Poesia,

Ritmos raríssimos

Destaque da nova geração de poetas, Bruna Beber lança nova coletânea para ler e ouvir

08nov2018 - 13h44 | Edição #2 jun.2017

Ladainha, novo livro de poemas de Bruna Beber, é cheio de estranhamentos. A cada poema aparecem ideias ou imagens inusitadas: a poeta sofre de “dores barítonas”, sua cabeça está “um baile de ácaros”. Algumas imagens são deliciosas e engraçadas, e parecem ter saído de um desenho animado:

Casa com piscina no deserto
foi vista no mar descendo
de costas pelo rio

(Poema 61, I)
 
Uma fogueira passou voando,
assando nuvens, apaixonando
os pássaros: – não foi nada

(Poema 61, II)
 
Um efeito muito bem-vindo dos estranhamentos é nos tirar do piloto automático. Volta e meia precisamos parar e nos perguntar se estamos mesmo lendo o que acabou de adentrar nossas retinas: 

Sempre limpo os pés antes de entrar
no sono e aí um frango inteiro lindo
e cru me tira para dançar 

(Poema 131)

Os estranhamentos não acontecem apenas para quem lê. A própria poeta se intriga com seus escritos. Sobre os poemas, diz: 

Eu os estranho como um velho 
[conhecido
que não chegou a ser amigo, silêncio 
[cheio
de ilusão e mandioca madura

(Poema 73)

No texto crítico que acompanha o livro, o poeta Eduardo Sterzi aponta essa estranheza e afirma que a “mandioca madura soaria quase como uma nota surrealista”, se não pudéssemos remetê-la a um tipo de palavras e objetos recorrente na obra de Bruna Beber. Creio ainda que essa saudação à mandioca fornece uma pista sobre os rumos do trabalho da poeta (que tem 33 anos e já publicou cinco livros). Ou, pelo menos, nos dá uma pista sobre suas buscas.

Poetas estão buscando o tempo inteiro. O que buscam? O que escrever. Como escrever. E mesmo por que continuar escrevendo. O que significa escrever nestes tempos? É uma busca que nunca termina (ou, como ela mesma poderia dizer, “que não cabe no Google”). Mas voltemos à mandioca e à sua estranheza.

Acredito que nesse livro Bruna decidiu mergulhar naquilo que nem mesmo ela entende (poesia é mistério!). Para continuar vivendo. E escrevendo. É uma busca poética e espiritual. A fim de conduzi-la, foi até a raiz da poesia produzida neste território. Procurou ancestralidades. Elementos da natureza. Os primeiros versos do primeiro poema:
  
Plantei uma goiabeira
dentro de um banheiro
e a cigarra veio
morar comigo

Ladainha está cheio de chuva, vento, fogo, folha, peixe, cigarra, pedra, feijão, onda. De onde vêm os poemas? Quem são seus autores? Da barriga da cigarra que foi morar na goiabeira, ela vê “semear, romper e brotar” uma parceria: “O canto é ancestral/ adquirido”. (Uma curiosidade: apesar de este ser o primeiro poema, recebeu o número 2. Nenhum poema tem título, e todos são ordenados por números primos.) Alguns ecoam cantos ameríndios:

Nunca mais vai chover
toma aqui este chocalho
nunca mais vai chover
O terceiro vento
era um espírito e nós
nos curvamos abraçados
(11)

Um trecho do poema número 37:

O fogo se desdobra 
em fogo e o fogo 
vira mais fogo
muito fogo

Até que vira 
cinza e a cinza 
um monte de cinza 
muita cinza vira

[…]
Não sinto falta de ar
grande amigo é o vento
acende fogo espalha terra
bota a gente pra dormir.

Essa busca só poderia se dar na voz. Na oralidade ancestral dos cantos ameríndios e de origem africana. Mas também na fala brasileira. Nas ladainhas contemporâneas. No falatório de Stella do Patrocínio. Na música e em suas diversas manifestações. Em entrevista de 2013, Bruna Beber afirma: “O funk e o rap afinaram meu ouvido, me deram a noção da poesia popular cantada”. Mas sabe que essa afinação nunca termina: “O ritmo é raríssimo de se mamar na musa” (Poema 73).

Tanto a voz é importante nesse projeto que Bruna decidiu gravar todos os poemas e disponibilizá-los em seu site (brunabeber.com.br). Talvez os versos finais do poema 29 ilustrem o que esse livro representa na trajetória da poeta: “É sobre conseguir chegar naquilo que eu sou/ e cada vez mais perto daquilo que eu sou com alegria”.      

Quem escreveu esse texto

Angélica Freitas

Poeta e tradutora, escreveu Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify).

Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.