A escritora sul-coreana Han Kang (Paik Dahuim/Divulgação)

Literatura,

Memória como neve

Ao revisitar o massacre de Jeju, a Nobel Han Kang dá continuidade ao seu projeto de transformar a literatura em lugar de escuta e reparação

25jul2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #96

“É como se uma bruma branca cobrisse tudo.” É essa a atmosfera densa e onírica que permeia o novo romance de Han Kang, Sem despedidas. Originalmente publicado em 2021 sob o título 작별하지 않는다 e agora traduzido por Natália T. M. Okabayashi, o livro chega ao Brasil em uma edição que preserva a densidade emocional e a fluidez poética da obra original.

Vencedora do International Booker Prize em 2016 por A vegetariana e a primeira mulher asiática a ser laureada com o prêmio Nobel de Literatura, em 2024, Kang conta no romance a história do massacre de Jeju, repressão brutal contra a população civil da ilha sul-coreana, entre 1948 e 1954, sob a justificativa de reprimir rebeldes comunistas. O episódio ficou conhecido como Jeju 4.3, em referência à data do início da tragédia: 3 de abril de 1948.

Com uma prosa intensa e pungente, a autora tece uma narrativa que resgata traumas coletivos e expõe a fragilidade humana, retratando as marcas deixadas pela violência histórica no corpo e no imaginário. A ficção, então, é usada como meio para explorar e dar voz aos silêncios e às lembranças suprimidas, revisitando marcas persistentes que atravessam gerações e que ainda habitam o presente.

Mais do que apenas relatar os fatos, Kang dá visibilidade a uma dor coletiva reprimida e propõe um gesto literário de escuta e reparação. O romance ressoa profundamente no contexto sul-coreano contemporâneo, em que as brutalidades do passado seguem sendo silenciadas na esfera pública. Em um país que tenta esquecer seus fantasmas, a autora escreve como quem abre a porta de uma memória social ao mesmo tempo que dialoga com temas universais, como as consequências da violência estatal na vida cotidiana e a questão da perda — temas urgentes em tempos de guerras e autoritarismos. Com isso, reafirma o papel da literatura como lugar de testemunho e cuidado.

A prosa de Sem despedidas é entrecortada por silêncios e carregada de sensorialidade. A autora mergulha nas cicatrizes deixadas pelo massacre de Jeju por meio de uma experiência sinestésica do trauma, transformando o não dito em matéria literária e criando um espaço em que a escuta é um ato de cuidado, e a lembrança, um gesto de resistência.

Feridas

A atenção de Han Kang às feridas da história sul-coreana não começa em Sem despedidas. Em romance anterior, Atos humanos (2021), a autora aborda o massacre de Gwangju, ocorrido em maio de 1980, quando milhares de civis saíram às ruas contra a lei marcial e em defesa da democracia. Liderados por estudantes universitários, os protestos rapidamente ganharam apoio popular. A repressão foi violenta e resultou em um grande número de mortos, feridos e prisões arbitrárias. A cidade foi cercada pelo exército e mergulhada em silêncio.

Gwangju é a cidade natal da escritora, que nasceu em 1970. Ela tinha apenas nove anos e, embora não morasse na cidade na época, cresceu ouvindo relatos fragmentados, sempre marcados pelo sofrimento. Essa vivência moldou sua escrita.

Han Kang (Jean Chung/Divulgação)

Em Sem despedidas, Kang amplia esse gesto literário de escuta e reparação. Retrocedendo no tempo, o livro se volta ao triste episódio de Jeju 4.3. Cerca de 30 mil civis — aproximadamente 10% da população da ilha à época — foram mortos, muitos deles mulheres, idosos e crianças, em execuções, corpos jogados ao mar, incêndios de vilarejos inteiros e torturas. Por décadas, essa tragédia coletiva foi mantida sob silêncio institucional. Apenas nos anos 2000 vieram os primeiros pedidos de desculpas por parte do governo.

A autora constrói seu mundo com camadas de silêncio e imagens de uma beleza brutal

A história se abre numa manhã de inverno, com um pedido urgente: Inseon, hospitalizada em Seul após um acidente, pede à sua amiga Kyungha que viaje até Jeju para alimentar Ama, seu pássaro de estimação.

Ao chegar à ilha, uma nevasca cobre tudo de branco e o que parecia uma missão pontual logo se transforma em uma travessia pelos territórios da recordação e do luto. O tempo se dobra e o ambiente aparenta distorcer as fronteiras entre o real e o imaginário. Atravessando a ilha coberta de neve, ela chega à casa da amiga e descobre fragmentos da história de Inseon e de sua família. Kyungha mergulha em um espaço carregado de lembranças, silêncios e presenças invisíveis que surgem quase como visões.

Disseram que não pode deixar formar coágulo. O sangue precisa continuar correndo e eu tenho de sentir a dor. Se não fizerem isso, a parte de cima dos nervos cortados vai morrer.

O que acontece com os nervos pode acontecer com a memória. O que acontece com um corpo pode acontecer com um povo. Quando o sangue não circula, o órgão morre. As palavras sussurradas de uma mãe em fim de vida: tudo aponta para uma dor que nunca encontrou lugar no tempo cronológico. O que é necessário manter vivo — mesmo sob intensa dor — para que algo possa continuar existindo?

Temporalidade

Dividido em três partes — “Pássaro”, “Noite” e “Chama” —, o romance mescla sonho e realidade em uma estrutura propositalmente desorientadora. Os capítulos se desenrolam em cadência lenta, quase meditativa. A temporalidade se dilui: presente e passado se confundem, as vozes se sobrepõem, criando uma espécie de constelação de vozes que orbitam um mesmo mutismo central.

Kang constrói esse mundo com camadas de silêncio e imagens de uma beleza brutal. A história que se revela aos poucos não busca resolução: ela exige escuta — uma escuta que carrega peso, mas também afeto.

Sem despedidas é, antes de tudo, um romance sobre o que persiste. O que ficou interdito no tempo retorna como rastro, reverberação, presença–ausência. O luto, aqui, não se encerra: se desloca, se acomoda no corpo, atravessa gerações. Ao longo do livro, a ausência de rituais de despedida — enterros, funerais, palavras finais — transforma o sofrimento em um estado suspenso, como neve que se recusa a derreter. A literatura, então, se oferece como espaço onde essas palavras interrompidas podem enfim circular.

Quem escreveu esse texto

Yara Hwang

É uma das idealizadoras da Aigo Livros.

Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025. Com o título “Memória como neve”

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