Literatura brasileira,
Um pé em cada barco
Em Meridiana, Eliana Alves Cruz aprofunda as tensões raciais e violências contra a população negra sob a perspectiva de uma família que ascende à classe média
13out2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100Após explorar os conflitos entre patroa e empregada em Solitária, Eliana Alves Cruz aprofunda as tensões entre pessoas de diferentes origens sociais em seu novo romance, Meridiana. Desta vez, sob a perspectiva de uma família negra trânsfuga de classe.
Crias da fictícia comunidade carioca do Matadouro, o funcionário público Ernesto e a modelista Aurora compartilham a obsessão por migrar da favela para a “cidade”. Quando finalmente conseguem financiar um apartamento, o casal e os três filhos — os gêmeos César e Augusto e a caçula, Meridiana — experimentam o atrito de viver num ambiente de classe média predominantemente branca.
Em conversa com a Quatro Cinco Um, Eliana afirma que a escrita de Meridiana foi a mais desafiadora para ela. Entre os motivos, o fato de o romance tratar de temas como a homofobia de homens negros, traição e abandono. A seguir, confira trechos do papo.
Seus livros antes de Meridiana foram a laje para a construção do novo romance? Quais os alicerces dele?
Percebi de forma mais consciente as sobrevidas da escravidão e do processo colonial que nos afetam. Em Solitária [Companhia das Letras, 2022], isso se manifesta como uma atualização do sistema escravocrata nas relações de trabalho e familiares, subalternizadas e desvalorizadas pela sociedade.
Observando minha realidade e a de pessoas próximas, essa sobrevida se evidencia sutilmente nas relações familiares. A heterogeneidade da experiência negra no Brasil e no mundo, assim como as estratégias individuais, revela quem internaliza ou reproduz esses processos. Meus trabalhos históricos me deram mais do que dados: ao mergulhar na psique dos personagens, compreendo mecanismos que ainda precisamos desarmar.
Poderia dar um exemplo?
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O medo da precariedade e da falta de recursos. Em Meridiana, outro exemplo está nos cabelos alisados e “domesticados” das mulheres da família, que são uma tentativa de embranquecimento associada à estética colonial e escravocrata — que nega o fenótipo de pessoas negras —, numa busca de estar mais confortável no ambiente de classe média. Além disso, há a reprodução de modelos familiares heteronormativos nos quais nem sempre nos encaixamos.
Quais outras marcas da transição da periferia para o centro?
Na favela do Matadouro, a família tem uma rede de apoio. Quando ascendem à classe média, se veem sós. São os únicos negros do prédio. Quiçá, do bairro. Essa solidão não se restringe à menina Meridiana. Estão encerrados em si mesmos, em tensão permanente.
Em sua pesquisa sobre a elite brasileira, o antropólogo Michel Alcoforado concluiu que o modo de viver dos endinheirados influencia toda a sociedade. Para a família de Meridiana não basta mudar de bairro, é preciso ostentar as coisas de rico, certo?
Que são um pacote que não tem fim. Se você estuda num colégio da elite, a colega comemora os quinze anos numa festa que custou R$ 1 milhão no clube “xyz”. O passeio é uma viagem à Disney. Isso enlouquece e adoece, como aconteceu com o menino do Colégio Bandeirantes, em São Paulo [Pedro Henrique Oliveira dos Santos, de 14 anos], que tirou a própria vida. Passei por uma experiência recente: entrei num grupo de WhatsApp da turma do meu antigo colégio que parecia legal, até que começaram a falar de viagens, festas, e percebi que eu só era colega deles dentro da escola. Eles tinham uma vida fora, da qual nunca participei. Deixei um textão e fui embora. “Eliana saiu do grupo.” Não tenho de me sujeitar a esse tipo de violência.
Esse título, Meridiana, em que momento surgiu?
Queria um título de uma palavra só, como Solitária, e que fosse a síntese de estar no meio. O que separa dois povos? Meridiano.
Há uma personagem de Solitária que aparece em Meridiana. Em que momento se deu esse encontro entre as duas histórias?
Enquanto escrevia Solitária, pensei que não sou Eunice [a protagonista, empregada doméstica], mas tampouco Mabel [a filha estudante de medicina]. Sou a mistura da mãe, pela faixa etária, e da filha, pelo acesso à universidade. Essa reflexão me levou a elaborar sobre esses deslocamentos. O encontro entre as personagens dos dois livros também mostra que há luta de classes nas comunidades periféricas. Quem mora embaixo [do morro], é considerado mais abastado. Os pobres vivem em cima. Ou o contrário, a depender da geografia. As pessoas precisam se diferenciar.
Essa luta de classes se revela na empregada dizendo a Aurora, mãe de Meridiana, que não trabalha para uma pessoa negra?
Essa é uma experiência que vivi na infância. Como professora, minha mãe precisava de alguém para cuidar da gente enquanto dava aulas. Numa ocasião, uma dessas moças que iam lá em casa disse: “Não trabalho para gente preta como eu”. Minha mãe ficou muito chateada.
Você passou por situações semelhantes? Quais?
Moro em uma casa grande e não consigo limpar sozinha, tampouco ter empregada. Fiz as pazes com essa inabilidade. Enquanto escrevia Solitária, criei um laboratório utilizando aplicativos de serviço de limpeza. Por três meses, a cada dia, aparecia uma figura. Às vezes, me contavam sua história; noutras, puxava assunto ou ficava só observando. Uma delas largou tudo pela metade e foi embora. E o aplicativo me cobrou a faxina inteira! Houve uma ocasião em que a menina era branca. Quando nos olhamos, pensei: “Este será um longo dia…”. E foi. Ela achava que eu deveria estar servindo, então me fez pedidos o tempo todo: “A senhora pode me dar um copo d’água? A senhora pode me dar não-sei-o-quê?”. E eu tentando escrever. Quando ela foi embora, percebi várias sabotagens. Isso mostra que todas somos vítimas desse sistema que nos estratificou e oprimiu.
