Literatura,

A governanta fiel

Céleste Albaret foi confidente de Marcel Proust na busca do tempo perdido e na grande noite do escritor

21dez2023

Em 2022, no centenário da morte de Proust, a celebração maior esteve a cargo da Bibliothèque Nationale, com a exposição Marcel Proust, A Fabricação da Obra. Cada sala da mostra era dedicada a um dos sete volumes. Ao percorrê-las, o visitante experimentava a sensação de entrar livro adentro. Reuniram ali manuscritos, cartas, objetos, fotografias, móveis, cadernos de rascunho, e tudo mais o que evocasse a atmosfera de Em busca do tempo perdido. Uma foto inédita de Céleste Albaret, a governanta do escritor, passou quase despercebida. Mas não a sua voz. Naqueles dias, ela ecoou pela Biblioteca.

Não há registro gravado da voz de Proust. Sua história foi contada pela voz de Céleste Albaret, que o serviu como governanta de 1914 até a morte dele, em 1922. Céleste se recusou, por muito tempo, a falar daquele que tratava por Monsieur Proust. Só aos 82 anos — cinquenta depois da morte de Proust —, indignada com as mentiras contadas sobre a vida do patrão, decidiu conceder um depoimento ao jornalista Georges Belmont. As 49 horas de gravação editadas pela rádio France Culture ainda podem ser ouvidas no site da emissora e no YouTube.

Com o título Monsieur Proust, o depoimento recolhido por Belmont saiu em livro em 1973. As fitas da gravação, tidas como desaparecidas, foram encontradas na Bibliothèque Nationale. O livro vendeu mais de 80 mil exemplares em dois anos e teve tradução brasileira, Senhor Proust, em 2008, pela Novo Século, hoje esgotada. Em 2021, Céleste receberia sua primeira biografia: À la recherche de Céleste Albaret, de Laure Hillerin.

No começo havia Odilon Albaret, motorista que prestava serviços a Proust. De rosto redondo e longos bigodes, como foi descrito por Céleste, era fiel e sobretudo discreto. Conduzia o escritor pela noite parisiense e o deixava de volta, exausto, alta madrugada. Céleste tornou-se Madame Albaret em 1913. A Paris periférica e enfumaçada que lhe foi dada depois de uma infância no campo deixou-a adoecida, quase sem comer ou dormir. Para distraí-la, Proust pediu que entregasse exemplares de No caminho de Swann, que acabara de ser publicado pela Grasset, a leitores escolhidos.

“Vi a entrada de um grand seigneur”, contaria ela sobre o dia em que o conheceu. “Parecia bem jovem, franzino, mas não magro, pele bonita e dentes extremamente brancos, e a pequena mecha de cabelo que lhe caía sempre sobre a fronte, que eu veria tantas vezes. Além disso, uma elegância magnífica, e uma forma curiosa de reter a respiração, como que para economizar suas forças e seu fôlego, que mais tarde observei em muitos asmáticos.” Céleste não via muito seu grand seigneur. A guerra e outras circunstâncias fizeram, no entanto, que ele não mais dispusesse dos serviços de Nicolas e Céline, que, entre outras coisas, lhe preparavam o café todos os dias. Até mesmo Odilon tinha sido convocado para a guerra.

Proust, por sua vez, incapaz de se cuidar sozinho, convocou Céleste: “Senhora, eu lhe agradeço infinitamente por consentir em cuidar de um doente, pelo que lhe serei eternamente grato”. Garantiu que seria por pouco tempo. Não seria decente um homem acamado manter uma jovem tão perto de si. Céleste preveniu-o: não sabia fazer nada. Chegara a confundir ovos mexidos com fritos. Celebrou-se um pacto. “Já que não sabe fazer nada, garanto que não vou lhe ensinar nada. Não vou pedir nada, eu mesmo vou cuidar das minhas coisas. A senhora fará apenas a minha essência de café, que é o mais importante”.

Proust ensinou a Céleste o cerimonial da entrega da bandeja de café. Ela deveria chegar por volta das 14h e aguardar na cozinha o patrão despertar, o que poderia ocorrer entre 16h e 18h. O café, o filtro e a cafeteira deviam ser da marca Corcellet. As exatas duas xícaras da “essência de café” exigida pelo patrão deveriam passar devagarinho, gota a gota, pelo filtro para a cafeteira em banho-maria, e então ser passadas para um bule de prata. O som de uma campainha indicava o momento de servir. Dois toques e ela levava um croissant. Céleste atravessava um corredor e um salão, abria a quarta porta e deixava a bandeja de prata na mesa, perto da cama. As paredes eram revestidas de cortiça, para que o barulho do mundo não penetrasse. A fumaça das fumigações com que ele tratava a asma envolvia tudo. Céleste não podia vê-lo. Em agradecimento, recebia um gesto de mão, “de um refinamento maior que qualquer palavra”.

