Literatura,
Perguntas para enxergar o mundo
Jornalista premiado, Ta-Nehisi Coates vai ao Senegal, ao sul dos EUA e à Palestina para fazer o que mais sabe: ver além das narrativas dominantes
06out2025Se os tempos fossem outros, nós, contadores de histórias, mediadores e pontes entre realidades, poderíamos apenas falar das flores. Acabamos, por responsabilidade com nosso passado, presente e futuro, nos tornando todos panfletários.
Assim disse e acreditava George Orwell, em 1936, citado por Ta-Nehisi Coates na abertura de seu mais recente livro, A mensagem.
Panfletários, infelizmente, para o bem e para o mal. Porque nem todos nós, contadores de histórias, estamos preocupados com fatos, estatísticas e realidades. Mas o premiado jornalista, ex-repórter da revista progressista The Atlantic, nos Estados Unidos, tem um longo histórico de encantar com sua leitura pela verdade nua e crua. Pela falta de eufemismos. Pelo apreço a encarar o conflito.
Breve histórico
Lançado em 2024 nos Estados Unidos, A mensagem foi precedido por outros livros de não ficção. Em 2017, o jornalista publicou We Were Eight Years in Power: An American Tragedy (“Estivemos oito anos no poder: uma tragédia americana”, sem tradução), que reúne colunas publicadas na The Atlantic durante a presidência de Barack Obama. Espelhados, ensaios inéditos trazem reflexões sobre o contexto em que as colunas foram publicadas originalmente, tanto do ponto de vista do país quanto do narrador. Um exercício raro de transparência e de apreço pelo leitorado — não vou dar spoiler, mas há verdadeiras pepitas, inéditas no debate público, sobre a psicologia social do mandato do primeiro presidente negro dos Estados Unidos.
Coates já havia lançado The Beautiful Struggle: A Memoir (“A bonita luta: uma memória”, sem tradução), em 2008, no qual conta sobre sua infância e sobre seu pai. Em 2015, veio Between the World and Me, uma carta para seu filho adolescente sobre ser um homem negro nos EUA, que ganhou o prestigiado National Book Award e foi traduzido mundo afora, inclusive no Brasil, pela editora Objetiva, como Entre o mundo e eu.
“The case for reparations” (“O caso para reparações”), sua longa investigação que ocupou cerca de sessenta páginas numa edição especial da The Atlantic, em 2014, foi um marco para o jornalismo investigativo e acabou virando livro na França, com prefácio de Christiane Taubira, ex-ministra da Justiça e pré-candidata a presidente no país em 2022.
O autor tem um longo histórico de encantar pela falta de eufemismos, pelo apreço a encarar conflitos
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Breve histórico para dizer que, como Coates mesmo afirma em entrevistas, ele quer achar respostas para as perguntas sobre nosso mundo que não estão sendo feitas — ou não na profundidade nem na direção necessárias. Para o jornalista, o que mais incomoda é encararmos o mundo com uma postura de normalidade, como se a história — presente e futuro incluídos — fosse autônoma de nós, como se seguisse o curso da natureza.
O exercício diário de Coates, compartilhado em A mensagem, é tentar sair da prisão das perspectivas mainstream, escapar do emaranhado de narrativas dominantes e de histórias mal contadas e fazer as perguntas para ver além. Entender os processos, as razões e os motivos, e procurar, talvez, não saídas, mas no mínimo enxergar melhor o mundo.
No capítulo introdutório, intitulado “Jornalismo não é um luxo”, Coates diz:
Não somos eles, e os padrões dos escravizadores, colonizadores e vilões não servem de nada. Precisamos de outro padrão, um que veja o aprimoramento da nossa escrita como o aprimoramento da nossa qualidade de luz. E com essa luz somos encarregados de examinar as histórias que nos contaram, como elas sustentam a política que aceitamos, e então contarmos nós mesmos novas histórias.
Originalmente, A mensagem seria um ensaio sobre por que e como escrever, dirigido a seus alunos na Universidade Howard, instituição fundada em 1867 para acolher exclusivamente jovens negros na educação superior. Coates, que em 2021 voltou como professor à universidade onde estudara, acabou escrevendo o livro. Como conta em detalhes na introdução, escreveu porque “a mensagem” precisava alcançar jovens além dos seus alunos: “Estou pensando em jovens escritores de toda parte”.
