na apresentação, Pizarro e Uribe explicam que “os principais desafios, com o passar dos anos, continuam a ser os mesmos” — “afinar as leituras dos documentos autógrafos, percorrer a totalidade do espólio pessoano e definir o que pertence ou poderia pertencer a certos autores fictícios, organizar de forma clara cada corpus textual e propor datações críticas bem informadas”. Trata-se de uma operação crítica que lê o espólio como escora e escólio.
A propósito da organização, eles comentam “um aspecto importantíssimo da tarefa de editar Pessoa: reconhecer que ele é plural em termos editoriais, isto é, que os editores o fizeram, o fazem e o farão ainda mais plural do que ele próprio foi”. É a leitura de Reis que os fez revisitar questões tão candentes quão cativantes, como os “critérios de inclusão ou exclusão de textos”. Segundo os organizadores, “há muitos versos de Reis que já foram lidos e editados de forma errada por simples desatenção ao ritmo, à métrica e à estrutura do poema”. Um cogito pouco hamletiano, exemplificado no deslumbrante verso “Aqui, neste miserrimo desterro” (Ode 213, em Athena, 6 de abril de 1933).
Pizarro e Uribe chamam a atenção para “um aspecto único e altamente fascinante dos textos ricardianos”: a ortografia. Paladino de “uma ortografia etimológica”, Pessoa radicalizou ainda mais o ato de arcaizar no reinado e nos folguedos de Reis. Editorialmente, justifica-se que a não modernização da ortografia seja cláusula indispensável para entender os matizes da matriz pessoana. Outra questão é a do vocabulário, com suas transformações temporais e ocupações topográficas, exemplificadas na palavra “christismo” em lugar da mais comum, “christianismo”.
Trindade
A prosa de Reis conversa com sua poesia e com outras esferas de Pessoa — em sua pessoa e fora dela —, permitindo seguir a polêmica entre Álvaro de Campos e Reis e as relações implicantes e implicadas entre as outras personae do que Pessoa chamou de “drama em gente” (“Tábua bibliográfica”, 1928). No fim da vida, Pessoa cuidava da publicação das obras dos heterônimos e brincava não ser “nada na matéria” e o “menos que alli houve” — eram as “Ficções do interlúdio”, conjunto de poemas da década de 1930 composto pela canônica trindade heterônima (Caeiro, Campos, Reis).
Na prosa, o projeto ambicioso de Reis foi o prefácio à poesia de Caeiro. De 1915 a 1929, hesitou entre apresentação e tratado, configurando um ensaio crítico sobre a obra de Caeiro (e de Pessoa), com alusões a escritores e filósofos afinados ao paganismo (Théophile Gautier, Walter Pater, Friedrich Nietzsche, Oscar Wilde). O poeta não chegou a publicar o prefácio que, em suas palavras, lhe deu “um dos dias mais felizes de uma vida que não tem sido prodiga d’elles”.
Pizarro e Uribe apontam o dinâmico caráter de expansão que caracteriza a produção pessoana, “desafio e motivação” para os editores. Datado de 22 de novembro de 1935 e feito em inglês, o último poema de Pessoa é “The happy sun is shining”. Escrito pouco antes da morte de Pessoa, em 13 de novembro de 1935, o último poema de Ricardo Reis é “Vivem em nós inúmeros”, quase um balanço testamentário, metalinguístico e metabiogrâmico: “Vivem em nós innumeros; /Se penso ou sinto, ignoro / Quem é que pensa ou sente. / Sou sómente o logar / Onde se sente ou pensa.”
Nota da redação
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
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