Pouco a pouco o escritor deixaria o tratamento formal de “Madame” para chamá-la de “chère Céleste”. Indicava livros. Os três mosqueteiros, de Dumas, ela leu com gosto. Tentou Balzac, em vão. Ensinou gestos e maneiras que ela aprendeu com facilidade, e com o tempo aprimorou sua fala. Segundo a biógrafa Laure Hillerin, o fraseado de Céleste tornou-se literário, proustiano. Assimilara o ritmo, as palavras e as locuções dele.

Gioconda

A bela Céleste a todos impressionava. Desavisados tomavam-na por Madame Proust. Em cartas, ele a descrevia como “a bela criatura que tomei como camareira”, e a comparava a Lady Grey, beldade inglesa, e a heroínas literárias. Quando, de madrugada, ia de cabelo solto atender um chamado, ele a saudava: “Aí está a Gioconda!”. Aqui e ali, as barreiras sociais pareciam quase se apagar. Ela convivia com duques e duquesas, condessas, princesas e barões, mas também acadêmicos, escritores, poetas, editores e banqueiros e todo o meio editorial parisiense. Respondia a convites, marcava reuniões, desmarcava, encomendava jantares no Ritz. Explicava que “Monsieur irá, talvez, sem dúvida, mas sem certeza, ele pede desculpas, vai se levantar se a asma permitir…”.

A cada dia ela se fazia mais imprescindível. Comprava cadernos, secretariava, ouvia-o ditar quando estava cansado demais para escrever. Criou o método “de sanfona” — colar nos cadernos páginas extras, que depois seriam dobradas, para os inúmeros acréscimos. Um desses papéis chega a medir 2,5 metros. Embora levasse uma vida quase tão reclusa quanto a do patrão, as notícias do mundo chegavam a ele por meio dela, com quem partilhou sua existência enferma e seus momentos de grandeza. A única exigência de Monsieur era ter tranquilidade para escrever. Para isso, precisava de solidão. “Com esta finalidade, ele me formou e me modelou segundo a sua vida. Feito uma criança aprendendo a andar, ele me ensinou, passo a passo, o seu serviço”.

Ela comprava cadernos, secretariava, ouvia-o ditar quando estava cansado demais para escrever

Quando, depois de uma rusga, Céleste decidiu se afastar, foi a Odilon que o escritor recorreu para trazê-la de volta. Ao pedir desculpas, ele reconheceu: “Sem a sua presença, não vou conseguir escrever mais nada”. Anos depois, Odile, a filha do casal Albaret, dirá, sem ressentimentos, ter perdoado Proust. Afinal, devia sua existência unicamente à morte dele.

A verdadeira iniciação, no entanto, ainda estava por vir. A grande noite proustiana se anunciava, e dela Céleste participou maravilhada. Para ter acesso às soirées de Monsieur, trocou, assim como ele, o dia pela noite, e instalou-se na vida reclusa que Proust escolhera. A cada vez que saía para uma noitada, Céleste deixava preparados, numa bandejinha de prata, os lenços e as luvas dele, assim como o chapéu, o casaco, a bengala. Antes de entrar no elevador, ele se virava, sorria e dizia: “Bem, Céleste, não sei se voltarei cedo ou tarde…”.

Então, já tarde da noite, ela arrumava o quarto, os papéis, os tinteiros, as roupas. Tudo pronto, aguardava Proust, perscrutando o silêncio da casa. Assim que ouvia o barulho do elevador, e antes que ele chegasse ao hall de entrada, ela abria a porta para ele — Proust não carregava chaves.

Substância secreta

Pelo semblante dele, ela sabia se a noitada havia sido boa ou não. E mais um ritual se iniciava: “Siga-me, Céleste, tenho muito a contar”. Proust sentava-se na beira da cama. Diante dele, de pé, ela ouvia. Presenciava o que dizia ser o mais belo espetáculo de teatro que lhe fora dado assistir. Proust convocava os personagens, que entravam quarto adentro. Esquecido do cansaço, ostentava “o ar de um jovem príncipe voltando do baile de sua vida”. Não era mais o doente pálido. Das mulheres, descrevia os vestidos em detalhes, a coqueteria, a inteligência, como se Céleste tivesse diante dos olhos uma revista de moda. Ria das besteiras que ouvira, da gente ridícula que encontrara. Muitos anos mais tarde, se fechasse os olhos, ela ainda veria, como em um transe, os personagens que desfilavam nas narrativas de Monsieur. Laure Hillerin constata que Proust dedicava, só para ela, em segredo, a verve e o brilho que exibia nos salões.

