Poesia,

Do assombro nasce a poesia

Em meio à escuridão em que vivemos, a poesia de Leonardo Almeida Filho é um metafórico farol estético e uma chama ética

22jan2020 - 20h01

Não havia pedra
no meio
do caminho, Carlos.

Havia,sim,
o caminho
⁃ o medo –
(Suas possibilidades)
e a terrível sensação
da pedra
ali no meio.

E de repente, meu poeta,
percebemos,
fatigados,
por trás das retinas,
que
a pedra
sempre fomos nós.

(Leonardo Almeida FIlho)

Das várias leituras que emergem do novo livro de Leonardo Almeida Filho, percebe-se que sua praxis poética resulta de uma agudo sentimento do mundo, naquilo em que o seu observatório traz, em seus aspecto sensorial e reflexivo, e na esteira de uma experiência pessoal, o desassossego em relação à contemporaneidade e ao escreviver. Nessa poesia que suscita o desconforto em uma escritura de impacto verbal e semântico, o autor deflagra uma espécie de exegese do homem, do tempo e do mundo, nesse milênio ainda imberbe, mas tão impactado pelo desastre e pela distopia.

Artista comprometido com as angústias individuais e coletivas, antenado com as emergências e demandas de uma modernidade eviscerada, nessa nova safra poética que emula mais de três décadas de produção o leitor será confrontando com um denso e tenso inventário da nossa desilusão. No diversificado campo de sua intervenção criativa o autor maneja com igual potência cirúrgica a poesia (Crepúsculo na Filipeia, 1997), o conto (Nebulosa fauna & outras histórias perversas, Ed. Galáxia, SP, 2015) e o romance (O livro de Lorraine – Prêmio Governo da Paraíba, 1998), além de transitar por outros gêneros, seja atuando no campo musical como cantor e compositor, seja na crítica e/ou no ensaio (Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do Espírito, EdUnB, 2008).

O percurso poético de Almeida Filho caminha por várias vertentes e recebe o sopro de várias influências e escolas: da tradição à vanguarda, do erudito ao popular, seja utilizando os recursos do verso livre ou da forma fixa, dos cânticos sem rima ao soneto, das trovas ao cordel, do lírico-afetivo ao social-político, às vezes tangendo o tragicômico. Na sua dicção constata-se uma familiaridade com temas que habitam a poesia de Torquato Neto e Mário Faustino, pois trata-se de uma colheita que nasce da angústia com que alimenta seus múltiplos instrumentos artísticos na condução de um compromisso estético que se converte verdadeiramente num mergulho em nossos dilemas e num profundo inquérito existencial. Babelical traz a força da indignação e um halo de irreverência e corrosão ao preocupar-se também com o valor e a razão da poesia diante das mazelas do mundo contemporâneo, capitalista e fetichista. Num dos poemas símbolo de sua pulsão crítica, “As fotos do pênis de Michael Jackson”, denuncia o consumismo, a coisificação da vida, a etiqueta vil dos sentimentos leiloados nos outlets no mercado espúrio da massificação.

Leo também dialoga com autores e obras que formam seu painel de leituras e referencialidades, em sutil intertextualidade e num passeio metalinguístico, cujos temas, afinidades e olhares se aliam em simbiótica recusa do caos vigente. Vamos encontrar em sua oficina irritada ecos e familiaridades: sua inflexão poética faz um trânsito entre Gregório de Mattos, Oswald Andrade, Bandeira e Pessoa, flerta com Gullar, Pound e Eliot, percorre os mesmos territórios de apreensão e libelo de Roberto Piva, Glauco Mattoso e os beatniks, tal a pluralidade de sentidos e percepções que sua arte vulcânica abarca, na esteira de um imprescindível e cáustico olhar, para o qual ainda converge uma necessária dose de salutar de humor mesclado com iconoclastia.

Em meio à escuridão em que vivemos, esse tempo de tumulto e confusão de vozes, Babelical é um metafórico farol estético e uma chama ética, na linha do que nos disse José Saramago em A jangada de Pedra: “o que seria de todos nós se não viesse a poesia ajudar-nos a compreender quão pouca claridade têm as coisas a que chamamos claras”.  Essa é uma poesia que toca nas feridas, supura a purulência que necrosa as consciências e nos reverbera, simbolizando todas as dissonâncias, a lição de Cabrera Infante em Três tristes tigres: “Do assombro nasce a poesia”.

O acento crítico, os questionamentos filosóficos e a inquietação metafísica constituem o leitmotiv de um escritor versátil, que conduz seu bisturi nesse processo poético que se converte em verdadeira autópsia das sequelas que nos atormentam, uma palavra catártica e humanamente visceral, que vai fundo brigar nas trevas e dissecar o cadáver adiado que somos. Em sua receita de poesia, ensina que “o poema não é carne, nem tendão/ é vento sem tato, imaginação/ só sendo nada é que ele é tudo/ como o mito”, e nesse íntimo caderno de desapontamentos dá seu testemunho derradeiro e desiludido, nas mesmas águas em que navegaram Bandeira e Cecília: “Faço versos como quem vive/ sem reza, incenso ou mirra/ e não creio em serventia/ em matéria alguma, nada me serve/ mas tudo me absorve e me suporta/ sou poeta!”.

Leonardo Almeida Filho nasceu em Campina Grande (MG) e vive em Brasília. É professor universitário, escritor e ensaísta. Publicou "Todas as gerações" (2007) pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis e "Poemas para Brasília" (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade. Ronaldo Cagiano nasceu em Cataguases (MG) e vive em Portugal. Estreou com "Palavra engajada" (Editora Urutau) em 1989. Dentre suas obras publicadas, destaca‐se "O sol nas feridas" (Dobra), finalista do Prêmio Portugal Telecom em 2013). 

Quem escreveu esse texto

Ronaldo Cagiano

É escritor e poeta.