Alô, alô, marcianos

Literatura infantojuvenil, Política,

Alô, alô, marcianos

Na conversa entre um menino e um extraterrestre, Afonso Cruz escancara as diferenças entre democracia e ditadura

01out2025 | Edição #98

Anda na moda jornalistas se dirigirem ao público com certo deboche. “Se você estava em Marte e não sabe o que aconteceu”, zombam, e então relatam alguma notícia. Tratar o outro como alienígena serve, de fato, como bom recurso retórico. Um extraterrestre pode fazer perguntas óbvias sem ser julgado — afinal, estava em Marte. 

As crianças, também, fazem perguntas que tiram dos adultos o luxo de não pensar. Nós não vemos o vento? Não, nós o sentimos. É dessa ideia, de que há conceitos que parecem tão básicos que os terráqueos não se dão ao trabalho de explicar, que parte a narrativa de Afonso Cruz.

Nós não vemos a democracia, nós a praticamos. É um conceito para lá de abstrato, uma construção humana para o convívio em sociedade. Mas de onde a democracia saiu?

Talvez tenha começado quando alguém, há muitos, muitos, muitos milhares de anos (ainda nem existia televisão), perguntou a todos à volta: ‘O que vocês gostariam de jantar?’. 

A democracia, explicada a um ET, pode ser também bastante concreta. 

Ilustração de Mariana Rio (Divulgação)

Leve-me ao seu líder explora diferentes abordagens da experiência democrática. Nele, um menino passeia de bicicleta num bosque, até que uma nave pousa em seu caminho e dela desce um simpático ET. Ele pede que a criança o leve até o seu líder, mas na terra do menino não há uma pessoa que encarne sozinha a autoridade. É o conjunto de cabeças, de pessoas, do lugar que cuida das decisões coletivas, elegendo um representante que as saiba escutar.

Pelo caminho, a conversa escancara diferenças entre democracia e ditadura. Na ditadura extraterrestre do livro, “o eminente líder nunca nos pergunta nada”, conta o novo amigo do menino, “sequer o que queremos jantar, que é sempre a mesma coisa: preguiça-gigante em todas as refeições”.

A uma criança no começo da vida, neste 2025, será preciso explicar o valor da liberdade de ser o que se é

A criança se põe no lugar do ET. “Deve ser difícil de engolir”, constata. “E com a boca cheia de preguiça — disse o extraterrestre —, nem conseguimos falar.” É uma metáfora concreta o suficiente para uma criança entender, graciosa o bastante para um adulto sorrir. Todo o livro se baseia em camadas possíveis de leitura — das páginas e também do mundo ao nosso redor.

O leitor é levado a pensar em sua própria experiência. O que lhe é dado a decidir e o que faculta que as pessoas de seu convívio escolham. Eu levo o prato sujo até a pia por obrigação e jogo bola na sala por direito, um leitorzinho pensou.

Enredo conhecido

O século 21 vem se provando um teste para a democracia que se julgava consolidada no mundo ocidental. Pelo voto, países como o Brasil e os Estados Unidos elegeram autocratas que tentam corroer as instituições por dentro. Quando perdem eleições, desabonam os mesmos mecanismos que uma vez os levaram ao poder.

Todos já conhecemos esse enredo. A democracia dada como certa se torna de repente um bem valioso. As universidades são vilanizadas; a experiência das artes, ridicularizada. Grave: as diferenças arduamente conquistadas passam a ser repreendidas. Quem não é branco, cristão, heterossexual e passeava de mãos dadas pela rua volta a enfrentar hostilidade e violência. Normalizam-se o preconceito e a discriminação que vinham, a passos lentos mas constantes, sendo desnormalizados.

Uma criança no começo da vida, neste trepidante 2025, conhecerá um mundo diferente do encontrado por seus pais. A ela será preciso explicar o valor da liberdade de ser o que se é. 

Ilustração de Mariana Rio (Divulgação)

O contraste com a ditadura alienígena de Leve-me ao seu líder é um bom começo. A democracia da terra do menino “é para pessoas que põem os cereais na tigela antes do leite e para aquelas que põem o leite antes dos cereais”. A democracia é “até, por mais incrível que pareça, para aquelas pessoas que terminam as frases dos outros”. Ops. Quando o menino pergunta se os extraterrestres também são democráticos, o etezinho, coitado, deixa escapar o pior da ditadura. “Não sei responder”, ele admite.

As ilustrações de Mariana Rio nos apresentam o mundo do menino da perspectiva dele. Estamos num bosque e, durante o passeio de bicicleta, vemos as árvores de pertinho. Só quando chegamos ao mirante enxergamos a cidade ao longe. Entramos nela devagar, um pouco a cada página, e vamos entendendo melhor como ela se organiza, com seus pilares democráticos. E aí aparecem os cidadãos exercendo seus deveres e direitos: as filas, os protestos, as eleições.

Se você estava em Marte, mal não fará em reconhecer a democracia na hora de escolher qual livro vai ler. 

Quem escreveu esse texto

Thais Bilenky

Jornalista, é colunista do UOL e apresentadora do podcast A Hora.

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Alô, alô, marcianos”

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