Psicologia,

Instruções para a noite escura

Especialistas de todo o mundo exploram os múltiplos significados de ‘O livro vermelho’ de Jung, manuscrito que permaneceu inédito até 2009

25maio2022 - 18h33 | Edição #58

“Minha alma, onde estás? Tu me escutas? Eu falo e clamo a ti — estás aqui? Eu voltei, estou novamente aqui — eu sacudi de meus pés o pó de todos os países e vim a ti, estou contigo; após muitos anos de longa peregrinação voltei novamente a ti.”

Esse clamor de Carl Gustav Jung (1875-1961), nas páginas iniciais de O livro vermelho — assim conhecido pela cor da capa de couro do manuscrito, que permaneceu inédito até 2009 —, tem um tom dramático comparável ao das invocações de Deus por Santo Agostinho nas Confissões, obra do século 4 que foi um dos marcos culturais da transição da Antiguidade para a Idade Média.

Agostinho ali rememora a conversão ao cristianismo após anos de prazeres carnais e interesses intelectuais “pagãos” que ele podia então, do alto de sua posição de bispo católico, condenar como pecados. Jung, por sua vez, documenta n’O livro vermelho as experiências interiores que marcaram sua própria passagem do profano ao sagrado: a renúncia à condição de principal colaborador de Sigmund Freud em nome de um anseio de retorno à “alma”, ou personalidade nº 2, essa antiga emissária de sonhos e visões de uma coloração mítica nitidamente pré-cristã e que lhe permitia transcender, desde a infância, a rotina doméstica angustiante, filho que era de um pastor protestante enclausurado em uma fé reduzida à casca dogmática e em um casamento infeliz.

O livro vermelho contém o registro de um “confronto com o inconsciente” que se estendeu de 1913 a 1930. Iniciada logo após a traumática ruptura com Freud, essa foi uma jornada constituída de exercícios de imaginação ativa, como Jung os conceituaria mais tarde, em que se viu chamado pelo “espírito da profundeza” a situações estranhas ao “espírito desta época”; um exemplo foi a cena de sua autodivinização mitraica, com uma serpente enrolada no seu corpo e com sua face humana transfigurada na de um leão, enquanto contemplava a crucificação de Cristo. Além disso, trava diálogos com figuras como Elias, profeta do Antigo Testamento, e Salomé, a sensual algoz de João Batista, nos Evangelhos. Outros personagens fundamentais são o gigante oriental Izdubar e um guru de nome Filêmon — com quem Jung chegava a fazer “passeios” pelo jardim de sua casa enquanto recebia as lições dele.

O registro dessa verdadeira nekya (descida ao mundo das trevas, ao estilo de Ulisses na Odisseia, ou de Dante na Divina comédia) foi acompanhado pela elaboração de pinturas impressionantes, cuja força estética levou O livro vermelho a ser exposto com destaque em 2013 na Bienal de Veneza.

Os livros negros, “diário” de Jung em que O livro vermelho se baseou, também só foram publicados recentemente. Nos dois casos a seriedade do trabalho crítico e editorial do historiador da psicologia Sonu Shamdasani foi o argumento decisivo para que os herdeiros de Jung finalmente permitissem a publicação desses tesouros espirituais de valor incalculável, pelo acesso que dão aos bastidores da gênese de uma das mais importantes vertentes terapêuticas modernas — talvez ainda mais proeminente no contexto pós-moderno, em que pontes entre ciência e religiosidade são menos tabu do que no tempo da hegemonia cultural do racionalismo cartesiano.

Assim como Jung se afastou da psicanálise, a cultura pós-moderna também nasceu da exaustão em relação a crenças unilaterais

Em O livro vermelho de C. G. Jung para o nosso tempo, coletânea de ensaios em vários volumes (os dois primeiros recém-publicados no Brasil), fica patente a tensa conexão entre o legado de Jung e o Zeitgeist contemporâneo. Um time de importantes representantes, psicólogos ou não, do pensamento junguiano em todo o mundo foi selecionado para explorar os significados dessa obra-chave de Jung para além das suas circunstâncias históricas e biográficas imediatas. O foco está em mostrar como ela pode oferecer insights válidos para os anseios e impasses de homens e mulheres “em busca da alma sob condições pós-modernas”, como diz o subtítulo.

