Editora 451,

Um romance-mural

Em novo livro, Ricardo Lísias investiga a ‘tempestade perfeita’ em que o Brasil se meteu

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

“‘Iluminismo obscuro’ é a expressão que melhor sintetiza a percepção atual do futuro como algo que ameaça o programa humanista”, afirma Franco Berardi em Depois do futuro. Partindo da análise das vanguardas artísticas do século 20 e de suas apropriações e distorções pela publicidade e por regimes totalitários, o autor constrói um painel no qual arte e política se entrelaçam para explicar o surgimento da imaginação moderna de futuro e seu esgotamento atual.

Em artigo de 1973, Pasolini — chamado por Berardi de profeta maldito — descreve a indústria cultural como a própria experiência fascista, e não apenas cortina de fumaça ideológica: “Nenhum centralismo fascista conseguiu fazer o que fez o centralismo da sociedade de consumo”, “o fascismo, insisto, no fundo não foi capaz nem de arranhar a alma do povo italiano: o novo fascismo, através dos novos meios de comunicação e de informação (especialmente da televisão), não só arranhou, mas a dilacerou, violentou, contaminou para sempre”.  

Diário da catástrofe brasileira, de Ricardo Lísias, aborda o primeiro ano da catástrofe brasileira: a eleição de Bolsonaro pelo voto de “57 milhões, 796 mil e 986 eleitores” (número que será repetido à exaustão, para que ninguém se esqueça de que a catástrofe se concretizou nas urnas). Ao lidar com arte e política, Lísias enfrenta o mesmo “iluminismo obscuro”. “A civilização corre outra vez sério risco”, escreve. Isso é possível não mais porque a colônia revela o segredo da metrópole, como queria Marx, mas porque no Brasil ocorre uma “tempestade perfeita”. A análise é de Bruno Latour: “É um tanto aterrorizante publicar o livro Diante de Gaia no Brasil, em meio a uma crise moral, política, sanitária, ecológica e religiosa de tamanha proporção. Parece que este livro chega no meio daquilo que os meteorologistas chamam de ‘tempestade perfeita’, isto é, a sobreposição de todas as crises ao mesmo tempo”.

Diário da catástrofe brasileira está classificado pela maior varejista do mundo como “Política, Prática Política e Ciências Sociais” e “Livros de Comentários Políticos e Opinião”, mas é na análise do narrador que está a chave da totalidade do romance. A velocidade da produção de notícias do neofascismo brasileiro acompanha a das redes sociais, e desmentir reiteradamente a própria mentira, ao mesmo tempo criando outras, é operação conhecida desde o fascismo original. Mais do que apenas registrar fatos e impressões do dia, o narrador do Diário se coloca na posição de profeta: sabe de antemão o que vai acontecer. 

Além dessa profecia absorvida na narrativa, em certas passagens o narrador-autor avisa que vai rever certo trecho e que talvez o elimine na versão final. Se por um lado temos a confiança de estar diante de um narrador que sempre acerta, por outro não sabemos muito bem a natureza do objeto que temos em mãos. 

Rascunho

Há método e objetivo nessa dupla operação. Lísias não se deixa ultrapassar pela velocidade dos acontecimentos e, ao mesmo tempo, oferece uma espécie de rascunho de um livro a ser publicado, o que lhe permite extrema liberdade para tratar do que bem quiser. É portanto no jogo entre o provisório e o definitivo que está o alcance do romance-mural criado por ele. E é nesse jogo que um narrador desabusado vai pensar a catástrofe. 

Ao experimentar a autoficção, Lísias entendeu as possibilidades de radicalizar aspectos realistas da literatura. A realidade passa a ser seu alvo. Ele abandona o Eu chatinho da autoficção e se lança em um projeto de experimentação formal e política. Brechtiano, trabalha nas redes, em performances e debates literários (os quais já não sabemos se são ou não performances), com certo “controle do escândalo”. 

Países mais conscientes da função da arte administram melhor suas crises políticas

Brecht bateu nos limites da justiça e problematizou a experiência em O processo do filme A ópera de três vinténs. E é também na judicialização de alguns de seus livros — a série de e-books Delegado Tobias e Diário da cadeia — que Lísias escancara o arbítrio da sociedade brasileira a partir da incompreensão da esfera artística. É dessa experiência que nasce uma das hipóteses mais interessantes do livro. Simplificando ao extremo: países mais conscientes da função da arte administram melhor suas crises políticas — sendo a França o caso exemplar e o Brasil o polo oposto. 

Brecht caminhou em grande medida sozinho. Acontece o mesmo com Lísias. Ao não ser apoiado por seus pares quando é censurado e processado, ele encontra outra hipótese do livro: o meio literário brasileiro é conservador. O “controle do escândalo” pressupunha “ação coletiva”. Jamais aconteceu.

Voltando ao diário. Uma vez decifrada a forma, as análises políticas fluem. É possível aderir a umas e recusar outras sem comprometer a leitura. A Lava Jato, por exemplo, é analisada como série de tv, performance encenada por atores, sem lastro na Constituição. A estética da extrema direita, com suas imagens compartilhadas por disparos ilegais ou espontaneamente pelos eleitores, ganha estudo sério. As redes são transformadas em museu de horrores, e “os ideólogos Olavo de Carvalho e seu mestre, Steve Banon […] funcionam como críticos e galeristas”. 

Não poderia faltar a crítica à esquerda, máquina intelectual que revela o nervo exposto da crítica: as explicações que giram em circuito próprio, distanciadas da realidade, não deixam de ser sintoma do fracasso das candidaturas progressistas na esfera política. Sexo e violência atravessam o diário inteiro, bem como falas e gestos de Bolsonaro e seus seguidores. Sem meias palavras: é na compensação oferecida pelo fascismo para a impotência sexual de homens brancos e héteros que estaria o nexo entre a ideologia do bolsonarismo e seus seguidores. “No ano de 1977, quando a banda punk anarquista Sex Pistols disse pela primeira vez ‘no future’, a frase foi recebida como provocação paradoxal. No novo século, no entanto, as mesmas palavras se tornaram quase senso comum”, afirma Franco Berardi.  

Uma entrada autobiográfica do Diário da catástrofe brasileira relata a experiência adolescente do narrador com o movimento punk na periferia de São Paulo. Era um fim de festa, logo os evangélicos dominariam a cena. Estamos em 1990. Em setembro de 2020, Johnny Rotten, vocalista dos Pistols e profeta do caos, apareceu na sacada de seu apartamento vestindo uma camiseta com um dos slogans de campanha de Trump: “Make America Great Again”. Ao aderir ao neofascismo norte-americano, Rotten cumpriu a própria profecia, e o futuro já era.

Quem escreveu esse texto

Tiago Ferro

É autor de O pai da menina morta (Todavia) e editor da e-galáxia e da revista de ensaios Peixe-elétrico.

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.