As escritoras Neige Sinno, Paula Lopes Ferreira e Madalena Sá Fernandes (Maxime Kieffer/Divulgação; Acervo pessoal; Filipe Ferreira/Divulgação)

Crítica Cultural,

Diante do inominável

Três relatos de violência doméstica reduzem a tirania à vulnerabilidade que a constitui

17jul2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #96

Com quanto trauma se faz uma escrita, seja ela diário, ensaio ou ficção? Com quanta literatura se processa uma agressão, uma dor, um luto? As dúvidas se multiplicam como as narrativas que buscam purgar as violências da vida e da morte. A regência pelo sofrimento reserva à crítica um ardil: comentar um relato do horror se confunde com o horror que o motiva? O bom senso diz “não”; o senso comum, coalhado de clichês, insinua um “talvez”.

Triste tigre, Despaixão e Leme são relatos devastadores que percorrem, com nuances, um sinistro espectro de violência doméstica. Assédio moral, agressões simbólicas e físicas, estupro e incesto são o ponto de partida de Neige Sinno, Paula Lopes Ferreira e Madalena Sá Fernandes. Nos contextos da França, do Brasil e de Portugal, as autoras, de gerações diferentes, ignoram com altivez as tentações de autopiedade e o apaziguamento prometido pelas pequenas e grandes virtudes. A primeira pessoa de cada uma dessas narrativas é robusta o suficiente para não se limitar a um reflexo autoficcional; a escrita, complexa demais para ser apenas confessional.

Neige foi violentada pelo padrasto, sistematicamente, dos nove aos catorze anos. O pai da filha de Paula sempre pedia perdão depois de espancá-la. O marido da mãe de Madalena não hesitava em usar a força para manter as regras que imaginou para a vida em comum. A violência avassaladora desses homens não assume, nas narrativas, as dimensões sobre-humanas dos monstros ou a austeridade implacável dos carrascos. Trata-se de uma questão de escala: descritos por mulheres que recusam o papel de vítima — e, portanto, de objeto subjugado —, cada um deles se reduz à vulnerabilidade patética, típica dos que ocupam seu lugar no mundo a partir da imposição e da força.

Leme, que já foi comentado aqui na Quatro Cinco Um por Giovana Madalosso, destrincha em 88 fragmentos a brutalidade estetizada de Paulo, o padrasto. Cultor das formas, ele se tinha na mais alta conta e julgava deter as medidas justas da certeza, da proporção, do tom. Como artista, era “competente, mas não genial”.

“Carregava, por isso, uma sensação de fracasso”, avalia a narradora de Madalena Sá Fernandes (1993). As duas mulheres com quem vivia, mãe e filha, encarnavam, sem surpresa, os elementos desestabilizadores de suas frágeis convicções, o ruído e a suposta desordem a serem domados — para o próprio bem delas, acreditava ele.

‘Triste tigre’, ‘Despaixão’ e ‘Leme’ percorrem um sinistro espectro de violência doméstica

A história dessa tirania é, do ponto de vista da narradora, a história da insurgência, da desobediência. E, também, a constatação de que, como qualquer tirano, o padrasto era de muitas formas um sedutor, um manipulador da condescendência e de culpas variadas. E assim o foi até o fim, em impecável coerência: “Fê-lo ele, só podia ser assim, jamais deixaria que acabassem um trabalho por si. Até mesmo o penoso trabalho de viver”. Seu legado seria uma infernal ambiguidade: “Foi um alívio tão grande quando ele desapareceu da nossa vida. Foi uma dor tão grande quando ele desapareceu da vida”.

Destroços

Despaixão é o primeiro livro da psicóloga Paula Lopes Ferreira (1980). Além de fragmentária, a narrativa é anárquica em forma e pontos de vista, emulando nessa confusão de vozes e estratégias o estado a que a narradora, grávida, é lançada pela violência que, do desejo ao ciúme e à agressão, vinha estruturando seu casamento. “Não sei reconstituir com precisão os seus atos, que foram transformando tudo em destroços”, escreve a narradora, que a cada fragmento toma um caminho, imprime à prosa um ritmo próprio, explora imagens realistas, cenas delirantes.

No centro de tudo está um corpo supliciado pelo parceiro, um corpo que na primeira página é apresentado aos leitores numa cena perturbadora: “morri na noite de Natal”. Ao chegar em casa, perto do amanhecer, a narradora se vê abatida no chão, banhada de sangue e coberta por restos de enfeites de decoração natalina. “E agora estava ali um corpo sábio”, observa, “com vias de regra, calmo e sereno, livre das afetações do malfeitor. Já tinha vivido o suficiente para não mais me deixar levar.”

