Literatura,

O ano da vergonha

A Nobel Annie Ernaux faz uma radiografia das relações entre pobreza, violência doméstica, cristianismo e a obsessão francesa pela etiqueta

15dez2022 - 18h58 | Edição #65

A vergonha, livro de Annie Ernaux escrito em 1997 que narra a vida da autora no ano de 1952, abre com o dia de verão em que seu pai tentou matar a esposa, mãe de Ernaux. Essa visão, como afirma a escritora, assombrou-a durante dias como um mal-estar quase físico e condensou em si toda a vergonha que sentia naquele tempo e que sente até hoje.


A vergonha, livro de Annie Ernaux escrito em 1997, narra a vida da autora no ano de 1952

A cena e a percepção de suas consequências são o ponto de partida para que Ernaux mergulhe nas investigações de si mesma que são características de sua obra. Nesse caso, ela inicia um mapa da vida que levava na época, descrevendo todos os seus principais marcos geográficos, econômicos e sociais.

Embora seja dona de uma abordagem analítica, que destrincha e se debruça sobre os acontecimentos de sua própria vida, com frequência — e nesse livro talvez com mais força — ela escapa à tentação de explicar o que acontece com ela.

A sobriedade de Ernaux e seu olhar duro e preciso para a própria história resistem a grandes elucubrações ou extrapolações. A vida, a autora parece dizer, é o que é e podemos investigar elementos e motivações, traçar paralelos e consequências, mas é impossível fazer a realidade responder à lógica ordenada da ficção.

Ernaux não pode explicar esse acontecimento de uma maneira que a faça superá-lo e, ao final da narrativa, não se libertou dessa lembrança traumática. Mas ela escreve, coloca no mundo algo que até então era seu segredo mais privado, e espera para ver o que acontecerá depois disso.

Mapa

O retrato daquela época tem um ar antropológico: o mapa do tempo e do espaço em que a Annie de doze anos vivia serve para orientar quem queira classificar a tentativa de assassinato da mãe como típica ou atípica daquele contexto, exceção ou regra de seu ambiente. O ambiente é a cidade de Y., na Normandia, pequena e com divisões sociais claras. Na classe da família D. todos se conhecem, o que por si só é um motivo de vergonha, tanto porque a vigilância dos vizinhos coloca todos em uma situação de julgamento constante quanto porque há uma vaga sensação de que em outros lugares, e principalmente em outras classes, as pessoas não vivem assim “uns metidos nos negócios dos outros”.

Essa consciência de que a passagem de uma classe social para outra resulta em uma mudança de hábitos e que, portanto, os pobres devem se envergonhar de sua simples existência aparece alternadamente como uma consciência da escritora adulta e uma sensação na criança que ela era na época. Ela é a única de sua família e de seu bairro a frequentar uma escola particular católica, um lugar em que o “apropriado” reina sobre o entorno físico e a interioridade das alunas. No universo do colégio católico, a retidão moral e a organização do espaço caminham juntas para formar meninas decentes, superiores àquelas da escola pública laica. Em casa, a única ligação que a menina mantém com esse universo é a mãe, ela também uma católica devota que concorda com a escola em que um regimento rígido da moralidade interna é uma maneira de elevar-se, de escapar da desordem das classes mais baixas.

A vida, a autora parece dizer, é o que é, e é impossível fazer a realidade responder à lógica da ficção

Os pais da escritora são ex-operários, agora pequenos comerciantes e, se a mãe busca ascender com todo o seu espírito, o pai representa a permanência “embaixo”, no reino das piadas vulgares, da falta de religião e da intimidade com os clientes. E se esse é o mapa das estruturas familiares, quando o pai tenta matar a mãe, o que a autora também vê é a força gravitacional dessa vida que a criança já sabe, embora ainda não consiga explicitamente formular, que deseja abandonar.

O processo de transição social de Ernaux é acompanhado de uma ressignificação constante do lugar do corpo, e os riscos que este apresenta ameaçam muitas vezes mandá-la de volta para Y., para o café da família, para a vida e a vergonha dos pais.

Em O acontecimento (escrito em 2000) esse risco se materializa na gravidez indesejada e revela para a universitária Annie o fardo específico que ser mulher representa para suas ambições. Em A vergonha, a escritora resiste a dar à personagem uma compreensão que só  teria muito mais tarde. Mas o trauma que a cena inflige é também porque o que a violência do pai parece dizer é que, apesar de toda a sua disciplina interior e de ser a força maior do lar, a responsável pelas contas e pela elevação de todos, a mãe ainda é uma mulher e está à mercê da força bruta do pai.

A vergonha é também a da proximidade física da família e a de saber que, embora seja sua mãe a mulher agredida, o pai é um homem que se sente profundamente envergonhado e hostil ao seu lugar econômico, algo que a menina percebe ao acompanhá-lo em uma viagem de férias de verão.

Esse ano de vergonha e de uma compreensão profunda e amarga, ainda que desarticulada, de seu lugar de mulher é também o ano em que ela aguarda ansiosamente pela chegada de sua menstruação, passagem marcada pela elevação — para a turma das “mais velhas”, um lugar de mais saber — e pela vergonha do corpo — as meninas já menstruadas falam disso como de um segredo que as freiras da escola nunca podem saber. Enquanto espera, ela lê revistas femininas e sonha com o mundo asséptico, livre de vergonha, sujeira e familiares, representado pela publicidade e pela sociedade de consumo. Se o projeto literário de Ernaux é, em muitos sentidos, a narrativa de uma vida sob a ótica das dinâmicas sociais e econômicas, neste livro ela radiografa com precisão as relações entre pobreza, violência doméstica, cristianismo e a obsessão francesa pela etiqueta. 

Quem escreveu esse texto

Isadora Sinay

Matéria publicada na edição impressa #65 em outubro de 2022.