Registro do 12º Encontro de Juremeiros e Benzedores na cidade de Alhandra (PB), em novembro de 2022 (Perazzo Júnior/Divulgação)

Divulgação Científica,

Onde mora o encantamento

Com narrativa envolvente e pesquisa cuidadosa, livro sobre jurema ilumina a história da planta psicodélica, mas evita tensões entre ciência e saberes tradicionais

23jul2025 • Atualizado em: 29jul2025

Numa madrugada quente do sertão, o gosto da jurema na cuia se mistura com o perfume da fumaça das ervas queimadas que se espalha pelo terreiro. Há rezas, gente em transe e cachimbos acesos. No centro da roda, a bebida é oferecida em rituais que se entrelaçam não apenas com o sagrado, mas com a memória de um Brasil profundo, mestiço e violentado.

É nesse território cruzado por mitos, saberes e disputas que o jornalista Marcelo Leite se embrenha em A ciência encantada de jurema. Mais que um livro-reportagem, a obra é um exercício de escuta e de trânsito por um espaço sensível e de tensão entre saberes tradicionais e investigação científica. Um lugar onde o diálogo nem sempre flui.

Afinal, há ainda um abismo entre o que se revela nos rituais e o que se mede nos laboratórios; o conhecimento que cura e o saber que classifica. Povos originários erguem sua voz com força, denunciando as ameaças ao uso tradicional das plantas psicodélicas diante da expansão acelerada das novas fronteiras do turismo espiritual, das pesquisas e do extrativismo intelectual sem reciprocidade.

A jurema-preta, planta nativa da Caatinga, carrega em suas raízes uma história de resistência e encantamento. Foi ela que uniu indígenas, africanos e mestiços no sertão nordestino para curar os males do corpo e da alma, em rituais que misturam rezas, cachimbos e o suave transe da bebida.

É também ela que hoje atrai os olhos da ciência, cada vez mais ávida por decifrar os segredos da N,N-dimetiltriptamina (DMT), substância encontrada na jurema — o mesmo psicodélico presente na bebida indígena amazônica ayahuasca.

Ao longo de mais de trezentas páginas, a partir de visitas a terreiros no Rio Grande do Norte, no sertão paraibano e em São Paulo, de conversas com mestres e mestras juremeiros e de sua própria experiên-
cia como voluntário em estudos clínicos com DMT, o autor costura ciência, história, antropologia e até filosofia para compor um retrato multifacetado da jurema: como símbolo de uma ancestralidade afro-indígena e remédio sagrado, mas também objeto de interesse crescente para laboratórios, igrejas neopsicodélicas e clínicas de psicoterapia.

A narrativa, às vezes, parece mais embalada pelo fascínio do que pelas contradições éticas

O livro é cuidadoso na escuta dos anciões da tradição e generoso ao registrar suas vozes e práticas. “Uma escrita que traduz e alcança os diferentes fazeres e saberes”, define no prefácio Elisa Pankararu, ativista indígena e doutoranda em antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mas, em alguns momentos, fica a impressão de que o autor evita aprofundar e problematizar de maneira mais contundente as críticas feitas pelos próprios mestres e povos indígenas à invisibilização de seus saberes e à tensão permanente entre o terreiro e o laboratório.

Os relatos de resistência no sertão, clamores pela demarcação de terras e o reconhecimento das práticas espirituais, as denúncias indiretas de biopirataria e o debate sobre apropriação cultural aparecem. No entanto, ficam como pano de fundo para uma narrativa que, às vezes, parece mais embalada pelo fascínio diante do encantamento da experiência do que pelo enfrentamento das contradições políticas e éticas que envolvem o tema.

Não há, por exemplo, vozes indígenas criticando os projetos de pesquisa com DMT da jurema realizados por universidades como a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ou questionando a atuação de empresas estrangeiras no país, como a britânica Biomind — uma ausência que enfraquece a reflexão sobre os impactos do extrativismo científico no território e na espiritualidade dos povos tradicionais. E essas críticas, embora recentes, existem — especialmente sobre a falta, nesses estudos, de protocolos de consulta ou de retorno para as comunidades detentoras dos saberes sobre psicodélicos naturais, como a jurema.

Na edição deste ano do Festival Indígena União dos Povos (Fiup), que reuniu quase duas dezenas de lideranças de povos originários de todo o país em maio em Arujá, interior de São Paulo, as pesquisas da UFRN com DMT foram citadas e criticadas. “Estão querendo patentear a jurema para tratar pessoas com depressão”, afirmou o líder Makairy Fulni-ô.

Vozes e cenas

Um dos méritos incontestáveis do livro de Leite é trazer a público um tema, uma planta e uma tradição profundamente invisibilizados — ainda mais se comparados à popularização global da ayahuasca. Por isso mesmo, o ponto mais forte da obra são as vozes, as cenas e as paisagens de uma empreitada que, segundo o jornalista, durou três anos de imersão no reino psicodélico da jurema.

