O cartunista Jaguar (ABI/Reprodução)

Crítica Cultural,

O gênio disfarçado

Jaguar inventou um rato, um jornal e, com ele, um mundo em que a questão mais séria sempre foi a dificuldade em não se levar inteiramente a sério

25ago2025 • Atualizado em: 02set2025

Sig e Eustace Tilley entraram num bar. Com o rabo de olho, o lorde inglês sacou o rato brasileiro e, como soem fazer os lordes, ignorou-o. “No cu, pardal!”, guinchou o roedor xará de Freud, um pouco inconveniente depois de abusar domiolo de pão curtido na genebra. Tilley, que nunca deu palavra, continuou ali, paradão, de perfil, do jeito que nasceu pelas mãos de Rea Irving para ser o mascote da centenária New Yorker, onde ainda bate ponto. Meio sumido desde 1991, quando O Pasquim saiu de circulação, Sig conhece hoje uma doce vingança: voltou ao noticiário impávido como um lorde, devidamente exaltado como uma das obras-primas de Sérgio Jaguaribe, o Jaguar, que mais do que criar um jornal e seu mitológico personagem-símbolo, inventou todo um mundo em seus 93 anos.  

A princípio e de longe, a revolução elegante da revista nova iorquina pouco tinha a ver com a esculhambação do tabloide carioca. Uma e outro estão, no entanto, entre as raras publicações que plasmam a época e a cidade em que nasceram e, também, ajudam a construir suas mitologias. Assim, na Manhattan dos anos loucos como na Ipanema porra-louca dos 60, o humor foi o chão seguro dessa arquitetura improvável. “Quando o Pasquim começou, tinham cinco cartunistas no Brasil: Fortuna, eu, Ziraldo, Millôr e o Claudius”, lembrou Jaguar num depoimento inédito, incorporado ao Arquivo Millôr Fernandes do Instituto Moreira Salles. Exagero afetuoso à parte, omissões consideradas, tem-se aí um bom resumo do moderno humor gráfico brasileiro.

No princípio foi Millôr (1923-2012), que nasceu como desenhista entre os clichês do humor popular, ilustrativo de piadas de gosto duvidoso, para firmar o desenho como uma linguagem gráfica autônoma, que dava o recado mais no traço do que na letra. Em 1945, na flor de seus 22 anos, Millôr editou na Cigarra a série “Eles também riem”, mini-portfólios, em páginas duplas brevemente comentadas, de artistas que admirava. Estão lá algumas pistas – e não necessariamente modelos – dos caminhos que iria percorrer: Saul Steinberg, James Thurber, Peter Arno, Charles Addams, William Steig. Todos da New Yorker.

Espírito carioca

Fortuna (1931- 1994), Ziraldo (1932-2024), Jaguar (1932-2025) e Claudius (1937), a geração seguinte, encontrariam seus rumos e personalidades próprios, tão diferentes entre si e igualmente brilhantes, tendo como denominador comum a elaboração formal, o desenho pensado. E, ainda, o momento privilegiado em que dividiram as páginas com Sig, que no segundo número do jornal adverte: “Os caras do Pasquim devem ter feito algo errado! O jornal deu certo!”. 

De todos, em todas as gerações, Jaguar era sem dúvida o mais moleque. A combinação de personagens grotescos, que às vezes pareciam rabiscados, com a piada curta e, em muitos sentidos, grossa foi o disfarce perfeito para a sofisticação de seu desenho e um senso de humor apurado. Há não muito tempo criou para a revista piauí um Papai Noel bêbado que, entre soluços, aponta para si mesmo e diz: “Penso, logo existo!”.

No quinto número do Pasquim, inventou um super-herói só para que não se tivessem dúvidas do espírito do jornal. Em nove quadrinhos, o Capitão Ipanema, com um ridículo uniforme de super-herói, tendo no ombro um Sig mascarado, deita a falação idiota sobre justiça do típico super-herói debaixo de gritos que vêm de fora do desenho: “Bicha! Bicha!”. No alto da página, a explicação: “Nem todos sabem que o simpático Sig, intelectual ipanemense e relações públicas de O Pasquim, é na vida real Otar, fiel companheiro do super-herói Capitão Ipanema, o implacável inimigo do arqui-criminoso dr. Carlinhos Bolkan. Mas não é só com o gênio do mal que a dupla dinâmica tem problemas: o espírito de gozação dos cariocas não é mole, não”.

Para Jaguar, “espírito carioca” não se resumia à boemia bonachona e tampouco à provinciana exaltação do Rio de Janeiro à beira mar. Movido por profunda convicção boêmia e pela titânica capacidade etílica, sempre percorreu a cidade de cabo a rabo em busca de um botequim ruim ou uma conversa boa – mas também poderia ser o contrário.

O tal espírito carioca se traduzia, isso sim, na disposição inesgotável de não levar nada inteiramente a sério  – o que é, como se sabe, um assunto muito sério. Ao ponto de, em sua última entrevista, a Eduardo Vanini, do Globo, Jaguar ter recusado, com a veemência de sempre, que as sete décadas de atividade profissional tenham uma coerência, um sentido de conjunto: “Eu não tenho obra. Que obra? Tenho um livrinho desse tamanhozinho. Como chama? Nem me lembro”. 

A quente

Para Jaguar, que nasceu e viveu numa cultura radicalmente gráfica, desenho bom era desenho publicado – a quente, no momento. Diferentemente de seus contemporâneos, não preservou originais, não se empenhou na edição de livros, não foi objeto da grande exposição que mereceria se, de fato, se importasse com esse tipo de reconhecimento.

Jaguar foi, em muitos sentidos, um anti-Millôr. Bem nascido, ele se definia como um filho da classe média alta que, num dado momento, teria feito o caminho inverso do Guru do Méier, o menino suburbano e órfão que com pouco mais de vinte anos era o maior salário da imprensa brasileira. Millôr, que não criou nenhum personagem, parecia ter lido tudo; Jaguar dizia ter lido tudo o que leu entre os catorze e os vinte anos. Millôr guardou tudo o que desenhou e escreveu e tinha horror dos botequins infectos que o amigo frequentava. No primeiro desfile da Banda de Ipanema, da qual Jaguar foi um dos fundadores, não escondia a perplexidade diante da esbórnia. “Ele ficava indignado com essa minha vida”, lembrava Jaguar. Não inteiramente a sério. 

De todas as homenagens, a mais emocionante e perfeita vem de Laerte, na Folha de S. Paulo. Jaguar está sozinho numa mesa de bar. Numa das mãos, no lugar de um copo, ergue um tinteiro; na outra, a pena de onde sai o próprio desenho, inacabado – situação tantas vezes recriada por Steinberg. A imaginação e o traço prodigiosos de Laerte parecem ter flagrado Jaguar finalizando um autorretrato, mesmo ponto de vista, aliás, de todos nós ao contemplar o monumento em fragmentos que ele nos deixa. “Duca!”, diria o Sig.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).