O jornalista paulista Alex Francisco (José Vinicius/Divulgação)

Livros e Livres,

Imprimindo novas cores

Pesquisador mapeia vozes dissidentes na imprensa e no mercado editorial brasileiro e recupera parte da memória LGBTQIA+ do país

18ago2025 • Atualizado em: 20ago2025 | Edição #97

Livros contam histórias, mas quem conta a história dos livros? Poucos pesquisadores brasileiros têm destinado esforços para desvendar o mundo que move o mercado editorial. Por trás das palavras impressas em suas páginas, uma publicação carrega uma trama invisível de escolhas, disputas e resistências que, muitas vezes, passa despercebida pelo leitor.

Foi esse pano de fundo que Alex Francisco se propôs a descobrir. Em Páginas coloridas: editoras independentes pela diversidade sexual e de gênero, resultado de sua dissertação de mestrado, o jornalista faz um valioso mapeamento do mercado editorial brasileiro e, ao mesmo tempo, uma recuperação da história e memória LGBTQIA+ do país.

Alternando entre o discurso acadêmico e uma escrita mais envolvente, Francisco destaca o papel central da imprensa alternativa na organização e visibilidade dos movimentos sociais durante o regime militar. O autor mostra como o então Movimento Homossexual Brasileiro, no fim dos anos 70, encontrou nesses periódicos e revistas que se contrapuseram aos grandes veículos um terreno fértil para se expressar e se reconhecer como sujeito coletivo de direitos.

Mais do que suporte material, a imprensa alternativa funcionou como instrumento de contracomunicação e afirmação simbólica. Em meio à censura, publicações como Lampião da Esquina e ChanacomChana tornaram-se marcos da emergência de uma voz dissidente, ao lado de iniciativas anteriores menos conhecidas. No livro, Francisco percorre os desdobramentos dessa trajetória, destacando revistas como G Magazine, Junior, DOM — De Outro Modo e Aimé, que preservaram essa tradição de visibilidade e disputa narrativa.

Vestígios

Páginas coloridas assume a delicada missão de apresentar ao leitor as múltiplas camadas que compõem o que se convencionou chamar de literatura LGBTQIA+, frequentemente reduzida, de forma simplista, à ideia de “literatura gay”. Longe de ser um rótulo unívoco ou uma categoria meramente identitária, essa produção literária é apresentada como resultado de um gesto político, um posicionamento militante que tensiona as fronteiras entre estética e ativismo.

O percurso escolhido pelo pesquisador revela os desafios de recuperar os meandros do mundo editorial e a própria história LGBTQIA+ brasileira. Sem uma fonte de dados organizada, cabe a quem se aventura na temática entrevistar, buscar evidências, comparar relatos, consultar milhares de documentos e fontes hemerográficas. Esse conjunto possivelmente não nos apresenta nada de novo, mas, com aguçado senso investigativo, abre-se o que o historiador italiano Carlo Ginzburg denomina “fios e rastros”. Vestígios aparentemente marginais são capazes de reconstruir aspectos de sociedades passadas, especialmente de grupos silenciados pela história oficial.

Longe de ser uma categoria identitária, a produção literária é apresentada como um gesto político

O ponto alto do livro é o sistemático — e talvez inédito — mapeamento e a apresentação de editoras independentes que se dedicaram à temática LGBTQIA+, especialmente na última década. Alex Francisco apresenta em detalhes a trajetória política, administrativa e gerencial de quinze iniciativas (entre editoras e selos) que atuaram no país entre 2009 e 2023, revelando um grupo diverso de intelectuais, ativistas e pesquisadores que, com ousadia e inventividade, imprimiram novas cores ao mercado brasileiro.

Ao longo das quase quatrocentas páginas, fica evidente que o autor se apoia em trabalhos anteriores sobre o desenvolvimento e a publicação da literatura LGBTQIA+ no Brasil. Entre as referências citadas na pesquisa de Francisco, figuram os trabalhos deste resenhista, assim como das pesquisadoras Carolina de Lima, Ismênia de Oliveira Holanda, Antonio Crístian Saraiva, Helder Thiago Maia e Roberto Muniz Dias, cujas contribuições têm sido fundamentais para abrir caminhos e estimular debates sobre o tema.

Essa perspectiva coletiva aproxima-se daquilo que a historiografia contemporânea defende: a ideia de que cada pesquisa complementa ou tensiona o que veio antes. Da mesma forma, o mapeamento do mercado editorial LGBTQIA+ precisa ser compreendido como um processo, feito por diferentes olhares e iniciativas. Nesse percurso, contudo, muitos são os riscos. O principal e mais comum são as afirmações categóricas, amadas pelo nosso jornalismo e odiada pelos historiadores, já que simplificam processos históricos. E há momentos em que o autor, infelizmente, incorre nesse risco.

Um exemplo é a afirmação, baseada em Muniz Dias, de que as Edições GLS foram “o primeiro espaço editorial a dar voz à ficção homoafetiva” no Brasil. Embora o papel da GLS seja inegável para a consolidação do mercado, pesquisas recentes mostram que outras iniciativas já existiam antes, a exemplo da Esquina Editora nos anos 70 e da Editora Grupo Gay da Bahia nos anos 80. Além destas, selos e editoras surgiram nos anos 90, como jc Editora e a Editora Transviatta (1994); a coleção Contraluz da Record (1996); os selos Côncavo e Convexo da Litteris (1997). A afirmação nos convida a repensar as histórias fundadoras do mercado editorial LGBTQIA+ com mais atenção à sua complexidade.

Páginas coloridas cumpre um papel fundamental ao revisitar trajetórias, mapear iniciativas e trazer à tona nomes, projetos e histórias que, muitas vezes, permanecem à margem. O Brasil precisa resgatar o hábito de falar sobre livros, editoras e autores corajosos que, mesmo sem querer, causam revolução e mostram novas possibilidades por meio da literatura. Afinal, reconhecer ou recordar é também revolucionário.

Quem escreveu esse texto

Ícaro Jatobá

é jornalista e doutor em História, Política e Bens Culturais.

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Imprimindo novas cores”

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