Literatura,

Última pérola

Romance modernista de 1933 assinado com pseudônimo dá voz a alter egos de Pagu

28nov2018 - 12h22 | Edição #19 dez.18/fev.19

Romancista, jornalista, dramaturga, poeta, ensaísta, crítica literária, tradutora, desenhista, Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, foi também performer em cada minuto de sua vida. Filha de uma família pequeno-burguesa meio tradicional, meio imigrante e empobrecida, cresceu no bairro operário paulistano do Brás, cenário principal de Parque industrial e metáfora do ocidente fabril: “Brás do Brasil. Brás de todo o mundo”. 

Começou a vida pública muito jovem, ainda normalista, circulando com seu batom escuro, brincos de argola e “cabelos malucos”, na expressão do jornalista Álvaro Moreyra. Aos dezoito anos foi candidata a Miss São Paulo e estreou como escritora publicando versos e desenhos na Revista de Antropofagia. A partir de 1930, filiou-se ao Partido Comunista (pcb)e em 1931 criou, com o companheiro Oswald de Andrade, o semanário meteórico O Homem do Povo, que circulou por dois meses. Nessa época, como o pcb exigia que seus militantes de classe média se proletarizassem, Pagu arregaçou as mangas e foi trabalhar em fábricas, entre outros serviços braçais. Depois dessa experiência teve a ideia de escrever o que chamou de “romance revolucionário”, uma “novela de propaganda”. Saiu Parque industrial, com o subtítulo “Romance proletário”.

Muitas Pagus

Parque industrial, de Mara Lobo — um dos pseudônimos de Pagu — foi reeditado neste ano pela pequena editora Linha a Linha. A primeira edição, de 1933, saiu de par com Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade, seu então companheiro e patrocinador de ambas as publicações.

Ler Parque industrial mesclando a obra e a vida da autora como sugere o título do livro de Augusto de Campos, Pagu: vida-obra (Brasiliense, 1982; Companhia das Letras, 2014), mostra-nos que a profusão de personagens, cuja sexualidade é tão importante quanto a dimensão política, são alter egos da própria autora. 

Rosinha Lituana e Otávia, operárias comunistas, resultam de sua experiência proletária em 1931 e 1932; a normalista Eleonora, pequeno-burguesa do Brás, ascende socialmente pelo casamento e passa a frequentar as altas rodas paulistanas, aqui ridicularizadas. Oswald é Alfredo, burguês fanfarrão que se torna comunista. 

Na outra ponta extrema da sociedade paulistana está Corina, mulher negra de cortiço, filha de mãe solteira, costureira desempregada porque grávida, porque amante de um burguês sem escrúpulos que a abandonou. Acha, então, que só lhe resta a prostituição — no vocabulário marxista do livro, “reserva industrial”. Em suas memórias, Pagu conta que engravidou adolescente do primeiro amante; anos depois, lamenta o episódio em que se prostituiu para cumprir uma missão do Partido. 

Alexandre é um operário negro militante que nomeou os filhos Carlos e Marx, e em cujo barraco se ouvem histórias de uma certa Rosa de Luxemburgo. Na pele do operário, Pagu evoca Herculano de Sousa, o estivador de Santos assassinado pela polícia durante uma manifestação em 1931. Seu corpo foi recolhido pela escritora, que então foi presa pela primeira vez. No romance, a operária Otávia é encarcerada em Ilha Grande, no Rio de Janeiro, presa política como sua criadora.  

Parque industrial, fruto de uma experiência extenuante e radical, não tem as tiradas humoradas e desbocadas dos textos que Pagu publicou em O Homem do Povo. No pasquim, assinando como Kabelluda, ela criou oito tirinhas explosivas protagonizadas por uma jovem rebelde, fundadora de um “jornal do povo” — numa delas, ela é extraditada para Fernando de Noronha; noutra, fuzilada num “meeting comunista”; finalmente, estudante de direito, é trucidada em praça pública. Reaparece risonha depois de cada episódio, pronta para mais uma confusão. 

A marca maior de Patrícia Galvão é o risco, seu vanguardismo na escrita e no estar no mundo

A cidade de São Paulo, em ritmo frenético de industrialização, é esboçada por essa moça que, antes de completar 22 anos, já circulava por bairros e classes sociais em luta. A graça do romance, muitas vezes esquemático, está na escrita cheia de calor da hora e intrepidez juvenil, marcado pela forma modernista. Se por um lado há certa simplicidade de panfleto, por outro, essa avidez explode e nos lança numa cidade que cresce para todos os lados e engorda o pib brasileiro. Parque industrial pode ser lido como “uma última pérola modernista engastada na pedreira do romance social de 1930”, como diz o prefácio de Augusto de Campos.  

Entre 1933 e 1935, Pagu conheceu a China e a União Soviética. De volta ao Brasil, passou quase cinco anos presa pela ditadura Vargas. Um funcionário da polícia registrou que ela e a irmã Sidéria, recusando-se a deixar-se fotografar, foram empurradas numa escada dentro do Departamento de Ordem Política e Social (deops) enquanto cantavam a Internacional Comunista e gritavam “Pão, terra e liberdade!”. Mesmo assim, foi expulsa do pcb. Depois de solta, decepcionada com os rumos da União Soviética, ela rememorou em 1940: “Eu tivera vertigens histéricas junto ao túmulo de Lênin […]. Deixei Moscou no desfile esportivo. O céu era um céu de aviões e lá adiante, na tribuna, no seio da juventude em desfile, o líder supremo da Revolução. Stálin, o nosso guia. O nosso chefe”. A crítica ácida ao Partido Comunista também tomou forma de romance em A famosa revista, de 1945, escrito a quatro mãos com seu companheiro Geraldo Ferraz. 

Kenneth Jackson, professor da Universidade Yale, promete para breve a reunião dos textos inéditos de Pagu: são mais de mil, boa parte publicados sob pseudônimo, de 1928 até dois dias antes de morrer, em 1963. A presente edição de Parque industrial conta com uma introdução do professor, elaborada para a tradução americana, e com o posfácio e as notas da edição francesa, a cargo de Antoine Chareyne. 

A marca maior de Patrícia Galvão é o risco, seu vanguardismo na escrita e no estar no mundo. Feminista, diverge do feminismo da classe média dos anos 1930, e em sua primeira autobiografia, Nascimento, vida, paixão e morte de Pagu, manuscrita e desenhada aos dezoito anos, ela se retrata várias vezes nua. Os versos de “Juventude transviada”, canção de Luiz Melodia, cabem-lhe como uma luva (de boxe): “até sonhar de madrugada, uma moça sem mancada, uma mulher não deve vacilar”. 

Quem escreveu esse texto

Silvana Jeha

É autora de História da tatuagem no Brasil, publicado pela Veneta.

Matéria publicada na edição impressa #19 dez.18/fev.19 em novembro de 2018.