

Repertório 451 MHz,
A boba da corte
A escritora, roteirista e podcaster Tati Bernardi fala sobre seu novo romance e as contradições de debochar de uma elite que sempre invejou e da qual passou a fazer parte
04abr2025Está no ar o 134º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, a convidada é a escritora, roteirista e podcaster Tati Bernardi, que está lançando o romance autoficcional A boba da corte (Fósforo). No livro, resenhado pela crítica literária Ligia Gonçalves Diniz para a edição de abril da Quatro Cinco Um, a autora conta com humor e ironia sua história de ascensão social como escritora e debocha da elite intelectual paulistana, da qual passou a fazer parte e que já lhe despertou raiva, inveja e fascínio.
O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet — Incentivo a Projetos Culturais.

Uma das principais colunistas da Folha de S.Paulo, Tati Bernardi é autora das coletâneas de crônicas Depois a louca sou eu (2016) e Homem-objeto e outras coisas sobre ser mulher (2018), e do romance Você nunca mais vai ficar sozinha (2020), todos lançados pela Companhia das Letras.
Ela também é reconhecida no mundo dos podcasts, onde já apresentou o Calcinha larga, o Meu inconsciente coletivo, o Desculpa o transtorno e o Se ela não sabe, quem sabe?, produzidos pela Folha. Atualmente, está no ar com os programas Desculpa alguma coisa e Reparação histérica, no UOL.
Origem na ZL paulistana
Na conversa no 451 MHz, Tati fala sobre uma das questões centrais de A boba da corte: sua mudança do Tatuapé, bairro onde cresceu e que fica na zona leste de São Paulo, para Higienópolis, região nobre conhecida por concentrar boa parte da elite ilustrada da capital paulista.

“O meu livro é um pouco a raiva que eu tenho quando vem uma pessoa que já nasceu na elite intelectual falar que eu sou menos escritora porque eu atiro pra todo lado, porque o escritor mesmo é o cara que mora num quarto e sala e se dedica apenas à literatura dele, porque se ele gostar de dinheiro ele é um vendido”, diz.
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A escritora explica que sua origem na ZL paulistana e a classe social em que nasceu a levaram a escrever para diversas mídias, da publicidade ao cinema. “Eu sustento a minha mãe numa casa, meu pai em outra, eu na minha e mais uns três parentes do Tatuapé”, conta.
Escrita, recusa e humor
Tendo como inspirações os autores franceses Édouard Louis e Annie Ernaux, grandes representantes do gênero que ficou conhecido como autossociobiografia, Tati conta que o sentimento de não pertencimento foi uma das suas principais motivações.

“Quando eu comecei a ter uma coluna na Folha, ela era muito lida e a grande pergunta que chegava pra mim era: de onde veio essa mulher? De onde ela saiu? E eu pensava: como assim de onde eu saí?”, lembra. Foi só então, diz Tati, que ela percebeu que não era vista como parte da elite intelectual.
A escrita de um romance autoficcional para contar essa história, no entanto, demorou porque envolveu bastante autocrítica. “Fiquei três anos tentando entender como que eu ia fazer ele sem parecer a trajetória de uma heroína branca, porque isso seria muito ridículo.”

Tendo que lidar com suas próprias contradições — sentir, ao mesmo tempo, raiva e desejo em relação ao mundo da elite intelectual —, ela encontrou a saída pela ironia. Percebeu que tudo que fez para pertencer a esse novo mundo, assim como os personagens que encontrou nessa trajetória, tinham um toque de comédia.
É por essa chave que Tati Bernardi define A boba da corte. “É um livro mais de humor, ele não tem uma pretensão de fazer um tratado sobre a luta de classes”, afirma.
A boba da corte
A escolha do título A boba da corte veio de uma memória da época da escola. “No colégio, a gente estudou o que era o bobo da corte e eu fiquei fascinada por essa pessoa que tem esse poder gigante, porque está ali colada na elite”, afirma. “Parece que é um lugar muito subalterno, parece que é alguém que tá se humilhando pra fazer o rei rir, mas, na verdade, ele é o único que pode rir do rei e eu fiquei muito fascinada com isso”, conta.
Junto com o riso, não nega a escritora, há o prazer de ser uma figura reconhecida. “A verdade é que existe, sim, facilidade se você pertence a um certo núcleo, a uma certa bolha. As pessoas te conhecem, as pessoas te chamam. Eu vi isso de fora e antigamente eu era crítica a isso, mas depois que você entra, você acha gostosinho”, brinca.
Personagens e cutucadas
A escritora também comenta no programa sua fama de usar pessoas reais como personagens. Segundo ela, muitas figuras que aparecem em A boba da corte na verdade mesclam várias pessoas que conheceu. “O que acontece nesse livro, em outros livros que eu fiz e na minha coluna da Folha também, é que os personagens são resultado de uma grande mistura de cinco, seis pessoas. Ninguém ali está exatamente como é.”
“O namorado que eu cito no livro, ele é uma mistura de três, quatro. Eu peguei um pouco de história de cada coisa que eu vivi, até porque eu não namorei pouca gente da elite intelectual”, brinca. “Mas o que importa dizer está ali e tudo parte de coisas que de fato me aconteceram.”

