Poesia,

Hilda Hilst duela com Deus

Criticada por ser hermética, sua poesia sempre foi uma tentativa de se comunicar com o outro

08nov2018 - 13h34 | Edição #2 jun.2017

Hilda Hilst tem fama de hermética, como pode ser inferido dos prefácios pantanosos da reunião anterior de sua obra. Neste sentido, Da poesia, em um só volume e em ordem cronológica, convida a um olhar mais atento a seu percurso poético, de uma capacidade de reinvenção talvez comparável apenas à de Ferreira Gullar. Mas, ao contrário deste, o processo de maturação de Hilst foi longo, uma trajetória símbolo da geração que viu a originalidade da semana de 22 completar as bodas de ouro.

Hilst começou sob feitiço de Drummond. Seus três primeiros livros, posteriormente renegados, foram publicados em um período de apenas cinco anos (1950-55). O verso não é livre se a voz é de outro, e foi a partir de formas mais ou menos fixas como a balada, o soneto e mais tarde a trova que ela se desfez de um certo tom confidencial convencionado por sua geração.

A partir do livro seguinte, o autoconsciente Roteiro do silêncio (1959), uma segunda influência, mais duradoura, começa a se mostrar — a do Jorge de Lima de Invenção de Orfeu. E mais positiva também: ao longo dos prodígios datados de 1962-67, época em que se estabelece sua fama de hermética, as imagens e dicções emprestadas vão se diluindo até restar o domínio formal, de uma tensão vertiginosa.

Em 1966, Hilda Hilst retirou-se para a Casa do Sol, e desde então escreveu peças e prosa, ganhou prêmios. Ainda que em tiragens pequenas, foi publicada. No final da vida uma editora grande reuniu sua obra, que já começava a ser traduzida e estudada. Mas reclamou até o fim de não ser lida, apenas comentada, exposta, imaginada.

Nas entrevistas, também publicadas pela Biblioteca Azul, era dada à dramaticidade, mas a indignação era sincera: “Sou acusada de obscurantismo ao mesmo tempo que dirijo um convite ao outro”. O teatro e a prosa, diz ela, e mais tarde a literatura obscena, foram tentativas de se comunicar, de chegar a alguém.

Era poeta, sua prosa o atesta. E seja qual for o tema, a poética que tenta alcançá-lo, diz ela, é a “daquele suposto desejo que eu vi e senti em algum lugar. Eu vi Deus em algum lugar”. O desejo, diz Anne Carson, é falta: “Ele demanda aqueles três componentes estruturais — o amante, o amado e aquilo que os separa” (Eros the bittersweet). A poética do desejo trata de distâncias, obstruções, de um vazio a ser percorrido.

As incursões pelo obsceno e a personagem polêmica das entrevistas realmente alcançaram um novo público, mas boa parte dele parece ter se detido na maestria com a qual ela conduziu este último experimento. É possível apenas invejar aqueles que agora poderão pela primeira vez se deparar com o percurso de Amavisse/Via Espessa/Via Vazia (1989), o que ela decidiu chamar de seu “último livro sério” (ela costumava falar de sua fase obscena com certo ar de vingança, como quem encerra uma obra sublime com chave de banheiro). Hilda Hilst não escrevia livros de poemas esparsos, mas suítes líricas, com tema, andamento e progressão, e este tríptico, ao lado de Alcoólicas (1990), é uma das mais deslumbrantes dessas sequências.

Para um público recém-chegado, o melhor ponto de partida é Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), o momento em que a experiência do teatro e da prosa parece ter livrado seu verso de muitas quinas no campo da linguagem e das ideias. A partir daqui tem início a lírica mais enxuta, mais cristalina já vista entre nós. E não só entre nós — Hilst não era provinciana, sempre se reportou ao grande tempo, a nada menos que toda a tradição lírica. O universal pode ser uma forma diferente de pensar o moderno. Em seus chamamentos, em seus duelos com Deus e com a morte, Hilda Hilst foi nossa Provença, nosso Siglo de Oro e nossa poesia metafísica.                              

Quem escreveu esse texto

Danilo Hora

Faz mestrado em Literatura Russa na USP.

Matéria publicada na edição impressa #2 jun.2017 em junho de 2018.