À morte alegórica se sucedem infinitas formas de agressão, muitas delas dissimuladas em supostos jogos que sempre se revelam armadilhas — “não sou a que começa, reajo e ele gosta, ele usa, ele bate, ele sacode a onça para depois fazer o abate”. Aqui e ali, Paula se vale de enumerações vertiginosas na tentativa de traduzir o que a relação mobiliza:

Ele rouba, ele late, ele rosna, ele mente, ele xinga, ele ataca, ele chuta, ele paralisa, ele se deixa bater, ele reclama, ele é o santo, ele é Judas, ele mia, ele coça, ele mija, ele trai, ele mastiga, ele engole, ele regurgita, ele abusa, ele dissimula, ele é golpista, ele anula, ele é o impostor, ele paga, ele azeda, ele compra […] ele é o carcereiro, ele é o coringa, ele é a tranca, ele é o buraco, ele é perverso, ele é a porta, ele soca, ele é a praga, ele é a peste, ele pisa, ele esmaga, ele dobra, ele bagunça, ele joga pra debaixo do tapete, ele leva, ele lava, ele seca, ele taca, ele pira, ele é o louco, ele tritura, ele frita, ele amarga, ele é o enforcado, ele expõe, ele vai, ele volta, ele é profano, ele tem os olhos azuis.

Em Triste tigre não há tentativas ficcionais ou escapes da imaginação. É antes pela crueza que Neige Sinno (1977) tenta entender os mecanismos do indizível manobrados pelo padrasto:

Estar sozinho num cômodo com uma criança de sete anos, ter uma ereção só de pensar no que vai fazer com ela. Dizer as palavras que vão fazer essa criança se aproximar de você, enfiar seu sexo ereto na boca dessa criança, fazê-la abrir bem a boca. É, isso é fascinante. Está além da compreensão.

Filhas de um casal hippie, que opta por viver como guias de montanhismo, em contato direto com a natureza e também com uma precariedade material severa, Neige e a irmã assistem à paixão da mãe pelo novo namorado, com quem teria mais dois filhos. É no miúdo, no banal, que a brutalidade se manifesta com mais contundência: ele é sociável, gosta de jogar Monopoly em família, mas literalmente vira a mesa quando perde. No trato cotidiano, “a voz dele passa com facilidade da doçura à violência. No momento em que alguma coisa começa a irritá-lo, ele grita. Grita alto. Dá ordens”.

A despeito da extrema sensibilidade do que narram, as autoras não cedem à simples catarse

A relação que se estabelece entre os dois, tal como descrita em Triste tigre, acirra todo tipo de turbulência dos juízos que se possa imaginar. Se, obviamente, não há o que relativizar na barbárie — um dos nomes possíveis e provisórios do inominável que se instala na família —, Neige disseca ao limite do insuportável o emaranhado de vínculos criados pela violência: “Todo o meu caráter foi ele quem fez. O bom e o ruim. O ótimo e o terrível”.

Aos 21 anos, depois de longas e tortuosas conversas com a mãe e em conjunto com ela, Neige o denuncia à polícia. Imediatamente preso, ele é julgado e condenado a nove anos de prisão. Por bom comportamento, ganha a liberdade depois de cinco anos. Se casa de novo, tem mais quatro filhos e continua vivendo onde sempre viveu, tocando uma fazenda orgânica. Diante da foto da nova família, a narradora comenta: “É claro que não podemos adivinhar nada. Não há nada para ver, pois o que estamos tentando ver não é da ordem do visível”.

Fiasco

Tanto Sinno quanto Sá Fernandes citam como referência uma Virginia Woolf pouco óbvia, a de Um esboço do passado (Nós, 2020). Publicada postumamente, inacabada, a narrativa é uma densa reflexão sobre a escrita autobiográfica. Para Woolf, que sofreu abusos de dois meios-irmãos, a maioria das narrativas do gênero é “um fiasco” pela excessiva ênfase no que há de factual. “Elas dizem: ‘Isto é o que aconteceu’; mas não dizem como era a pessoa com quem aquilo aconteceu”, observa. “E os acontecimentos significam muito pouco, a menos que antes se conheça com quem eles aconteceram.”

O que Woolf sugere, e de fato faz, é evitar que a narrativa seja dominada pelo meramente episódico. Escrever é, ou deveria ser, ampliar a compreensão do mundo e adensar sua complexidade, o que acontece mais facilmente quando o narrador constrói um ponto de vista analítico sobre sua própria experiência. É precisamente o que acontece com três autoras que, a despeito da extrema sensibilidade do que narram, não cedem um segundo à simples catarse. Diz Neige Sinno:

Quando a pessoa consegue falar do trauma é porque já está um pouco a salvo. Isso não quer dizer que é a palavra ou a literatura que realiza a terapia. Pelo contrário, a escrita só pode ocorrer depois que o trabalho já foi feito, um pouco do trabalho, essa parte de trabalho que consiste em sair do túnel.

Quem escreveu esse texto

Paulo Roberto Pires

É editor da revista Serrote. Organizou a obra de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004).

Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025.