As narrativas podiam surgir fragmentadas, incompletas, e ele as modelava. Às vezes, ele pintava grandes cenas sociais. Descrevia as relações entre as pessoas, seus caráteres, suas almas. Tinha necessidade de encenar o livro de sua vida diante de Céleste, animar os personagens, recapitular, recontar, pôr à prova a descrição do mundo que ele vivia, inventava, inventariava. Céleste tornou-se a única testemunha, a mais atenta ouvinte do livro que se fazia diante dela. Companheira de Proust na escrita, e à sua revelia, presenciou a construção da catedral. Soube, antes de qualquer pessoa, que Monsieur era o intérprete sutil de uma sociedade, de um modo de vida que se desfazia a seus olhos. Previu como ninguém a queda desse mundo e descreveu-a, em sua beleza e decadência. “Quem não soube ler isto nada compreendeu”, sentencia ela.

Como um etnógrafo ou um voyeur, Proust examinava a sua tribo em minúcias: a cena, a louça, a organização do serviço, as relações entre os convivas. Um determinado chapéu. Os personagens precisavam sair perfeitos, por isso eram colhidos na realidade. Cada detalhe era signo de certo mundo, de certa elegância, de certo meio. Mas o que o interessava nas pessoas era a substância secreta de que eram feitas. Decifrado o mistério, deixavam de interessá-lo.

Monsieur se divertia com as várias possibilidades de pessoas sugeridas para compor os personagens, e quase nunca deu a chave de sua caixa de segredos. Mesmo porque, argumenta Céleste, se a duquesa de Guermantes fora criada a partir de tal condessa, ou de tal Madame, em cem anos quem se lembrará dessas senhoras? Com a duquesa isso jamais acontecerá. Ela vai estar sempre viva no livro, para as novas gerações de leitores.

Proust sabia que suas saídas minavam suas forças, mas jamais deixou de se vestir como um dândi. Usava de artimanhas para aproximar-se de quem o interessava. Simulava encontros fortuitos, aproximava-se de pessoas que poderiam facilitar o acesso ao alvo. Às vezes, contudo, nada parecia dar certo: “Céleste, eu saí para nada! Que tédio! Todas essas horas perdidas, toda esta noite estragada! Eu… que não tenho tempo!”.

Intimidade 

Proust queria saber da família de Céleste, de sua vida no campo. Fazia-a recontar infinitas vezes a infância modesta: “Porque é nela”, dizia, “que tudo se faz. O paraíso ou o inferno”. Exigia descrições tão minuciosas quanto as dele, e afirmou que gostaria de escrever um livro sobre ela. Incentivou-a a manter um diário, assegurando que, depois de sua morte, valeria mais que os livros dele.

A intimidade crescia. Os dois partilhavam o mesmo humor. “Ele sempre em seu lugar, e eu no meu”, nas palavras dela. Céleste imitava para Proust alguns de seus amigos. Apelidara André Gide, o responsável pela recusa do livro pela Gallimard, de “o falso monge”. Gide sequer abrira o pacote, que voltara intacto da editora. Afinal, justificava a carta, “nossa casa publica obras sérias. Está fora de questão editar uma coisa como esta, literatura de um dândi mundano”. O autor de Os moedeiros falsos roeu-se de remorso pelo resto da vida.

Rainha dos pastiches, exímia imitadora, Céleste não poupava os “secretários” que Proust tomava a seu serviço. Em caricaturas, demonstrou desgosto e ciúme, reduzindo esses rivais a figurantes grotescos. Dedica a eles um discreto capítulo de suas memórias: “De ‘outros’ amores”.

Soube ocupar como ninguém o espaço que se abrira para ela. Entendeu que fazia parte de um jogo

Quanto à obra de Monsieur, ela parecia tudo compreender. Soube ocupar como ninguém o espaço que se abrira para ela. Entendeu, em primeiro lugar, que fazia parte de um jogo. Sabiamente, soube interpretar, diante dele, a personagem de si mesma. Ele esperava por isso. Seu humor camponês e espontâneo trazia para Proust, como diz Laure Hillerin, “um frescor de alma que jamais conhecera em alguém, e é nisso que reside o segredo de uma ligação tão forte que uniu estas duas personalidades tão diferentes”. À força de viver a vida dele, demonstrava impressionante perspicácia na avaliação da obra que ele construía. Não lhe escapava nem mesmo a persona literária que o autor criara. Quando confrontada com acontecimentos que, segundo ela, nunca existiram, dizia apenas: “Não foi bem assim. Isso foi dito apenas para agradar à literatura”.

