Literatura,

Sombrios e atormentados

Lembranças da Guerra Fria compõem a matéria-prima de romances de espionagem protagonizadas por espiões e suas batalhas perdidas

15nov2018

Ainda faz sentido a literatura de espionagem? Dois livros respondem que sim, mesmo que seja como chave para se entender o mundo da Guerra Fria, ou seja, aquele compreendido entre o final da Segunda Guerra Mundial e a implosão da União Soviética. Mundo estranho, onde os antigos aliados contra o nazismo se tornam inimigos assim que é firmada a paz e o globo se divide em dois blocos armados até os dentes separados por um muro erguido no meio da Europa.

O fantasma na máquina que movia essa disputa, que era ora simbólica e ideológica, ora se concretizava pela expansão dos blocos em suas respectivas áreas de influência em guerras localizadas, golpes de estado e agressões de toda espécie, era o medo de uma nova e ainda mais terrível guerra, dado o crescente poder de aniquilação dos armamentos.

O medo, como se sabe, é excelente matéria-prima para a imaginação e o romance de espionagem, de certo modo, deu forma aventurosa à paranoia que tomou o mundo ocidental europeu diante do perigo “vermelho” e dos mistérios que se escondiam por trás da chamada Cortina de Ferro. O que se passava, de fato, naqueles regimes políticos sobre os quais mais se fantasiava do que se conhecia? O desconhecimento do que seria de fato o “socialismo real”, o peso da propaganda emitida pelos países sob influência da União Soviética e o militarismo que ainda imperava nas fronteiras criaram um universo de segredos, falsas identidades, agentes duplos, complôs — e de muita especulação política.

Os dois maiores autores do gênero, Ian Flemming e John le Carré, não por acaso são ingleses e menos ainda por acaso tiveram passagens pelo serviço secreto britânico — Flemming ainda durante a Segunda Guerra; le Carré, no MI6, na década de 1960. O criador de James Bond, Flemming, deu aos serviços secretos a aura de aventura glamurosa que o cinema soube explorar tão bem e conferiu ao espião aristocrata e charmoso um lugar divertido no imaginário pop do século 20.

Os espiões de John le Carré, ao contrário, são funcionários públicos sombrios e atormentados, quase sempre desgostosos com o serviço sujo que acabam por ter de fazer como agentes de inteligência, mas também bastante convictos de seu lugar de guardiões do modo de vida ocidental. No engenhoso O legado de espiões, que marca a volta de Smiley, le Carré, revisita esse universo de contradições da Guerra Fria confrontando um velho agente com uma nova geração de funcionários do serviço secreto (“um rapaz inglês que mais parece um aluno de colégio interno — a cara limpa, de óculos, idade indefinida”) que tem recordações, no máximo escolares, sobre o período.

No romance, Peter Guillam, discípulo de George Smiley, é arrancado de sua confortável aposentadoria para responder sobre a operação Windfall, ocorrida na antiga Alemanha Oriental nos anos 1950, tão secreta que seus registros desapareceram. Entre memórias de Guillam e documentos classificados que vêm à luz, vai se desenrolando uma história de disfarces, mentiras, enganos e, claro, da crueza daqueles tempos que choca as sensibilidades dos jovens agentes, tudo à maneira meio seca e abrupta de le Carré.

Não há heroísmo possível nesse mundo de trapaças. O espião, no fundo, é um anti-herói; sabe que luta por um futuro que pode ser pior do que o passado

O mais interessante em John le Carré, em grande forma ainda aos 86, é como, no fundo, a revelação do grande segredo, quase sempre mais ou menos mesquinho e sórdido, importa menos do que o percurso pouco heroico que é feito até lá.

“Quando a verdade alcança você, não banque o herói; corra”, diz Guillam quase ao final do livro. A frase serviria como uma luva para o personagem de O simpatizante, de Viet Thanh Nguyen. Nascido no Vietnã ainda durante a guerra em 1971 e criado nos Estados Unidos, o autor ganhou o prêmio Pulitzer por este que é seu romance de estreia. A releitura da Guerra Fria numa das regiões que mais foram destroçadas pela loucura armamentista norte-americana — os EUA nunca deixaram de intervir no Terceiro Mundo sempre que o “perigo vermelho” tentou se aproximar — vale a aposta no autor como um renovador do romance de espionagem.

O simpatizante do título é um jovem comunista que se infiltra no Exército do Vietnã do Sul, torna-se capitão e homem de confiança de um general. Quando os vietcongues tomam Saigon em 1975, o general leva seu braço direito num dos últimos aviões que partem para os Estados Unidos. Em Los Angeles, ele vive do disfarce de migrante fugido da guerra, ao mesmo tempo em que conspira pela retomada do Vietnã dos comunistas e fornece informações a seu amigo e dirigente vietcongue em Paris.

Exílio

Em O simpatizante, Nguyen mergulha na psique desse agente, tão secreto que nunca saberemos seu nome, e na história dramática do Vietnã desde que o país se rebela contra o colonialismo francês, entra em guerra com os Estados Unidos — e ganha — e tem o país dividido, uma parte entregue à subordinação americana, outra aos comunistas. No longo interregno passado nos Estados Unidos, tramando dos dois lados, o capitão ao mesmo tempo reconstrói sua trajetória juvenil — filho bastardo de um padre, estudante pobre de intercâmbio nos Estados Unidos, de volta a uma Saigon moderna nos anos 1960 —, reflete sobre suas escolhas políticas e vive a vida miserável de um exilio.

Aqui, imerso na cabeça do espião, o leitor se surpreende tanto com a complexidade dos inúmeros disfarces do personagem quanto com o rigor de sua missão militar. O registro, mais psicológico do que aventureiro, é construído com paciência e revelações sutis até o desastre que se anuncia desde o início. E, de novo, como em John le Carré, não há heroísmo possível nesse mundo de trapaças e narrativas distorcidas. Com exceção de James Bond, o espião, no fundo, é um anti-herói: sabe que luta por guerras perdidas, causas difusas e um futuro que pode ser pior do que o passado

Quem escreveu esse texto

Bia Abramo

Jornalista, é autora de Aperto de mão (Conrad).