A quais outras memórias a escrita de Meridiana te levou?
À infância. Na época, minha avó morava na zona oeste do Rio, num bairro com uma pegada rural, que hoje está favelizado. Provavelmente, muitas das crianças com quem brincava quando ia lá estão na subalternidade. Se encontrasse uma delas, seria reconhecida? No livro, quando Meridiana se sente perdida, volta [à comunidade], identifica sua infância e compreende o caminho percorrido.
O que te ajudou a encontrar a voz das personagens?
Leio comentários em redes sociais para entender padrões de pensamento e de resposta. Também criei uma ambiência: cada personagem tem uma trilha sonora. A dos pais, Ernesto e Aurora, é de músicas dos anos 60 e 70. Os filhos [Augusto, César e Meridiana] têm referências da minha adolescência nos anos 80. Alguns, como o Augusto, foram mais difíceis [de escrever] porque ele é quase um liberal de direita. Lutei contra meus próprios preconceitos e exercitei a alteridade para dar coerência ao discurso. É preciso sair de si para ir ao outro. Mas adorei me desafiar.
Livros recentes como De onde eles vêm, de Jeferson Tenório, tratam das violências contra pessoas negras trânsfugas de classe…
São situações em que você está no meridiano: com um pé aqui, outro lá. Durante a escrita, o Fernando [Baldraia, editor] me dizia: “Eliana, essa menina, Meridiana, tem dez anos e pensa dessa maneira?”. Sim, somos cobradas desde pequenas. Há uma pesquisa mostrando que as crianças começam a perceber o racismo aos cinco anos. Em especial as meninas, por conta do cabelo. Por isso, aos doze, você faz reflexões complexas, pois é obrigada a amadurecer. Perdemos o direito à infância.
Essa foi a obra que mais te provocou desconforto?
Sim. Foi preciso cortar na própria carne para dizer que há homens negros homofóbicos e questionar o que é ser um pai presente. Por ter sido abandonado, o patriarca da família, Ernesto, quer ser o pai que ele não teve. Mas isso basta? Além disso, para ele, o concurso público se impõe como garantia de sobrevivência. Mas será que Ernesto não tem talento para outra coisa? São reflexões sobre origem, motivações e a busca por conforto. Enfim, foi um processo de escrita intenso.
Quando Ainda estou aqui estreou, houve pessoas que criticaram o fato de o filme não incluir o drama de pessoas negras. Você criou um personagem, Tonho, que é perseguido pela ditadura. Por quê?
Não há nada de errado com Ainda estou aqui, que trata da família do Marcelo [Rubens Paiva]. O problema é não existir livro, filme, novela, seriado sobre as pessoas negras na ditadura. De onde vieram os métodos de tortura física e psicológica, entre outras violências cometidas por militares que se perpetuam até hoje nas periferias? Da escravidão. Conversei com [o jornalista, diretor e produtor cultural] Dom Filó, que me contou sobre como a ditadura infiltrou pessoas nos bailes para monitorar ativistas. Imagina a massa que frequentava as festas com consciência? Meu pai era jovem na época mais pesada do regime e me fala a respeito disso.
Seu pai era militante?
Ele era um pouco como o [personagem] Ernesto. Sempre foi contra a ditadura, mas pensava em lutar por meios legais. Queria se formar advogado. Também tinha consciência de ser preto: se ele se metesse naquilo, ia morrer mais rápido que os outros. Mas ele fala de amigos que participaram da luta. Um deles jogou todos os livros dentro da máquina de lavar e bateu. Centrifugou os comunistas na máquina de lavar. Enfim, essas pessoas existiram.
Por que escolheu a perda de memória como destino de Aurora?
Primeiro, porque a mulher negra é vista como a guardiã da memória. Tradições religiosas e culturais se mantêm porque nós as preservamos. Por outro lado, precisamos sempre ser fortes. Aurora carregou o piano da casa a vida inteira. Para algum lugar esse excesso vai, né? Quando ela adoece, a filha, Meridiana, assume o cuidado de todos. Mais uma mulher…
Qual a diferença entre escrever um romance histórico e uma narrativa contemporânea?
Ao remontar o passado, faço uma arqueologia para reconstruir cenários, linguagens e referências. Num livro contemporâneo, não há um distanciamento histórico. Se leio algo na mídia que tenha a ver com a história, quero mudá-la. Por mais que seja ficção, somos afetados por nosso tempo. Foi difícil encontrar o tom dessas vozes e mergulhar em universos diferentes do meu. Uma das críticas a autoras de autoficção — ou escrita de si, ou escrevivência — é se tratar de uma literatura “umbiguista”. Mas não é isso: escrever sobre a vivência em sociedade não necessariamente diz respeito à vida pessoal.
Quais rumos devem seguir seu projeto literário pós-Meridiana?
Talvez, volte ao romance histórico. Em Água de barrela, falo da transição do trabalho escravizado para o remunerado, que ocorreu simultaneamente à escravização. Na virada do século 19 para o século 20, pessoas negras exerciam funções avançadas para a época. Precisamos falar desse princípio de classe média negra. Já dos tempos atuais, quero tratar de envelhecimento. Temos uma enorme população velha e quais políticas públicas existem para a velhice? Meu consolo é que minha velhice será junto de uma velharia enorme!
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
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