Poesia,

O labirinto de Godard

Livro do cineasta franco-suíço inclui pensatas, poemas-aforismos e ironia autobiográfica

20abr2022 - 12h16 | Edição #57

O que é o cinema? Desde que o cinetoscópio de Thomas Alva Edison, o bioscópio dos irmãos Skladanowsky e o cinematógrafo dos irmãos Lumière deram início à era das imagens em movimento, há quase 130 anos, essa pergunta tem sido formulada. Alguns volumes clássicos a utilizam no título. O que é o cinema? (Cosac Naify, 2014), por exemplo, reúne textos de André Bazin escritos na era de ouro da crítica cinematográfica francesa, de 1945 a 1958. Nesse período, Bazin — um dos criadores e editores da lendária revista Cahiers du Cinéma — contribuiu decisivamente para que o pensamento na área fosse capaz de acompanhar o salto para a modernidade que inúmeros filmes e autores já anunciavam (e começavam a executar). “Uma reflexão na aparência simples, mas de amplitude extraordinária”, afirma Ismail Xavier na apresentação do livro. A visão de Bazin implicava, segundo ele, uma “ontologia, investigação do específico fílmico”. “A pergunta ‘O que é o cinema?’ não poderia admitir a asserção definitiva, mas seu pensamento, de ensaio a ensaio, revela um conjunto de traços que definem uma coerência.” 

As palavras se aplicam também à obra do franco-suíço Jean-Luc Godard, um dos “jovens turcos” (porque “radicais” na defesa de suas ideias heterodoxas) da “gangue de Schérer” — referência a Éric Rohmer, pseudônimo de Maurice Schérer, líder do grupo do qual fazia parte também François Truffaut — que foram levados por Bazin para exercer a crítica na Cahiers du Cinéma a partir da intensa experiência cinéfila na Cinemateca Francesa, então capitaneada por Henri Langlois.


História(s) do cinema, publicado na França em 1998 e lançado agora em português, é um livro de poesia conectado umbilicalmente ao grandioso videofilme homônimo a que Godard se dedicou entre 1988 e 1998

Veio em seguida a aventura da nouvelle vague e, com ela e os demais “cinemas novos” (incluindo o brasileiro) dos anos 60, a disseminação dos preceitos do cinema autoral e moderno. Godard foi alçado ao centro do palco e jamais saiu de cena. Como diretor, tem sido o mais inventivo dos críticos — seus filmes estão sempre em diálogo com a história do cinema (Acossado, seu primeiro longa, foi dedicado à Monogram Pictures, uma produtora americana de filmes B) e são ancorados em reflexões sobre a presença da imagem na sociedade. História(s) do cinema, publicado na França em 1998 e lançado agora em português, representa mais uma confluência entre essas duas vertentes de sua obra. É um livro de poesia conectado umbilicalmente ao grandioso videofilme homônimo, com oito episódios e duração de quatro horas e meia, a que Godard se dedicou entre 1988 e 1998.

O extenso repertório da poesia-ensaio godardiana mistura Truffaut, Mozart, Cézanne e Dostoiévski

“Música, fotografia, pintura, gravura, escultura, literatura, arquivos, filosofia, poesia, discurso, história e cinema: tudo é montado e mixado ali”, observa Céline Scemama-Heard, professora da Sorbonne e autora de Histoire(s) du cinéma de Jean-Luc Godard: la force faible d’un art (História(s) do cinema de Jean-Luc Godard: a força fraca de uma arte, Editions L’Harmattan, 2006), em artigo publicado no belíssimo catálogo da retrospectiva de Godard no Centro Cultural Banco do Brasil, em 2015. “A dispersão é um gesto assumido pelo cineasta, mas ele não se opõe à recorrência de certas imagens, certos sons e certas palavras, que são como obsessões”, analisa. “Sem fôlego, mulheres e homens correm, caem, levantam-se, caem novamente e morrem; fugas, perseguições e quedas são a regra, e a figura da perseguição está longe de ser acessória em História(s).” 

Labirinto

Divididos em quatro capítulos (subdivididos em dois, à semelhança do videofilme), os poemas obedecem ao mesmo fluxo obsessivo. O gesto da dispersão, no filme, conduz na poesia ao que parece digressão, mas que respeita a mesma lógica de montagem godardiana para navegar pelo emaranhado que construiu. “Uma vez no labirinto, será possível sair dele?”, pergunta-se Mário Alves Coutinho em Jean-Luc Godard: de ‘Acossado’ a ‘Imagem e palavra’ (Tipografia Musical, 2020). “Será que o próprio autor conseguiu escapar da sua edificação, mais de 20 anos depois de terminada? Será que Godard foi sempre habitado por esse labirinto?” Pela ordem, não e sim são as respostas mais tentadoras.

A corrente da poesia-ensaio godardiana passa por alguns dos personagens já mencionados, como Truffaut e, em diversas ocasiões, Langlois, mas o extenso repertório (listado ao final) mistura, em cinema, Irving Thalberg e Jean Renoir, Elizabeth Taylor e Lilian Gish; em música, Gershwin e Mozart; em pintura, Cézanne e Vermeer; na literatura, Flaubert e Dostoiévski. 

E, embora a leitura adquira mais sabor se feita em paralelo a ver o videofilme, o livro tem autonomia — e para isso contribui a decisão dos editores brasileiros, autorizados pelo autor, de não incluir no volume os fotogramas da versão francesa. Assim, ganha mais força a palavra, matriz de poemas-aforismos (cinema: “nem uma arte/ nem uma técnica/ mas um mistério”), ligeiras mas inebriantes pensatas (“e o cinema só é uma indústria/ da evasão/ porque é antes de mais nada/ o único lugar/em que a memória é escrava”) e ironia autobiográfica (“eu queria ser engenheiro/ não sei sequer/ se consegui ser engenhoso”).

A presença da morte no cinema, que Xavier lembra ser “uma problemática tipicamente bazaniana”, é godardianamente aplicada aos filmes (“a morte/ faz/ suas promessas/ pelo/ cinematógrafo”), mas também à vida: “não existe morte/ o que existe é/ [eu] que vou morrer”; ou ainda: “os poetas/ entre os mortais são aqueles que/ cantando com gravidade/ sentem o rastro dos deuses que se foram/ seguem esse rastro/ e assim traçam para os mortais/ seus irmãos/ o caminho da reviravolta”. Elogie-se como os poemas ressoam em português graças à primorosa tradução de Zéfere, para quem interessa, como diz nas notas, “prestar mais atenção na citação traduzida de Godard do que no próprio original a que ela remete; afinal de contas, o que tento traduzir é, sobretudo, a interpretação que o seu texto dá de outros textos, já que citações é o que mais há (…) neste livro que é um ‘filme-citação’”.

A edição brasileira traz ainda um ensaio de Joana Matos Frias, para quem o livro “assinala apenas um dos três diferentes modos nos quais estas histórias existem, sem que faça necessariamente sentido considerar-se a precedência de uns sobre os outros”. O primeiro seria o modo fílmico, o segundo o modo fotorromanesco e o terceiro aquele que descobrimos na publicação, “que talvez pudesse qualificar-se como o seu modo poético: um texto-texto, sem voz off, sem fluxo de imagens, sem qualquer imagem (material) que não resulte meramente da aparição gráfica desse texto”. Bem-vindo ao labirinto de Godard, agora em corpo literário e bom português.

Quem escreveu esse texto

Sérgio Rizzo

É jornalista, professor e crítico e curador de cinema.

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.