Divulgação Científica,
O charme da matemática
Marcelo Viana celebra a popularização da disciplina e desmente mitos no lançamento de A descoberta dos números em São Paulo
08out2025 • Atualizado em: 31out2025Desde criança, o carioca Marcelo Viana gostava de assistir a programas sobre ciência na TV. Vem daí, diz ele, a habilidade de traduzir conceitos aparentemente abstratos em histórias instigantes, que tornaram o matemático e diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) uma das principais vozes da divulgação científica no país, convidado constante de podcasts e programas de televisão.
“Esse gosto que vem da infância acabei incorporando como missão de vida e tem dado certo”, disse o matemático durante o lançamento de A descoberta dos números, em conversa com a linguista e escritora Jana Viscardi na noite de terça (7), na Livraria Martins Fontes Paulista, em São Paulo. O livro, o segundo de Viana pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um), vem na esteira do sucesso de Histórias da matemática: da contagem nos dedos à inteligência artificial, que reúne crônicas nas quais usa sua experiência de acadêmico premiado para dividir histórias, curiosidades e desvendar mitos, sem abrir mão do rigor científico.
Em 2005, à frente do IMPA, Viana criou a maior olimpíada de conhecimento do mundo, a Obmep (Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas), que atrai estudantes a partir do segundo ano do ensino fundamental de todo país. “Sonhávamos em ter 5 milhões de participantes e tivemos 10 milhões. Agora estamos em 18 milhões”, orgulha-se.
A repercussão da “brincadeira que dá medalhas” — como ele prefere, evitando o termo competição —, levou Viana a assinar uma coluna semanal sobre matemática na Folha de S.Paulo e ao Jornal Nacional, que exibiu uma série de reportagens sobre a olimpíada e seu criador. Em rede nacional, o matemático falou sobre temas como o teorema de Pitágoras. “Foi divertidíssimo”, brinca.
A ideia da matemática como uma ciência exata, mas feita “por e para seres humanos” permeia os capítulos de A descoberta dos números, que traz ilustrações de Rafael Sica no que mais parece um almanaque ilustrado. Na conversa com Viana, Viscardi leu algumas histórias inusitadas do livro, que contrariam a ideia da matemática como algo arbitrário. A mediadora ainda fez a plateia rir ao questionar o autor sobre uma passagem na qual afirma que números de telefone não são números.
“Talvez eu vá surpreender ainda mais agora, mas CPFs também não são números”, disse o matemático, provocando mais risos. E explicou: a companhia telefônica não entrega números em ordem, a sequência numérica não tem significado, não pode ser usada para operações como soma ou multiplicação, não tem nenhuma propriedade intrínseca de número. “Logo, não é um número”, completou Viana. O mesmo vale para as sequências numéricas do CPF ou RG.
Razão áurea
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O diretor do IMPA também comentou sobre a intersecção entre a matemática e outros campos do conhecimento, como as artes. No livro, ele desmente mitos que se popularizaram, como a de que a razão áurea — uma certa proporção retangular, com valores fixos — e a sequência de Fibonacci estão por toda parte, da natureza a obras de arte.
Viana contou ser amigo do filho do pintor Candido Portinari (1903-62), que também é matemático e responsável pelo catálogo do pai. Foi por ele que o autor de A descoberta dos números soube que o artista tinha fascinação pela razão áurea. Apesar de gostar desse fato, disse que há um exagero em enxergar a proporção em tudo. O mesmo acontece, diz Viana, com a sequência numérica descoberta pelo matemático italiano Leonardo Fibonacci, presente na disposição de sementes de algumas flores. “A matemática não precisa disso, já tem muito charme, não precisa ficar inventando.”