Tati não poupa ninguém de suas cutucadas, nem a si própria. “Eu dou uma bela detonada em mim nesse livro também, eu ainda tenho um prazer muito grande em me detonar”, diz. “Se é um livro que é para pôr dedo na cara, no sentido de usar mesmo essas histórias para extrair humor, eu sempre me coloco nessa turma.” Num desses momentos, ela conta do seu deslumbramento com o dinheiro quando começou a trabalhar em agências de publicidade, no início da carreira.
Vale encantado
Ainda na conversa, Tati Bernardi também fala sobre outro tema presente em A boba da corte: as escolas do chamado “vale encantado”, um conjunto de colégios privados progressistas que surgiram nos anos 70 e 80 em São Paulo e onde os filhos da elite intelectual da cidade costumam estudar.
“É muito comum me perguntarem: você fez Vera Cruz ou Santa Cruz? E eu respondo que eu fiz o ‘Cruz Credo’, porque ninguém conhece o colégio que eu fiz”, brinca, lembrando de como certos colégios até hoje são relevantes na demarcação de grupos sociais.
Tati estudou no Colégio Agostiniano São José, uma escola particular localizada no Belenzinho, bairro da zona leste de São Paulo. Mas sua filha, hoje com sete anos, já estuda em uma das escolas do “vale encantado”.
“Minha filha tem o que eu me ressenti por não ter, sabe? Ela já tem esse sotaque dessas escolas, da elite intelectual com dinheiro”, diz, em tom de piada. “Eu estou formando alguém muito parecida com as pessoas que, quando eu cheguei na zona oeste, eu achei que não fossem a minha turma. Então, é uma loucura…”
Mais na Quatro Cinco Um
Em resenha para a revista dos livros, a crítica literária Ligia Gonçalves Diniz afirma que A boba da corte é “uma história permeada por raiva, humor e tesão” e que esses elementos são sempre pessoais e intransferíveis. “Não se trata de dizer como as coisas são, mas como Tati as viveu.” Leia a íntegra do texto.
Tati Bernardi também participou do 451 MHz em 2024. No 119º episódio, ela discutiu junto com o psicanalista e podcaster André Alves o livro Alguma vez é só sexo?, do psicanalista inglês Darian Leader. No programa, eles compartilham suas neuroses e angústias após terminada a leitura.
Colaboradora da Quatro Cinco Um, Tati resenhou em 2019 a coletânea Cat Person e outros contos (Companhia das Letras), da escritora norte-americana Kristen Roupenian. Leia aqui.
Já em 2020, ela escreveu sobre Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas (Perspectiva, 2020), da jornalista francesa Violaine de Montclos. Leia a íntegra da resenha.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz uma sugestão da escritora Aline Bei, autora de O peso do pássaro morto, publicado pela editora Nós em 2018, e de Pequena coreografia do adeus, que saiu pela Companhia das Letras em 2021. Ela é uma das autoras confirmadas d’A Feira do Livro de 2025, que acontece de 14 a 22 de junho.
Aqui, Aline Bei indica As lágrimas amargas de Petra von Kant, peça do cineasta e dramaturgo alemão Rainer Werner Fassbinder, reeditada pela editora Cobogó, com tradução de Marcos Renaux, em 2024.

“As lágrimas amargas de Petra von Kant conta a história de Petra, uma estilista famosa, conceituada, culta, que está passando por um período de pós-divórcio, e ela conhece uma mulher misteriosa, pela qual ela se apaixona perdidamente, amargamente, a Karen”, resume.
Confira a lista completa de indicações do podcast 451 MHz no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+.
CRÉDITOS
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Produção: Brenda Melo e Beatriz Souza
Edição e mixagem: Igor Yamawaki
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]
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