Uma das viagens é para Alhandra, na Paraíba, onde ele acompanha rituais como o conduzido por Mestre Ciriaco, uma das lideranças mais antigas do Catimbó — tradição que, de acordo com o autor, hoje chamada de Jurema Sagrada, é “perseguida como feitiçaria pela Igreja Católica, pela polícia e, mais recentemente, por grupos evangélicos”. Numa casa simples, com mesa de santos e copos d’água, o jornalista observa a força silenciosa da cerimônia: as rezas, os toques de maracá, o cachimbo passando de mão em mão. Em outro ponto da narrativa, encontra Dona Jardecilha, herdeira de uma linhagem tradicional de juremeiros, e conversa com Nayanne, uma mestra jovem que fala da continuidade da jurema como caminho de cura e resistência.

O autor se debruça também sobre outro tema sensível e complexo de sua investigação: o entrelaçamento histórico e espiritual entre as tradições religiosas do Catimbó e da Umbanda.

A partir de entrevistas, observações de campo e pesquisas bibliográficas, Leite reflete sobre as origens do Catimbó — descrito como uma matriz indígena e nordestina, forjada nas violências do período colonial — e seu desenvolvimento até a contemporaneidade, quando surge como uma prática espiritual autônoma, mas muitas vezes confundida ou diluída dentro do universo umbandista.

Para aprofundar as origens desse entrelaçamento, o livro narra como, a partir do século 19, o Catimbó recebeu influências do kardecismo via Umbanda, e como, no século seguinte, as federações umbandistas ofereceram abrigo aos rituais juremeiros que enfrentavam uma dura repressão policial.

‘Crack da ayahuasca’

A ciência encantada de jurema também adentra o universo contemporâneo de usos não tradicionais da planta, conectando-a a movimentos como o neoxamanismo, o psicodelismo de festivais e o turismo espiritual.

O autor narra sua própria experiência com a changa — um preparado fumável de DMT — durante o Festival Equinox, na Bahia, descrevendo as visões de arabescos, formas coloridas e a sensação de “entrar em uma mesquita fantástica”. Ele compara essa experiência com a de fumar cristais puros de dimetiltriptamina extraídos da jurema-preta, observando semelhanças e diferenças.

Marcelo Leite tenta se aproximar de um mistério que não se deixa medir em escalas de laboratório

Leite relata também encontros com grupos neoxamânicos no Brasil, como o Alma, apelido da Aldeia Luz da Jurema, que promove cerimônias com a planta na Bahia, e descreve a criação da “ayahuasca fumável” ou “crack da ayahuasca”: a changa, uma mistura formulada pelo australiano Julian Palmer, que combinou DMT extraído de acácias com ervas e inibidores como o mariri da ayahuasca — uma invenção que se espalhou a partir da comunidade psiconáutica local.

A “ayahuasca fumável”, segundo ele, é uma combinação potente, mas polêmica, capaz de oferecer experiências visionárias intensas, porém curtas (cerca de quinze minutos), sem os rituais prolongados e as purgas da ayahuasca tradicional.

Ela teria nascido pelo esforço de uma vibrante comunidade psiconáutica em busca não da cura prometida por igrejas ayahuasqueiras, mas do que se poderia chamar de graça, em sentido não religioso: um estado liminar, capaz de estilhaçar o condicionamento social e amplificar experiências visionárias, de catapultar os viajantes a um hiperespaço temível e maravilhoso, afirmativo e subversivo, privado e acelerado, em contraste com o transe cerimonial e purgativo da ayahuasca tradicional.

Segundo o jornalista, no lugar da jurema-preta, a fonte preferencial de DMT na Austrália são as 150 espécies de acácias presentes na ilha­-continente. “Na receita original de changa criada por Julian Palmer em 2003, a dimetiltriptamina extraída de galhos e folhas da Acacia obtusifolia, primordialmente, vai combinada com inibidores do cipó-mariri proveniente da Amazônia. […] Da Austrália, a ‘ayahuasca fumável’ se espalharia pelo mundo.”

O autor aborda ainda os debates sobre o fenômeno que ele denomina como “enteotenimento” — o uso recreativo de psicodélicos fora de contextos tradicionais — e as tensões com o xamanismo indígena e as igrejas ayahuasqueiras, que desqualificam essas práticas.

A ciência encantada de jurema é como a própria bebida servida nas cuias em terreiros de um Brasil profundo e oculto: um convite à viagem, mas que também evoca uma provocação.

Ao circular entre terreiros, festivais e laboratórios, o livro remexe em um caldeirão de onde saem perguntas ainda sem respostas — como explorar o reino das plantas sagradas dialogando com os guardiões dessas tradições? Talvez Leite, que também é autor de Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira (Fósforo, 2021), tenha tentado se aproximar de um mistério que não se deixa medir em escalas de laboratório, com sua escrita afiada, pesquisa rigorosa e curiosidade de repórter. Como a fumaça dos cachimbos nos rituais de jurema, esse mistério ainda paira no ar, denso e inebriante. E o encantamento, sozinho, não basta para desfazer as tramas do silêncio e da desigualdade histórica, que ainda carece — e muito — de reparos.

Quem escreveu esse texto

Carlos Minuano

Jornalista, escreveu Raul Seixas por trás das canções (BestSeller).