Flip, Literatura,

O drama de ser feliz e sem filhos

Romance de estreia de Ayobami Adebayo discute questões de fertilidade e poligamia na Nigéria

01jul2019

Impelido por um “dever” de conhecer a literatura produzida por mulheres do continente africano, o colunista Gary Younge, do The Guardian, passou um ano lendo essas escritoras e concluiu: “É tudo literatura”! E foi com essa sensação que fechei o livro de Ayobami Ayedebayo, Fique comigo, primeiro romance da jovem escritora nigeriana, nascida em 1988. 

É uma narrativa cheia de ação e de quase surpresas sobre as mais de duas décadas da história de amor de um casal, que começa em 1985 e vai até 2008. A história política da Nigéria desse período dá um pano de fundo longínquo à narrativa central, mas o leitor não recebe informações sobre o contexto turbulento vivido pelo país nos anos 1980, marcado por crises políticas e golpe de Estado — a política é um cenário quase incidental, que interfere em apenas uma das cenas (uma das mais importantes, é verdade) da narrativa. O que vai prender a atenção do leitor nesta obra é a história do relacionamento entre uma mulher e um homem na Nigéria contemporânea, casados, felizes e sem filhos — e esse fato é o que move a trama, principalmente para todos os outros personagens que povoam a história. 

É um livro feminino sobre a importância real ou imaginária da maternidade, mas que dá lugar aos sentimentos do homem

Adebayo vai nos contar como a poligamia é vista como a solução possível para esse cenário, como a progenitura e a fertilidade não podem ser discutidas, mas são encaradas como dever a ser cumprido, como os valores e a ideia de “felicidade” da família estendida se sobrepõem aos desejos dos indivíduos, como os costumes tradicionais entram em choque com a ciência moderna (e ocidental), como ainda é difícil questionar o lugar do homem e o lugar da mulher, ainda mais quando se fala de sexualidade e direitos de reprodução. É um livro feminino sobre a importância real ou imaginária da maternidade, mas que dá lugar aos sentimentos do homem. Mas nada é discutido, tudo nos é ofertado como as cartas de um jogo de baralho.

Enquanto conta a história do casal Yejide e Akin, Adebayo não dá pistas nem parece interrogar o leitor. O livro conta o desenrolar dos acontecimentos com a fluidez e as técnicas de um roteiro de filme. Mesmo quando dá lugar à narração de Yejide, a esposa, ou à de Akin, o marido, suas reflexões ainda se prendem à ação. Não há camadas a serem (re)descobertas. E se você não quiser parar para pensar nessas questões, ficará com a impressão de que a vida na Nigéria pode ser mesmo contada como esta história — reta como uma tábua de cortar legumes.

Essa falta de camadas faz com que os leitores que não sabem nada sobre anemia falciforme, suas formas de transmissão e como ela ainda assola alguns países, principalmente na África — assim como toda a discussão sobre racismo institucional que gira em torno desse distúrbio no Brasil —, continuem ignorando os assuntos relacionados à doença e, provavelmente, se limitem ao que o livro traz. A doença é um dos “personagens” do livro e, segundo a própria autora, foi o estopim que a levou a escrever o romance, depois de ter perdido amigos por causa dela.

Outros pontos de vista

O pequeno deslize na narrativa talvez esteja no fato de que ela parece ter sido construída para assegurar à audiência ocidental que os africanos (ou os nigerianos, no caso) têm como principal preocupação apenas existir, de uma maneira reducionista, com menos cores do que a realidade mostra: apenas cotidianamente se encarregando das suas funções vitais.

Adebayo tem sido chamada pela imprensa internacional de “jovem herdeira” de outra escritora nigeriana que alcançou nossos corações e mentes há uns anos: Chimamanda Ngozi Adichie. Essa autora tem uma narrativa mais densa, que traz  outras camadas de leitura para tentar nos levar para além das bordas do senso comum. Seu Meio sol amarelo, por exemplo, publicado no Brasil apenas em 2017, mas cuja versão original premiada data de 2007, trata da Guerra do Biafra e informa sobre o acontecimento sem deixar de lado sua ficção, cuja trama principal também é uma história de amor. E põe mais claramente em xeque todas as complexidades das questões de escolha que a Nigéria moderna tem de enfrentar. Mas talvez, por isso mesmo, Adebayo não precisa tratar de todos esses temas, uma vez que esse caminho foi aberto há dez anos.

O que devemos celebrar é que, mesmo que ainda de maneira muito tímida, estamos ouvindo diferentes pontos de vista sobre outras histórias da literatura mundial. É importante que obras de escritoras negras do continente africano cheguem ao público leitor do Brasil, como foi o caso da ruandesa Scholastique Mukasonga, que teve dois livros lançados no país em 2017, abrindo novas portas e janelas não só sobre o horror do genocídio em Ruanda, mas também sobre as belezas do país. É escrito com uma liberdade que faz menos concessões à fácil digestão da leitura ocidental.

Por essa linha, também é recomendável conhecer O caminho de casa, de Yaa Gyasi, nascida em Gana e criada nos Estados Unidos. Tem muita pesquisa ali, muitas camadas, muita ação e uma tentativa de fazer uma ligação entre as nossas histórias, as do continente africano e as do continente americano. Imprescindível para aumentar nosso ângulo de visão sobre este mundo e o tempo presente. 

Enquanto Yejide e Akin lutam apenas para ser felizes, quase contra tudo e contra todos, e Adebayo coleciona indicações para prêmios neste seu primeiro livro (ela já havia publicado muitos contos premiados), depois de ter deixado para trás uma carreira no sistema financeiro em Lagos, fica uma última pergunta. Como seria escrita uma obra de ficção sobre um casal feliz e sem filhos em qualquer outro país? Encarado com o mesmo sentimento de drama a ser enfrentado com dor e superação sem limites? Se a Nigéria descrita neste livro tem a poligamia, a magia e os segredos e as mentiras como solução para essa “tragédia” que é a infecundidade (e não apenas a infertilidade), quais seriam os “personagens” dessa trama em um livro narrado no Brasil contemporâneo ou em qualquer outro país do mundo?  

Quem escreveu esse texto

Izabela Moi

É diretora executiva da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.