Literatura,

De saliva e sangue

Escritora equatoriana narra a luta entre a lógica da mente e a desordem dos sentidos

01dez2022 - 05h51 | Edição #64

Mónica Ojeda já declarou ser leitora de Clarice Lispector e Rubem Fonseca. Elementos marcantes das obras dos dois autores aparentemente díspares, o mergulho na mente feminina e a ferocidade narrativa aparecem em seu terceiro romance, Mandíbula, o primeiro publicado no Brasil. Manejando com maestria as alternâncias de intensidade das emoções de suas principais personagens, uma professora e as alunas adolescentes, ela revela obsessões catalisadas por um sistema educacional moldado como espaço primitivo de trauma e terror.


O mergulho na mente feminina e a ferocidade narrativa aparecem em Mandíbula, terceiro romance de Mónica Ojeda

Mandíbula integra a primeira fornada do Autêntica Contemporânea, selo que aposta em autores inéditos por aqui, como o argentino Federico Falco (Planícies), e a mexicana Cristina Rivera Garza (O invencível verão de Liliana), além de romances de brasileiras como Ieda Magri (Um crime bárbaro) e Marcela Dantés (João Maria Matilde). Polifônico e voraz, Mandíbula intercala estilos, tempos e pontos de vista. Os capítulos têm estrutura e ritmo próprios e podem ocupar dezenas de páginas ou se limitar a breves diálogos. Nunca sabemos o que virá, e a incerteza fascina e, ocasionalmente, assusta. Como em um trem fantasma.

“O horror ligado à vida como uma árvore à luz.” A frase de George Bataille em uma das dez epígrafes indica o caminho que Ojeda deseja percorrer. Para a autora — que diz se interessar pelo medo como tema filosófico, não gênero literário —, a palavra ganha força quando é capaz de formar um labirinto e levar o pensamento ao abismo. E o itinerário dos meandros mentais da professora Clara Valverde, assombrada por provocações de estudantes e lembranças da mãe morta, rende passagens memoráveis. O compêndio de angústias e excitações vivido por uma protagonista diagnosticada com transtorno de ansiedade inclui digressões ácidas sobre profissionais do ensino (“esconderijo de mediocridade superestimada”) e avaliações impiedosas do próprio desempenho (“revisora decente, professora indecente”) e de sua rotina (“tédio é conhecer o mundo através de um quadro-negro”). Quando é confrontada pelas provocações de duas de suas alunas mais brilhantes, sucumbe ao pânico. A reação com um ato violento amplia o desequilíbrio de quem está prestes a perder a luta entre a lógica da mente e a desordem dos sentidos.

Ojeda diz se interessar pelo medo como tema filosófico, não gênero literário

Ojeda integra uma geração de autoras latino-americanas que ganharam reconhecimento internacional e traduções no Brasil: Ariana Harwicz, Mariana Enríquez, Samanta Schweblin e Selva Almada (Argentina); Andrea Jeftanovic (Chile); Fernanda Trías e Vera Giaconi (Uruguai); Giovanna Rivero (Bolívia); Brenda Navarro e Fernanda Melchor (México). Vem de outra escritora equatoriana, María Fernanda Ampuero, uma feliz definição para Mandíbula, publicada no jornal El Telégrafo: “É prova irrefutável da maestria em contar histórias tecidas com saliva, sangue, pesadelos e rosários de dentes de leite”.

Saliva, sangue, sêmen e outros fluidos aparecem também nos poemas de História do leite, de Ojeda, recém-lançado pela Editora Jabuticaba. Os versos livres contemplam temas observados também no romance: os descompassos familiares irreversíveis, a atração pelas linguagens dos mortos e dos recém-nascidos e o impulso da destruição à solta em uma natureza nada idílica, associada à “estética das trevas”. “O corpo de Mabel se abre e é uma mandíbula que gargalha seu mal”, descreve em sua versão de Caim e Abel, protagonizada por duas irmãs: “Só construímos o nosso sangue/ quando o limpamos/ da família”.

Linguagem cinematográfica

As citações a filmes de Kubrick e Polanski em Mandíbula ajudam a delimitar o universo que interessa a Ojeda e a influência que a linguagem cinematográfica exerce no livro. Ela não economiza nas imagens, muitas inusitadas, como a de um rio “correndo com a dramaticidade do rímel num rosto choroso”. Na prosa segura e caudalosa, a repetição de recursos, como as comparações recorrentes das ações das personagens com atitudes e características de animais (“potranca sem rédeas”, “dedos de gorila”, “olhos de insetos fluorescentes”, “nade até o fundo como um crocodilo”, “morda pro alto como um jacaré”), pode tornar a leitura cansativa. E a permanente mudança de estilos nem sempre provoca o efeito desejado: o capítulo com a íntegra do “ensaio perverso”, tarefa escolar recebida pela protagonista, parece a exposição das ideias de Ojeda sobre a natureza do medo e não a reprodução do que seria o trabalho de uma estudante do ensino médio.

Irretocável mesmo é a descrição detalhada e impiedosa das transformações físicas e psíquicas trazidas pela adolescência, acentuadas nas jovens personagens pela percepção da existência de uma entidade sobrenatural pálida como as almas penadas dos antigos almanaques de terror. Mas o que assusta em Mandíbula não tem origem sobrenatural. Perturba mais a instabilidade psicológica trazida pela onipresença do medo como consciência da própria vulnerabilidade e provocado por palavras que “abrem portas inóspitas e invisíveis na nossa cabeça e, quando essas portas se abrem, não há mais como voltar atrás”. Para as personagens de Ojeda, o pior pesadelo é o que não sai da mente. E se vive de olhos abertos.

Quem escreveu esse texto

Carlos Marcelo

Jornalista e escritor, é editor-chefe do jornal Estado de Minas.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.