Os três capítulos que seguem são fruto de viagens que Coates fez para formular perguntas que ainda não fizemos. Para ele, são três trajetórias quase iniciáticas — ao Senegal, ao sul dos Estados Unidos e aos territórios palestinos — para atravessar as narrativas que nos inundam (ou nos afogam?) diariamente e poder tocar o mundo depois delas, além dessas fronteiras. Ou sem elas.
Viagens
Em sua primeira viagem a um país africano, o jornalista busca a compreensão sobre suas origens; na excursão a uma escola no sul dos Estados Unidos, uma professora luta para que Entre o mundo e eu não seja banido da lista de leitura de seus alunos. Já a investigação sobre a vida dos palestinos e palestinas do presente aconteceu antes do 7 de Outubro.
“Os sistemas que combatemos são sistemas de opressão e, portanto, inerentemente sistemas de covardia”, Coates escreve. “Funcionam melhor no escuro, com sua essência escondida e tão pouco examinada quanto o grande passatempo americano foi para mim um dia.”
No primeiro capítulo, “Sobre faraós”, Coates pousa em Dakar, capital do Senegal, e encontra-se com mitos e alegorias de uma origem — até do seu próprio nome, Ta-Nehisi. Também surpreende-se com a mundanidade do presente e com a história dos cidadãos senegaleses, que viveram as consequências da escravidão do lado oposto do Atlântico que os antepassados dele, raptados e desaparecidos. Lá, o jornalista ouve o quanto a luta afro-americana conseguiu fazer a viagem de volta e impulsionar novas discussões em pleno continente africano, a exemplo das questões anticoloniais.
No capítulo centrado nos Estados Unidos, “Carregando a cruz em chamas”, o pensamento de Paulo Freire é o fio condutor para analisar a importância de uma educação libertadora. Coates vai até Chapin, na Carolina do Sul, e presencia os conflitos do passado fixados nos símbolos do presente. E, de novo, destaca o papel das narrativas em fazer enxergar ou não versões e personagens ocultos da história. E como construir outros futuros.
Ta-Nehisi Coates quer perseguir o objetivo de George Orwell: transformar a escrita política em arte
Nos Estados Unidos, onde foi lançado em 2024, a repercussão do livro foi muito impulsionada pelo terceiro ensaio, “O grandioso sonho”. Coates foi convidado a participar do Festival Literário Palestino e passou dez dias lá, em maio de 2023. “Havia uma narrativa incontestável, pontuada por clichês que assumiam uma aura de verdade inquestionável: Israel era uma ‘democracia judaica’, de fato ‘a única democracia no Oriente Médio’, com o ‘direito de existir’ e o ‘direito de se defender’.”
O jornalista visitou, ao lado de palestinos, mas também de israelenses, Jerusalém, Hebron, Cisjordânia, Haifa, Jaffa, Ramallah, Lida.
E o que meus jovens olhos viam agora naquele Estado era um mundo em que o separado e desigual ainda estava vivo e bem, em que o governo pelo voto para alguns e pela bala para outros era uma política. Foram dez dias de viagem, dez dias nessa Terra Santa de arame farpado, colonos e armas nefastas.
Coates conta seus encontros, descobertas, diálogos. Questiona por que demorou tanto para conhecer esse lado da história, e faz perguntas aos autores das narrativas em seu próprio país. “Eu sentia minha grande ignorância sobre o mundo além das fronteiras dos Estados Unidos e, com isso, uma grande vergonha. Acontece que você pode ver o mundo e, ainda assim, não enxergar as pessoas nele.
Coates nos convida a pertencer à humanidade, como ele acaba de fazer. Em todas as páginas, sente-se o escritor no árduo trabalho de escolher as palavras justas, a estrutura correta, o afiado da flecha para que sua história chegue até o leitor, como diz o autor, para que o livro nos assombre por mais tempo que a leitura dele. Coates quer perseguir o objetivo de Orwell: transformar a escrita política em arte. A mensagem é prova bem-sucedida disso.
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