

Escritor, ator, jornalista e podcaster, o português Ricardo Araújo Pereira é uma das mais relevantes vozes de humor em seu país. Cinco vezes eleito Personalidade do Ano na premiação portuguesa Globos de Ouro, o humorista acaba de lançar Coisa que não edifica nem destrói, seu novo livro de ensaios, pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um.
Adaptado da primeira temporada de seu podcast homônimo veiculado entre 2023 e 2024, o livro de Araújo Pereira é um estudo sobre o riso. Mergulhando em diversas aparições desse gênero na ficção, o autor de A doença, o sofrimento e a morte entram num bar (2017) tenta desvendar o “humor” — que, parafraseando Machado de Assis, ele define como algo que “não edifica nem destrói”.

Com a missão de desmistificar o humor e analisar várias de suas técnicas e particularidades, Araújo Pereira cita desde escritores clássicos, como Homero, Rabelais, Shakespeare e Pessoa, até personagens contemporâneos como o anti-herói Deadpool, dos quadrinhos e filmes da Marvel. Em meio a crônicas, piadas fatais e piadas em epitáfios, os ensaios formam uma ampla bibliografia sobre a arte de fazer rir.
Trecho de ‘Coisa que não edifica e nem destrói’
Um homem está à procura de alguma coisa no chão. Chega um amigo e dispõe-se a ajudar:
— O que é que perdeste?
— As minhas chaves.
— Tens ideia de onde as perdeste?
— Dentro de casa.
— Então porque é que estás a procurá-las na rua?
— Aqui há mais luz.
Este homem é muito burro ou muito inteligente? A pergunta é mais difícil do que parece. Por um lado, é capaz de ser mais sensato procurar uma coisa no sítio em que a perdemos. Mas também parece incontestável que é melhor procurar uma coisa onde há boa iluminação do que às escuras.
Mais Lidas
O homem que protagoniza esta história chama-se Nasreddin Hodja. Segundo o professor Şükrü Kurgan, Nasreddin Hodja nasceu em 1208 e morreu em 1284. Há, porém, boas razões para acreditarmos que muitas das histórias que se contam sobre ele são apócrifas, assim como parece evidente que as anedotas de Bocage não foram todas protagonizadas pelo poeta setubalense. Nasreddin é uma figura importantíssima do folclore do Médio Oriente. Há estátuas em sua homenagem desde Bruxelas, na Bélgica, até Astana, no Cazaquistão. A Turquia tem estátuas de Nasreddin Hodja em várias localidades. A estátua é quase sempre a mesma, e representa Nasreddin sentado ao contrário num burro, ou seja, virado na direcção da cauda do animal. É uma referência a mais uma das suas histórias. Alguém encontra Nasreddin e pergunta:
— Porque é que estás sentado ao contrário?
Ele responde:
— Eu estou sentado na direcção certa, o burro é que vai ao contrário.
Várias das histórias de Nasreddin incluem um burro. Um vizinho vai a casa de Nasreddin e pede-lhe o burro emprestado. Ele responde:
— Lamento, mas já o emprestei a outra pessoa.
Nesse momento, ouve-se o burro a zurrar, dentro do estábulo de Nasreddin. O vizinho zanga-se:
— Então mas eu estou a ouvir o burro ali…
E Nasreddin fecha-lhe a porta na cara dizendo:
— Um homem que acredita mais na palavra de um burro do que na minha não merece que eu lhe empreste nada.
(…)
Os humoristas, parece-me evidente, raciocinam como os malandros; os cronistas, sobretudo os que se dedicam a escrever acerca de temas comezinhos como se fossem importantes, recorrem aos mesmos estratagemas; e os brasileiros têm uma inclinação especial para este tipo de malandrice. Isso nota-se bem no futebol. Às vítimas dos dribles de Garrincha os brasileiros chamavam João. Disse vítimas porque é isso que um João é: vítima de um engano, de uma burla. O joanismo (que é a volúpia de fazer dos adversários joões) passou a ser um atributo do futebol brasileiro — e, por isso, do futebol. O verdadeiro futebol é o que divide o mundo entre malandros e joões. Em 1970, segundos antes do golo de Carlos Alberto, Clodoaldo fez quatro joões italianos. Quatro giovannis, portanto. O golo podia esperar: antes, havia um, dois, três, quatro joões para fazer. Aqui não se pode ver a jogada mas fica o relato:
Brasil contra Itália. Inesquecível esse lance total. Clodoaldo recebe a bola, dá a Pelé, Pelé a Gérson, a Clodoaldo: engana um, engana dois, engana três, engana quatro, e vai com uma jogada de jogo colectivo brilhante […].
“Engana”, diz o comentador. E isso é um valor em si. Marcar golos é importante, e ganhar é fundamental — mas ganhar sem joanismo, sem o prazer de enganar o adversário, como costuma fazer a Alemanha, não é exactamente futebol. É uma modalidade muito parecida, mas menos excitante, menos viva, menos alegre.
Porque você leu Humor | Trechos
Uma alfinetada na aristocracia
Em Freshwater, sua única peça teatral, Virginia Woolf se inspira no próprio círculo social para satirizar os comportamentos da elite intelectual e artística da época
MARÇO, 2025