Política,

Extrativismo digital

Bielorrusso ataca gigantes do Vale do Silício e sustenta que novas regras europeias não deterão seu poderio antidemocrático

01abr2019 - 01h00 | Edição #21 abr.2019

Evgeny Morozov é um dos intelectuais que remaram contra a maré nos últimos dez anos nos campos da economia política da comunicação e da governança da internet. 

Em um período em que a literatura nas ciências sociais celebrava o potencial emancipatório das redes, a emergência de uma esfera pública descentralizada, as possibilidades de uma sociedade civil politicamente ativa por redes sociais e a emergência de economias híbridas e inclusivas — diagnósticos produzidos por pensadores como Manuel Castells e Lawrence Lessig —, Morozov atacou o “solucionismo tecnológico” e as promessas de liberdade da internet em obras profundamente céticas como The Net Delusion [A ilusão da internet] e To Save Everything Click Here [Para salvar tudo clique aqui], publicadas durante a relativa euforia com o papel das tecnologias da informação na Primavera Árabe e em movimentos como Occupy Wall Street.

Em uma época na qual Google e Facebook eram promotores incontestes do acesso ao conhecimento, do compartilhamento e das liberdades civis — financiando eventos de governança da internet e entidades de direitos digitais —, Morozov lançou ataques profundos ao modo como se estruturava o debate sobre a internet e o otimismo exacerbado em torno de uma tecnologia propícia ao controle.

A análise crítica de Morozov, antes vista como radical, hoje soa razoável, uma leitura sóbria do estado das coisas. Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política vem para fazer justiça ao histórico de intervenções de Morozov no debate público, mostrando as suas tentativas de reorientar as discussões sobre a interface entre sociedade e tecnologia nos últimos anos. 

Mesmo que Morozov seja conhecido entre ativistas e acadêmicos, sua tradução para o português possibilita uma caixa de ressonância maior a este importante intelectual bielorrusso.

Em forma de coletânea, Big Tech é diferente dos livros anteriores de Morozov. São dez textos de intervenção publicados em veículos internacionais e selecionados pelos coordenadores da Coleção Exit da Editora Ubu, somados a uma apresentação escrita em novembro de 2018 pelo autor.

Chamo de “textos de intervenção” porque Morozov é um mestre na arte de causar fissuras em narrativas dominantes. Publicados em veículos de formação de opinião, como The Observer, Frankfurter Allgemeine Zeitung e The Guardian, os escritos são talhados para provocar fortes reações e incômodos no leitor. Duas características de estilo são notáveis. Primeiro, os títulos extremamente provocadores, como “Por que estamos autorizados a odiar o Vale do Silício” ou “Como cobaias desavisadas”. Segundo, são marcados por frases de impacto e ataques viscerais às empresas de tecnologia, como quando Morozov afirma que, para o Google e o Vale do Silício “ainda é possível morrer por falta de comida, mas não por falta de conteúdo”, ou quando afirma que “o Facebook está interessado em inclusão digital do mesmo modo que os agiotas se interessam pela inclusão financeira”.

Morozov não tem um inimigo intelectual, mas sim se opõe ao conjunto de narrativas corporativas produzidas pelo Vale do Silício. Se empresas como Google, Uber e Airbnb gastam bilhões com lobistas especializados na produção de discursos de formatação da opinião pública, Morozov parece se arrogar em uma posição de contralobista, em um esforço de desconstrução das narrativas produzidas na Califórnia.

Desde The Net Delusion (2011), o alvo de seus ataques está no “solucionismo”, um conjunto de crenças disseminadas sobre o papel transformador das tecnologias, as eficiências a serem atingidas pela regulação algorítmica e o progresso gerado pela constante disrupção de aplicativos e soluções de conectividade. Em Big Tech, dois outros temas ocupam papel de destaque.

Economia política

Uma tônica dos textos de Morozov é a necessidade de discutirmos as tecnologias atuais como consequências de fenômenos estruturais mais profundos, especialmente a intersecção entre política, finanças e direito. Não interessa a ele analisar como a Uber revolucionou o mercado de transporte individual, como gera novos desafios para a mobilidade urbana ou que efeitos pode gerar nos nossos padrões de consumo. Interessa investigar o surgimento da Uber como consequência de um processo mais amplo de desregulamentação das relações de trabalho, de avanço do ideal de empreendedorismo e de desmantelamento do Estado de bem-estar social.

