Autobibliografia,
Meio livro, meio biblioteca
Lamento informar: quem não gosta de O anticrítico, de Augusto de Campos, não gosta de poesia
30out2025 • Atualizado em: 31out2025Se alguns livros carregam muitos outros livros em suas páginas, O anticrítico é praticamente uma biblioteca — uma biblioteca bastante eclética.
Tem clássicos, como dois cantos do “Inferno” de Dante Alighieri e onze demonstrações do dom e da danação de John Donne. Tem quem não costuma frequentar o cânone ocidental, como o simbolista Maranhão Sobrinho e o polímata Omar Khayyam. Tem uma arte final para Gregório de Matos e um poema visual para João Cabral de Melo Neto.
Tem humor, com a “Canção da Falsa Tartaruga”, de Lewis Carroll. Tem o “contra-boom” da poesia latino-americana, com Vicente Huidobro e Oliverio Girondo. Tem modernos, como um soneto de Stéphane Mallarmé, a arte poética de Paul Verlaine e as linhas picotadas de Emily Dickinson. Tem vanguarda, com Gertrude Stein, John Cage e Marcel Duchamp esticando a linguagem até arrebentar.
Tem mais.
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Toda essa turma não apenas está traduzida pelo melhor transcriador de poesia do país, como devidamente apresentada em poemas-ensaios — que Augusto de Campos prefere chamar de “prosa porosa”, pegando emprestada uma expressão de Buckminster Fuller.
É livro de poesia, é livro de crítica, é livro sobre como ler poesia, é livro sobre como ler crítica — é cântico dos cânticos, declaração de amor ao verso.
Para minha sorte, comprei a edição original pouco depois que saiu, em 1986 — o livro logo sumiria das livrarias e seria disputado nos sebos por décadas.
(Foi, enfim, relançado em 2020. Mudou apenas a cor da ilustração do tigre caligráfico da capa, de prata para ouro, um símbolo reluzente da palavra viva e feroz que a poesia deve ser.)
Foi e continua sendo um mapa da mina, mostrando caminhos de linguagem, apresentando e reapresentando autores que têm pelo menos uma coisa em comum: todos eles sabem que “poesia é sempre o contrário do que dizem as regras que ela é”. A seleção é idiossincrática, sim, mas qual não é?
Todo mês, o leitor Fernando Luna (@fluna) faz um exposed de seu relacionamento íntimo com um livro.
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