Assim eram eles. Ranzinzas como um velho casal, constata Hillerin. Algoz e mestre, Proust tinha, para ela, a “suprema elegância de ser o que era, simplesmente”. Parceira e servente, assistente de escrita, ela própria criatura de Proust, modelada “por pequenos toques”, foi coadjuvante de uma das obras literárias mais importantes do século 20. E ele afirmava que só amara verdadeiramente duas pessoas na vida: a mãe e Céleste. “Nós dois éramos um pouco órfãos”, diz ela.

Para o escritor Jean Dutourd, “o encontro entre Proust e Céleste é tão miraculoso para um quanto para o outro. É claro que Céleste amava Proust apaixonadamente. Amou-o como uma mãe, uma filha, uma discípula, uma esposa. Ele, por sua vez, amou-a como esposo, ainda que não houvesse evidentemente nada de carnal entre eles. Proust foi um maravilhamento na vida de Céleste, mas ela não significou um maravilhamento menor para ele. É um acontecimento maior na legenda áurea da literatura francesa este homem, escrevendo contra a morte a maior obra romanesca da literatura francesa, e esta jovem que vela por ele, o compreende, e o adora”.

Governanta da memória

Numa “extraordinária manhã” de primavera, no dizer de Céleste — manhã no sentido proustiano do termo, ou seja, lá pelo meio da tarde —, ao levar para o patrão o café habitual, Céleste encontrou-o desperto, sem sinais de fumigação no quarto. Ostentava um ar cansado, mas olhou para ela e sorriu. Imediatamente, ela “foi tocada pela luz de sua expressão”. Esta foi a primeira e única vez em que Proust lhe dirigiu a palavra ao despertar e antes de tomar a primeira xícara. “Bonjour, Céleste… Aconteceu uma grande coisa esta noite… Adivinhe…” Prolongou o suspense. “Bem, querida Céleste, esta noite eu coloquei a palavra Fim. Agora posso morrer.” Céleste comemorou com ele, ainda que um pouco incrédula, pois sabia que estava longe de acabar a infinita tarefa de colar papeizinhos e fazer correções. Com o que ele concordou, mas o importante, disse, é que “minha obra pode ser publicada. Não terei dado minha vida por nada”.

Ele começou então a morrer. Desnecessário evocar a dor de Céleste, que talvez caiba inteira em uma frase: “Para mim, Marcel Proust morre a cada dia”. A vida tornou-se sombria. Céleste e Odilon retomaram o casamento, tiveram sua filha, educaram-na no culto a Proust. “Minha mãe vivia eternamente”, conta Odile “com o disco ‘Proust’ tocando na cabeça.” Passaram necessidade. Com suas economias, compraram um hotel decadente onde acolhiam escritores paupérrimos e poetas bêbados. Depois trabalharam como zeladores da casa de Maurice Ravel. Céleste precisou vender relíquias que Monsieur lhe deixara: bilhetes, cartas, livros autografados. Conservou uns poucos móveis, doados por Robert, irmão de Proust. Foi procurada por biógrafos e uns tantos mexeriqueiros. Deu entrevistas, foi a programas de rádio e de tv. Continuou velando por ele, governanta de sua memória.

Na primavera de 1972, aos 82 anos, Céleste decidiu contar suas lembranças a Georges Belmont, escritor próximo a Samuel Beckett, James Joyce e André Breton. Tudo foi bem acordado: Céleste teria o direito de ficar com as fitas e o livro seria submetido, antes da publicação, à família de Proust. As gravações duraram seis meses. Quando interrogada sobre uma questão mais delicada, dizia apenas: “Monsieur Proust não gostaria que eu falasse sobre isso”.

Céleste foi coadjuvante de uma das obras literárias mais importantes do século 20

Monsieur Proust saiu pela Robert Laffont e tornou-se o acontecimento literário de 1973. Alguns se declararam, de imediato, “celestômanos” fervorosos e se diziam completamente tocados pelo depoimento. Aqui e ali, começam a pipocar reticências e pequenas maldades. Claude Mauriac, filho de François e biógrafo de Proust, reconhece num artigo a devoção de Céleste a Proust, seus cuidados etc., mas nega legitimidade ao depoimento dela. O que diz, lhe disseram, ou leram para ela. Trata-se de uma testemunha–fantoche. Mauriac cita uma cena na qual Céleste, de joelhos, abotoa as botinas de Monsieur. Ali sim, está em seu papel, de criada ajoelhada. É a única prerrogativa que Mauriac lhe concede. Já Frantz-André Burguet a qualifica de “Eva futura da domesticidade”, e afirma que “Céleste, com sua inteligência, seu bom senso e seu respeito pelo mestre, entra hoje na literatura popular com o título de criada de grande coração”.

