Literatura,

Os outros de nós mesmos

Ao articular passado e futuro, 'Mérito' fecha a trilogia de Rachel Cusk tratando da relação entre pais e filhos

29abr2021 - 12h31 | Edição #45

O enredo de cada um dos volumes da trilogia de Rachel Cusk parece simples: em Esboço, a narradora viaja a Atenas para ministrar um curso de escrita criativa; em Trânsito, está reformando a casa que comprou em Londres após seu divórcio; em Mérito, recém-lançado pela editora Todavia, participa de dois festivais literários em países diferentes. Tais resumos, porém, não chegam perto de traduzir a complexidade da série.

O princípio que une os três volumes é a escuta. Faye, a narradora, é escritora, recém-divorciada e mãe de dois filhos, como Rachel Cusk à época da publicação, e apresenta a trama pelas falas das pessoas que encontra pelo caminho. Num procedimento especular, Faye parece narrar o outro por impossibilidade de narrar a si mesma, e, se o que resulta é fragmentado e sem direção, esses atributos talvez adjetivem a própria narradora. 

Ao final de Esboço, Faye escuta de uma de suas interlocutoras que foi com desconhecidos que precisou decantar sua separação, mas fora tudo um “redemoinho de não significado no qual a ausência de seu marido parecera a ausência de um centro magnético, de modo que sem ele nada fazia sentido algum”. Essa e outras passagens parecem ser uma refração tanto da narradora quanto da composição da trilogia. Se o enunciador é de antemão determinado pelo outro, Cusk leva essa condição ao extremo: sua narradora apaga-se enquanto sujeito que diz e se porta como recolhedora de outros dizeres.

A sutileza do enredo tem pontos de ancoragem diferentes nos três volumes. Seria possível compreender cada um como a representação de uma fase do processo de separação — respectivamente, o divórcio em si, a nova casa e os filhos —, se isso não reduzisse a profusão de temas que Cusk consegue problematizar em sua bem-sucedida experimentação ficcional.

Esboço privilegia a discussão acerca do real e seus modos de representação, como se, na abertura da série, fosse necessário questionar o fundamento do romance — o realismo. Cada personagem porta um ponto de vista ao qual a adesão da narradora parece ser medida não apenas pela presença ou ausência de aspas, mas também pela beleza da elaboração linguística.

Trânsito, ironicamente, é o único volume que se passa praticamente em uma só cidade, para onde Faye se muda após o divórcio. O sentido parece se concentrar agora em torno do morar, atravessando reformas, mudanças, construções e mestres de obra que se tornam amantes. Mas não só, porque um único caminho, discussão ou interpretação nunca é suficiente na trilogia: fala-se em palcos, em versões de si para o público. Diversas personagens, se não todas, são descritas com gestos, feições ou atitudes infantis em corpos adultos. Essa recorrência, bem como a transformação de cada casa e mesmo da cidade e suas construções em direção a um conforto que nunca se completa, faz pensar na precariedade insuperável que a modernidade tenta disfarçar. 

Casamento

Em Mérito sobressai a discussão acerca do mercado editorial, por vezes referido com metáforas de uniões conjugais e divórcios. Tanto o casamento quanto o mundo editorial são escancarados como ficções, como instituições decadentes das quais dependem a organização da vida das pessoas e os livros — continuidade possível da tradição literária que nos fundou enquanto civilização. Um exemplo desse entroncamento é a conversa em que uma jornalista não faz pergunta alguma; fala verborragicamente sobre o próprio casamento para então afirmar ter material suficiente para uma entrevista com Faye que, afinal de contas, não havia dito nada. 

No livro, tanto o casamento quanto o mundo editorial são escancarados como ficções

Debates importantes para a contemporaneidade, como aqueles sobre o feminismo, o aquecimento global e o Brexit, ecoam na relação entre pais e filhos, cujas diversas facetas são trazidas, em um mosaico que nunca se completa, pela história de cada interlocutor. A relação entre pais e filhos, discussão central do último volume, aponta para a dimensão problemática de futuro e para o embate, em nossa época menos resolvido que nunca, entre tradição e renovação. Numa das cenas, a narradora chega a um hotel onde presencia um casamento. Chama sua atenção que não haja velhos nem crianças, e que, portanto, o matrimônio pareça estar acontecendo fora do tempo. Cada um dos recém-casados olha para um lado, e não se sabe se o casamento é uma manifestação de liberdade ou de irresponsabilidade. 

Ao contar o que dizem os outros, ao revelar-se nesse dizer que não é seu, a narradora poderia operar um resgate da experiência benjaminiana, a faculdade perdida de intercambiar experiências, até pelo prazer de ler que a linguagem apurada de Cusk proporciona. No entanto, a individualidade reivindicada em cada uma das histórias, a adesão quase egoísta ao próprio ponto de vista, parece apontar para o contrário disso, para a inviabilidade definitiva da troca, mesmo diante de alguém disposto a escutar e voltar a narrar. Também a estrutura da trilogia como entrelaçamento de narrativas, como jogo em que, por meio de uma só voz, há sempre uma história dentro da história, em vez de remeter à familiaridade e à sabedoria da narrativa ancestral, revela, sobrepondo versões e escancarando a impossibilidade de uma narrativa definitiva, a falta de ancoragem da realidade. 

Em Mérito reaparece Ryan, um dos interlocutores do primeiro volume. Faye não o reconhece imediatamente e depois percebe que os sinais de abatimento que chamaram sua atenção eram, na verdade, resultado de um emagrecimento intencional que havia tornado o escritor mais saudável. “Vi então”, ela diz, “que o que eu havia interpretado como sinais de infortúnio eram na verdade sinais de sucesso e me perguntei como esses dois extremos podiam se confundir tão facilmente um com o outro.” É nessa indecisão que parece se tecer a trilogia — e a modernidade, e o que veio depois. Afinal de contas, “talvez nunca fique claro o que deve ser salvo e o que deve ser destruído”.

Quem escreveu esse texto

Natalia Timerman

Psiquiatra e escritora, é autora de Copo vazio (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.