Trechos,
A voz das ruas, tá ligado?
Entrevistas marcantes do podcast Mano a Mano, apresentado pelo rapper paulistano Mano Brown, são reunidas em novo livro
27out2025Mano a Mano, que chega às livrarias pela Companhia das Letras, reúne entrevistas marcantes das quatro primeiras temporadas do podcast de sucesso criado pelo rapper e compositor paulistano Mano Brown, um dos integrantes do grupo Racionais MC’s, e pela jornalista Semayat Oliveira.
Acompanhado de fotografias das gravações, a obra faz um registro da missão do programa de trazer voz e protagonismo à população negra ao entrevistar seus representantes na política e na cultura, como Marina Silva, Glória Maria, Emicida e Conceição Evaristo, entre outros.
Leia trechos a seguir.
Trechos de ‘Mano a mano’:
Em conversas com meu filho, a gente chegava a se perguntar: “Qual é o espaço de fala ideal pro Mano Brown?”. E concluímos que seria um programa próprio.
A trajetória do Racionais MC’s foi cercada por notícias sensacionalistas. Relacionavam o grupo a fatos muito marcantes, específicos, e não à música. O som que fazíamos já era um fato pra mim, mas só aparecia na mídia quando aconteciam outras fitas: confusões ou qualquer tipo de desacerto na vida eram associados à nossa música e à nossa linguagem, morô? Então era difícil confiar — existiam muitas lendas, todo um imaginário sobre nós.
E isso, esse imaginário popular, às vezes era alimentado por mentiras. Como não havia muito conhecimento sobre quem realmente éramos, tudo era assim, meio místico mesmo. As pessoas achavam até que eu tinha uma “boca”, mano… Tá ligado? Diziam que eu tinha “tirado cadeia”, “dez anos de detenção”. É só um exemplo do tipo de coisa que eu já ouvi. […] Tem muita coisa que foi alimentada de forma errada, inclusive pela mídia, tá ligado? O final da década de 1980, começo dos anos 1990, quando o Racionais nasceu, foi uma fase difícil. Aconteceu muita coisa ruim, tudo era muito no contato físico, no corpo a corpo. Não tinha internet, as coisas aconteciam ali no dia a dia, morô? Já nos anos 2000, teve um fato bem marcante, que foi a Virada Cultural de 2007, com confusões monstras na praça da Sé. Naquela época a gente foi penalizado, ficamos uns cinco anos sem trabalhar direito em São Paulo. Se a gente se aproximava de qualquer casa de shows, a fiscalização ficava muito severa, então os donos dos eventos passaram a nos evitar… Brasilzão, né? Podia tudo, só não podia contratar os Racionais. Teve época que nem o Mano Brown podia.
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O grau de exigência que você ouve no Mano a Mano eu sempre tive no Racionais. A guerra sempre foi cultural. Os ataques pessoais direcionados ao nosso grupo, depreciando e caluniando a gente, aconteceram. […] Eu falo do povo que não tem acesso, a quem até hoje busco ser fiel, ser útil, ajudar a transformar. Quero ser isso mesmo que eles falam. Eu prefiro chamar de povo do que de público — o nosso povo, esses que se identificam com o que a gente fala, vive e acredita, tá ligado?
Então, pra mim era importante ter um espaço seguro, sem edição, sem cortes, um lugar onde eu pudesse falar com todo mundo, sem armar roubadinha com ninguém. Mesmo que eu não concorde, mesmo que a gente não tenha sintonia nenhuma com o convidado, o respeito vem em primeiro lugar. Foi assim que eu aprendi na vida, na rua, e é assim que procuro fazer no meu trabalho. Pra isso acontecer no Mano a Mano, algo totalmente novo pra mim e que poderia ser altamente bélico e arriscado, eu precisaria fortalecer a confiança em mim mesmo e na equipe que estaria junto. Tinha que ter a certeza de somar com pessoas movidas por propósitos honestos. Porque a palavra “edição” é escorregadia, tem dois lados. Pode funcionar pro bem ou pro mal, pode revelar ou ocultar verdades.
Esse papo de lugar seguro que eu tive com meu filho Jorge no começo das ideias também envolve o fato de ter ao meu redor pessoas que estão me observando e mandando o papo reto. Isso também me dá segurança: saber que ali tem um coletivo que compartilha pensamentos próximos dos meus, dos ideais que eu defendo. O programa não foi feito pra manipular a mente de ninguém, a ideia é justamente desconstruir essa linguagem de manipulação. É deixar todo mundo falar o que quiser, e cada um segura o seu b.o, firmeza?
Até porque a palavra tem peso. Essa é a responsabilidade do programa. É o que vai vir depois do que foi dito. Parece lindo ter a liberdade de um microfone na mão — e é lindo mesmo. Mas tudo tem dois lados. O microfone também pode ser uma arma usada contra mim mesmo. O compromisso com a verdade é de todos, principalmente nosso. A gente já não é mais só o ouvinte ou o assinante do jornal dos outros. Agora estamos fazendo a notícia também, certo?
[…]
Tem muitos pontos-chave no Mano a Mano, e sempre falo pra equipe que eu odeio idolatria. A estrela do podcast é a ideia, certo? O compromisso com o conteúdo. No programa eu não decido nada sozinho — e nem poderia fazer isso, porque eu fatalmente erraria muito. […] Em raríssimas exceções é uma pessoa escolhida apenas por mim que vai pra entrevista. A maioria é escolhida pelo contexto. E o que a gente espera do convidado? Nada mais que a verdade, seja lá qual for, pra que ninguém fique desentendido, certo?
A gente não precisa concordar com tudo, mas precisa escutar. E sem a necessidade de cortar a cabeça do outro. Não é armadilha pra oposição e nem uma festa pros que partilham do nosso pensamento. Longe disso, entendeu? É diálogo, é a ideia pela ideia. Sabe por quê?
Uma das intenções é incentivar a molecada a se interessar por assuntos que chegam quadrado na orelha deles, tá ligado? Querendo ou não, temos uma linguagem, uma interação e um entendimento. É lógico que temos nossas preferências, nossos ideais pessoais e coletivos, que é ter a raça negra como foco, seja lá qual for o lado do espectro político, a religião, a orientação sexual etc. Se o Mano a Mano fosse ter uma razão social, seria isso: evolução da raça. Quando nos reunimos em volta de uma mesa pra discutir, independentemente do assunto, estamos evoluindo. Quando a gente tá calado, amordaçado e acovardado, ali a gente morre. Ali a gente tá mal. Ali é escravidão. Não precisa nem de correntes. E a gente tem que entender que a raça negra é complexa e, naturalmente, tem pensamentos e correntes diferentes entre si.
[…]
A tradição de ouvir os mais velhos vem de África, e eu trago isso comigo. Eles sempre foram linha de frente. Sempre tiveram o que dizer, e eu gosto muito de trazê-los ao podcast. Talvez por não ter tido uma figura paterna, acabo me apegando aos mais velhos, aos que viveram mais. Tenho esse respeito enraizado. Gosto de escutar com atenção.
[…]
Eu sou a rua entrevistando, papo reto. O que eu levo pro podcast é a rua, porque na rua você tem que saber conversar com todo mundo, falar de igual pra igual, nem acima, nem abaixo. Respeito é pra quem tem. Foi assim que eu fui criado.
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