As coisas não ficam por aí. Apresentador de um talk show literário de sucesso, o jornalista Bernard Pivot organizou um júri na tv. Georges Belmont está no papel de acusado (na verdade a ré é Céleste), o editor Charles Ronsac atua na defesa e Claude Mauriac e Frantz-André Burguet são os acusadores. Belmont trata do encontro de Proust e Céleste como “uma das aventuras humanas mais extraordinárias, uma relação única entre duas pessoas.” Então Pivot provoca: “Por que um escritor tão excepcional como Proust, que sabia que os seus dias estavam contados, passaria tantas horas a contar histórias a uma criada quase inculta?”. Mauriac duvida do tempo que Proust teria concedido a Céleste, elogia as descrições dos hábitos do patrão, mas não admite que o escritor se interessasse por ela ou lhe fizesse confidências. Burguet acrescenta que o mais grave seria considerar o livro um testemunho. Seria, no máximo, uma vida romanceada. “É um precedente enorme!”, diz ele. “Se os criados se põem a escrever, o que será de nós?”

Mauriac condena a ousadia de Céleste de fazer críticas à obra de Gide. Para ele, o livro não passa de conversa fiada, de tagarelice doméstica. O Le Monde chega a afirmar que o livro simplesmente não poderia existir. A família Proust também digere mal as memórias de Céleste: para eles, não há mais nada a ser dito sobre Marcel.

O editor Robert Laffont indignou-se: “Desde quando as criadas não têm o direito de ter julgamento e memória?”. O psicanalista Jean Gillibert, na Revue Française de Psychanalyse, acusou: “Céleste Albaret, ‘criada’ de Proust, não está morta, mas os ‘proustianos’ gostariam de matá-la. O debate televisivo demonstrou isso, simplesmente”. Para ele, os proustianos “deveriam ao menos calar-se, e escutar, para encontrar outras portas de entrada, ou de saída, na obra proustiana. Em vez disso, que clamor, que inveja, que miséria nos homens de letras, em Claude Mauriac e Frantz-André Burguet! Homens feridos em seu narcisismo, primeiro por não terem sido ‘a musa’ de Marcel Proust, e em seguida por se verem, como proustianos, completamente subestimados. Enfim, que racismo!”

Origens

Machucada, Céleste retorna a suas origens e faz uma viagem a Auxillac, na Occitânia. O que encontra na aldeia natal não é diferente do que viu nas malpensantes cabeças parisienses. Desde que apareceu na tv, é considerada uma aventureira que partilhou sua vida com um homossexual depravado. Não passaria de uma empregada, boa apenas para esvaziar os urinóis. Ou então seria amante dele. A “puta de Proust” era proprietária de um hotel suspeitíssimo em Paris.

O livro dela não deixa de despertar interesse. Philippe Sollers, em resenha de 2014, coloca Proust em seu lugar e Céleste no dela. “Sejamos claros”, dispara. “Proust foi um tirano terrível. Este animal de lenda, este santo bizarro, pai–criança, vampiro noturno, carrasco adorável, era acompanhado dia e noite por um anjo, como seu nome indica. Ele virou-lhe a vida pelo avesso, deixando-a permanentemente exaurida, morta de cansaço. Ao que consta, riam muito juntos. Ela nada compreendeu, mas compreendeu muito, muito mais do que aqueles que o compreenderam mal.” 

Céleste viveu os reveses de sua existência com altivez e dignidade. Morreu aos 93 anos. Criou em torno de si um círculo afetivo no qual podia falar de Monsieur, entregar-se sem medo às lembranças e buscar, à sua maneira, seu tempo perdido. Desde a publicação, sua vida nunca mais foi a mesma. Sua casa tornou-se um lugar de peregrinação de proustianos do mundo inteiro, dos quais recebia cartas entusiasmadas e solidárias. Recebeu prêmios e medalhas. O mais importante: seu nome ficou para sempre ligado ao de Monsieur, que registrou, a certa altura da Recherche, que o talento poético de Albertine era feito “de uma poesia menos estranha, e menos pessoal que a de Céleste Albaret”. 

Quem escreveu esse texto

Mariza Werneck

Professora de antropologia da PUC-SP, escreveu O livro das noites: memória-escritura-melancolia (Educ).