A linguagem com que Jung articula sua visão teleológica da História não tem medo de recorrer a fontes como a astrologia

Assim como Jung se afastou do que classificava de dogmatismo freudiano (dotado de uma intransigência racionalista comparável à fé paterna irracional com que rompera na infância), também a cultura pós-moderna nasceu sob o signo de certa exaustão em relação a crenças demasiadamente institucionalizadas e unilaterais, sejam elas clericais ou positivistas. É verdade que esse cansaço não deixa de levar a espetáculos grotescos como os negacionismos anticientíficos e antidemocráticos que temos testemunhado nestes anos pandêmicos.

A pós-modernidade é definida por Jean-François Lyotard como momento de colapso das “grandes narrativas” que sustentavam a imagem de uma história destinada a algum tipo de apoteose gloriosa. Thomas Arzt, organizador da coletânea ao lado de Murray Stein, sugere porém que o “mito” redescoberto por Jung ao longo da jornada subjacente ao Livro vermelho — ou seja, o processo de individuação, o “tornar-se quem se é” do indivíduo que se diferencia do rebanho e unifica dentro de si os opostos (consciência e inconsciente, bem e mal, masculino e feminino etc.) — iria na contramão da pós-modernidade, ao incutir em nossa vida pessoal e coletiva um sentido evolutivo, uma tendência de completude psíquica que os pós-modernos típicos consideram ilusões românticas obsoletas.

Mas a linguagem com que Jung articula sua visão teleológica da História não tem medo (e nisso é muito atual) de recorrer, não à sisuda lógica dialética de Hegel, mas a fontes tão cercadas de suspeitas como a astrologia.

Era de Aquário

A primeira das pinturas de O livro vermelho traduz de modo cifrado, como destaca Arzt, a convicção de Jung de que a humanidade estaria às portas da chamada Era de Aquário, uma época de superação das cisões representadas pelos dois Peixes que nadam em direção antagônica no signo astrológico em via de ser superado. “No centro da imagem, um navio velho está prestes a levantar âncora; uma cidade medieval se apresenta no fundo. Sob a superfície da água, discernimos os habitantes da profundeza do oceano; abaixo deles encontra-se o ‘basalto-fogoso-fluido’ do interior vulcânico da terra. No topo da pintura, vemos um sol, de quatro raios nos céus, seguindo sua trilha elíptica e passando pelos signos do zodíaco. Na ilustração de Jung, o sol se encontra entre os signos de Peixes e Aquário, enquanto um dos quatro raios avança até o signo astrológico de Aquário, a era vindoura.”

Jung analisava esses processos sem nenhuma ingenuidade banal ao estilo new age. Vários ensaios da coletânea enfatizam, a partir de passagens extremamente dolorosas de O livro vermelho (entre elas a visão, poucos meses antes da eclosão da Grande Guerra, de um mar de sangue recobrindo a Europa), que o “espírito da profundeza” pode vir à tona de maneiras extremamente virulentas, pouco compatíveis com a visão de mundo rósea e repleta de gratiluz com que muitos gostam de se enganar sobre a condição trágica da humanidade em um mundo tantas vezes obscuro e hostil.

Para uma obra lançada em 2017, chega a ser de uma clarividência sinistra que Murray Stein se refira ao Livro vermelho como fonte de orientação para um “mundo de desafios enormes, de realinhamentos geoestratégicos, de mudanças climáticas severas e da necessidade urgente de uma transição fundamental de energia, de ameaças de pandemias globais, de escassez de recursos e ameaças de uma derrocada financeira”.

Paul Bishop, um dos mais cultos especialistas em Jung na atualidade, se vale de comparações com Platão, Goethe, Schelling e Nietzsche para investigar o papel da “loucura divina” em Jung. Ele se interroga sobre como a criatividade quase psicodélica que jorra das páginas de O livro vermelho seria antídoto em uma sociedade que cada vez mais adoece de variantes muito menos inspiradas de demência.

Jung chegou a temer por sua sanidade naquele difícil período de sua vida. Mas a eclosão da Primeira Guerra lhe trouxe a certeza de que suas visões apocalípticas não eram prenúncio de sua desintegração mental, mas uma revelação “divina”, ou melhor, arquetípica, do desastre coletivo. Também foi essencial contar com o que chamou de sua vida “diurna” junto aos parentes, pacientes e colegas, enquanto enfrentava a sós a noche oscura del alma, como diria São João da Cruz.

