Poesia,

No carrossel de altos e baixos

Coletânea mostra como a produção poética de Daniel Jonas se encontra entre a tradição e a potência crítica

21jan2020 - 17h21

É possível que a poesia de Daniel Jonas soe rebuscada para um leitor brasileiro. Mas o mesmo se pode dizer sobre sua recepção em Portugal. Comentando os primeiros livros do poeta, o crítico português Osvaldo Silvestre já apontava o efeito de “anacronismo” que comparece na escrita do poeta. Autor de três livros de sonetos, Jonas escreve poemas em verso livre nos quais se percebe certo gosto pela raridade vocabular e pelo registro alto.

Seu diálogo com a tradição costuma ser destacado, seja com a de língua inglesa (na condição de tradutor do Paraíso perdido, de Milton, mas também de sonetistas como Shakespeare e Wordsworth, entre outros), seja com a alta poesia de língua portuguesa. O diálogo com Camões e Fernando Pessoa, por exemplo, é facilmente reconhecível, sem falar de excursos significativos por poetas como João Cabral de Melo Neto. Entretanto, o vetor da tradição é apenas um dos movimentos do “carrossel” de Jonas. Com a elevação poética do “visionarismo” ou da “profecia” (associada pelo organizador da coletânea, Mariano Marovatto, ao nome duplamente bíblico do poeta), convive o descrédito da poesia, a plasticidade da vida flagrada na “transitoriedade do real”.

É nesse conflito produtivo, mais do que no fato em si do rebuscamento, que reside o interesse da poesia de Jonas, acessível agora no Brasil com Os fantasmas inquilinos, reunindo textos escritos de 2005 a 2017. Não parece haver na distinção formal da coletânea, dividida em dois blocos — livros escritos em verso livre e livros de sonetos —, poéticas ou personas distintas do poeta. Parafraseando a declaração do autor (“sou um homem do tempo”), as duas partes configuram “poesia do tempo”, ainda que o soneto possa soar como uma trombeta (como dizia Wordsworth); ou, para dizer como Jonas: “No carrossel dos meus altos e baixos/ escolho a girafa”.

Essa historicidade assumida ora acusa o mal-entendido relativo ao sentimento e à espontaneidade, ora denuncia a ilusão (digamos, “cultural”) da poesia. Em tensão com a “tendência” já traçada pelo profético (aquilo que deve ser cumprido), a poesia de Jonas erige o bloqueio quase insuperável daquilo que “falha”, do desalento, daquilo que a mantém sempre “aquém de si”, inquilina na própria casa.

O cansaço do canto

Alguns desses termos fazem lembrar Pessoa, não apenas como poeta da profecia, mas como profecia exemplar da própria tradição, a ser lido pelos sucessores: ser poeta “do tempo”, no caso de Jonas, envolve o desafio de realizar a “profecia” da tradição no que diz respeito à sua potência crítica. Pessoa é um espectro na escrita de Jonas — como é Camões no caso dos sonetos. Mas, se isso é verdade para muitos poetas do século 20, em Jonas o cansaço, a suficiência para si do real e a defesa do artifício não se atenuam no curto-circuito metafísico, nem minimizam a “lama” da realidade.

Nos poemas, Álvaro de Campos ou o “guarda-livros” Bernardo Soares reaparecem como intertextos de um sujeito sedentário que não analisa o movimento urbano de sua mansarda, mas vai subindo sua rua com custo, atento aos despropósitos que a constituem, eventualmente forçado pelo flash do turista a se fundir com a paisagem. No modelo pessoano e whitmaniano, o poema longo declamatório serve para marcar a lentidão e a fadiga. Contra a postura sentimental e a naturalização moral da intimidade do poeta, a poesia é condenada — como as casas que se veem de fora — a não ter asas, a se apresentar em seu desassossegado cansaço.

A poesia não é o belo desinteressado, como em Kant, mas o que revela o despropósito do aproveitamento estético ou moral desse belo. No limite, poderíamos dizer que a poesia é o drama (“canto”) desse despropósito (“cansaço”): “eu canto o cansaço do canto”. A ênfase no esvaziamento de valores, na repetição como escopo da experiência, não exclui as pequenas vibrações ou iluminações da matéria, da mesma forma que o cansaço do canto não exclui a plasticidade verbal, o jogo incansável das imagens, um sentido muito fino do ritmo. Essas vibrações da matéria não apenas animam como limitam e mantêm em tensão a reserva “política” do sujeito. Não deixam de fazer parte do conflito contido nesse canto.

A experiência vivida não encontra sua imagem apenas no fluxo do verso livre. Ela também tem algo em comum com a experiência do soneto. “E o que entretinhas —/ A morte, a vida… — cabe em duas linhas”. A morte produz o ínfimo resumo dos afazeres da vida como o dístico final de um soneto inglês. A exemplo da estrutura codificada do poema de catorze versos, a vida entra em tensão com a própria fórmula. Acossado nas cordas do decassílabo, o poeta se pergunta por que pedala sempre na mesma pista. Eis a “oficina irritada” de Daniel Jonas.

Associada à de autores recentes da poesia portuguesa, como Ruy Belo e Luís Miguel Nava, a poesia de Jonas tem temperamento forte e alta voltagem para “inquirições melancólicas”. Há sempre o risco de que provoque mal-entendidos também no contexto brasileiro, que com ou sem razão estigmatiza o uso de determinadas formas e registros da tradição.

Mas é preciso reconhecer que, apesar de resvalar no convencional em alguns momentos, ela produz os seus “coágulos” mais do que procura desfazê-los; “deforma” a poética mais do que a edifica no pedestal do sermo nobilis. O desafio é “passar à generalização”, por meio da qual o mundo absorveria suas certezas localizadas, a atitude da nomeação. Só assim a poesia se transforma em mundo: ao identificar-se com a matéria de seu desejo, anônima e comum — como o poema, de “olhos vazios / e boca seca”.

Quem escreveu esse texto

Marcos Siscar

É poeta, professor, tradutor e ensaísta.