Literatura brasileira,
Em busca de si
Ernesto Mané e José Henrique Bortoluci discutem identidade, pertencimento e paternidade no lançamento de Antes do início em São Paulo
04set2025 • Atualizado em: 05set2025Em 2010, Ernesto Mané fez a viagem que mudaria sua vida e visão de mundo. Naquele ano, conseguiu tirar férias do Centro Canadense de Aceleração de Partículas, em Vancouver, onde fazia um pós-doutorado em física, e foi à Guiné-Bissau, na África Ocidental, em busca de respostas para perguntas que o rondavam desde a infância.
“Sofri uma espécie de alienação parental e cultural também, me sentia incompleto”, disse o físico e diplomata na livraria Tapera Taperá, em São Paulo, durante o lançamento de Antes do início, misto de diário de viagem e ensaio que marca sua estreia na literatura. A publicação é da Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.
Paraibano de João Pessoa, o autor é filho de um guineense e uma brasileira. Estudante de economia, o pai se transferiu para o Brasil graças a um programa do governo que financiava a vinda de estudantes estrangeiros que quisessem cursar o ensino superior no país. Mané passou os primeiros anos de vida no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp), para onde a família se mudou para o pai continuar os estudos, até que os pais se separaram.
“Foi uma separação difícil. Fui criado só pela minha mãe, que é branca. Eu e minha irmã éramos as únicas pessoas negras da família”, contou, em conversa com o sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci. “Como eu tinha o mesmo nome e fisicamente parecia muito com meu pai, durante toda a minha infância fui comparado a ele, de forma não muito elogiosa.”
Reencontro
De volta a João Pessoa, Mané só foi conhecer o pai aos vinte anos, quando, prestes a se formar em física, decidiu deixar o Brasil para cursar um ano letivo na Inglaterra. Descobriu, surpreso, que Ernesto Mané Batista, seu pai, nunca havia voltado para a África, e vivia a poucos bairros de distância. “Ele me recebeu super bem, a gente conversou, mas evitamos tocar em temas espinhosos.”
Por intermédio do pai, Mané conheceu na Europa uma parte da família africana. Muitas das perguntas que o perseguiram, no entanto, continuariam sem respostas. Em 2014, depois de ser aprovado em quarto lugar no concurso do Itamaraty, o físico tomou posse no cargo no mesmo dia em que o pai foi cremado.
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Mané nunca perguntou ao pai as razões que o fizeram deixar a família quando ele tinha sete anos. Mas encontrou parte dessa identidade esfacelada na viagem à Guiné-Bissau, em 2010. Acostumado a tomar nota das experiências com física quântica no laboratório, ele contou que começou a fazer anotações sobre a viagem ainda no aeroporto.
“Como pesquisador, aprendi que no ato de observar um fenômeno físico você interfere nele. O sujeito e o objeto estão fisicamente ligados. Vi isso acontecer durante essa viagem, tentando anotar essas conexões subjetivas. Eu estava interferindo no ambiente e ele também estava interferindo em mim.”
Do outro lado do Atlântico, aprendeu com as tradições e crenças de seus avós, tios, irmãos, primos e sobrinhos, ao mesmo tempo que refletia sobre como o racismo que opera no Brasil se relacionava com os resquícios do colonialismo ainda presentes no continente africano. O processo de escrever acabou destravando muitas memórias de infância, segundo o escritor. “Tentei fazer uma arqueologia de mim mesmo.”
As anotações, que encheram um caderno, ficaram anos guardadas em uma caixa com seus pertences na casa do pai. Mané disse nunca ter questionado se ele leu. Só mais de dez anos depois, sob os efeitos da pandemia de Covid-19 e dos milhares de mortes diárias no Brasil, o diplomata disse ter considerado transformar o diário em um livro.“Senti necessidade de ser dono da minha narrativa.”
No final da pandemia, durante um período sabático na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, ele havia tido contato com pesquisadores do Brazil Lab, entre os quais o jornalista Rodrigo Simon, que publicou uma parte do relato do diplomata na revista piauí em 2020.
Escrita de si
Questionado por Bortoluci sobre como Antes do início dialoga com outras tradições literárias, como as escritas de si e a literatura contemporânea de autores negros, Mané contou não ter tido acesso a essas narrativas nos anos de formação. “Carolina Maria de Jesus, que escreveu um diário, só fui ler outro dia”, disse ele, que também contou ter descoberto outros autores que escreveram sobre os pais, como o próprio Bortoluci em O que é meu (Fósforo, 2023).
“Depois disso, percebi que não estou sozinho. Não sei qual é o valor literário de escrever sobre si, mas se isso se conecta com as pessoas, acho que tem”, disse o físico e diplomata, que após a viagem adotou a dupla cidadania brasileira e guineense. “Minha história se conecta com um processo colonial de quatrocentos anos, que gerou a diáspora de milhões de pessoas — meu pai entre elas.”