“Quando vives no teu nível profundo a vida comum, tomas consciência de teu si-mesmo”, anota em O livro vermelho, em possível tradução psicológica do preceito hindu da devoção espiritual que não foge das tarefas no mundo. O indiano Ashok Bedi, a propósito, explora as conexões entre o processo de Jung e os diálogos em que Krishna convoca o discípulo Arjuna a cumprir com coragem e desapego sua missão, na Bhagavad Gita.

Uma fixação unilateral em anseios de pureza moral desconecta o indivíduo de sua natureza contraditória e favorece fanatismos

“O que está acima é como o que está abaixo”: o antigo preceito hermético fala de um equilíbrio entre os opostos que, segundo o psicólogo suíço, teria feito outro “profeta” da era pós-moderna (e pós-cristã), Friedrich Nietzsche, sucumbir à loucura.

Outra diferença em relação a Nietzsche é que, ao invés de se deter no diagnóstico da morte de Deus, uma das mensagens centrais de O livro vermelho é o renascimento da imagem divina na alma de Jung e do Ocidente. Esse renascimento, segundo Stephan A. Hoeller e Lance S. Owens, teria forte afinidade com o gnosticismo, tipo de espiritualidade herética que Agostinho cita nas Confissões como um erro que a graça divina lhe permitiu superar quando aderiu à fé católica.

Na célebre entrevista que deu à bbc perto do fim da vida, Jung disse sobre a existência de Deus: “Eu não acredito, eu sei” — e assim sintetizava a diferença entre a atitude espiritual de crentes e a de gnósticos como ele; “gnose” é um conhecimento de tipo intuitivo, direto, não mediado por padres ou pastores, e que se permite suportar a revelação de que o demiurgo regente deste mundo não é exatamente o Deus justo e bondoso do catecismo. Em episódio crucial de O livro vermelho, Filêmon prega sete sermões gnósticos a mortos que voltavam de Jerusalém, onde não haviam encontrado o que buscaram. Esses mortos simbolizam cristãos decepcionados com a fé tradicional, incapaz de dar conta de questões como o escândalo do mal.

A psicóloga Liliana Wahba destaca a importância clínica da “imaginação para o mal” de que O livro vermelho dá provas abundantes. Uma fixação unilateral em anseios de pureza moral desconecta o indivíduo de sua  natureza contraditória e favorece a emergência de fanatismos de massa incapazes de tolerar todo tipo de “sombra”, inclusive a da dúvida, projetando-a na forma de ódio e desejos de extermínio do outro, do diferente. As redes sociais ilustram as consequências desse dinamismo psíquico regressivo; outro fenômeno típico dessa atmosfera, Donald Trump, é objeto de interessante comentário junguiano por Randy Fertel neste volume.

Joerg Tasche, por sua vez, aborda outra dimensão-chave do mundo contemporâneo, a emancipação da mulher, mediante seu estudo da Salomé junguiana. Também explora a possibilidade de que essa personagem do Livro vermelho fosse uma alusão cifrada a Lou Salomé, femme fatale de Nietzsche e discípula de Freud — e que Jung conheceu pessoalmente.

O livro vermelho de C. G. Jung para o nosso tempo demonstra de múltiplas formas o impacto renovador que o Liber Novus, o “livro novo” (como Jung se referia ao seu manuscrito), tem representado para a psicologia analítica. “O livro vermelho”, indaga Stein, “é também para hoje e não apenas para ontem, para a história? O Liber Novus ainda é novo?” A resposta é sim, ainda mais quando suas tantas facetas e enigmas são abordados com a qualidade dos textos desta coletânea, que mostram quanto Jung segue vivo e atual — e em grande medida “inédito”.

A Erfahrung (“experiência”), para Walter Benjamin, era marca distintiva dos grandes contadores de histórias de outrora, aventureiros, viajantes, guardiães da memória da tribo e portadores de conselhos vitais para as novas gerações. Benjamin a contrapunha à Erlebnis (“vivência”) típica do cotidiano ensandecido e sem sentido em que nos arrastamos. Pós-moderno tanto quanto pré-moderno, e assim equidistante seja do anseio reacionário pelo que o passado tinha de coeso, seja do endosso niilista ao que o presente tem de dilacerante, O livro vermelho dá testemunho de uma Erfahrung repleta de ensinamentos que vêm da noite escura do mestre de Zurique para iluminar a nossa.

Quem escreveu esse texto

Caio Liudvik

Tem pós doutorado em filosofia e é sociólogo e autor de Sartre e o pensamento mítico (Loyola)

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.