Como autor bielorrusso, vindo de um país considerado periférico na geopolítica global, Morozov tem como referências intelectuais pensadores de economia política de outros países periféricos, como o economista indiano Sanjay Reddy e o teórico social brasileiro Roberto Mangabeira Unger. Esses autores são mobilizados para criticar a “epistemologia do Vale do Silício” e a pobreza de arranjos institucionais alternativos para se pensar o futuro da “economia do conhecimento”. Não é por acaso que Morozov enxerga no Brasil, na Índia e na Rússia os terrenos sociais onde pode existir algum tipo de redefinição da economia política da internet, indo além de um modelo que o autor julga excessivamente tecnocrata e ultrapassado, como a opção da União Europeia por uma orientação “exclusivamente jurídica”. Para Morozov, o projeto europeu de regulação das Big Techs por meio do Regulamento Geral de Proteção de Dados Pessoais e de instrumentos do direito concorrencial é tímido e insuficiente.

Durante a euforia da Primavera Árabe, Morozov combatia as promessas de liberdade da internet  

O que o autor defende é um projeto ambicioso de rediscussão da natureza coletiva da propriedade dos dados, afastando qualquer tendência de mercantilização dos dados pessoais e adoção de soluções de mercado. O livro falha em detalhar normativamente esse projeto, especialmente na dimensão institucional, mas aponta para a centralidade da economia política como lente teórica para sua discussão.

Dados e petróleo

A centralidade da economia política conecta-se com um segundo ponto-chave da discussão de Morozov em Big Tech: o “modelo de capitalismo dadocêntrico” adotado pelo Vale do Silício, que, segundo o autor, “busca converter todos os aspectos da existência cotidiana em ativo rentável”. É a lógica do Google, tão bem adaptada por chinesas como Baidu e Alibaba.

Morozov conceitua os dados pessoais como “um resíduo digital das inúmeras redes e relações sociais, econômicas e culturais que se entrecruzam em nossas vidas”. Fazendo um paralelo com os setores extrativistas de recursos naturais, como o petróleo, Morozov coloca no centro da discussão o modo de produção dessa economia, que ele chama de “extrativismo de dados”. Infelizmente, nos textos que integram Big Tech, Morozov não dialoga com autoras que encabeçaram a discussão sobre a postura extrativista dos gigantes de tecnologia, como Julie Cohen e Shoshana Zuboff (esta objeto de resenha de Ricardo Abramovay na Quatro Cinco Um de março). 

Apesar de a frase “os dados são o novo petróleo” ser um chavão fraco em termos conceituais, Morozov acha o modismo útil para debatermos a matriz extrativista desse modo de produção, em especial a forma como as grandes empresas de tecnologia “continuam escavando a nossa psique tal como as empresas de petróleo escavam o solo”. Ao hipotetizar um cenário de internet das coisas onde tudo está conectado e acoplado com sensores — nossas casas, nossas estações de trabalho, nossa escova de dentes e até nossas privadas —, Morozov reforça a necessidade de imaginarmos cenários de “catástrofe informacional” (cujo escândalo Facebook/Cambridge Analytica é só um exemplo) e situações de intensa “poluição de dados”, ruídos e externalidades negativas. Coloca-se em pauta, enfim, a reinvenção de um ambientalismo digital. 

O autor propõe um exercício intelectual semelhante à “heurística do medo” proposta na década de 1970 pelo filósofo Hans Jonas. É preciso pensar no que de pior pode acontecer. Nossa incapacidade de imaginar e discutir tais catástrofes informacionais nos distancia de uma discussão ética sobre o que queremos e o que não queremos enquanto sociedade. Se existe uma tendência a sermos tragados por um “espetáculo individualista e favorável ao consumidor”, Morozov busca a retomada da “noção de política como empreendimento comunitário” como boia de salvação.

Quem escreveu esse texto

Rafael Zanatta

É é diretor da Associação Data Privacy Brasil de Pesquisa e autor de Economias do compartilhamento e o direito (Juruá).

Matéria publicada na edição impressa #21 abr.2019 em março de 2019.