Literatura japonesa,
Comida para a alma
Equilibrando estilo açucarado com pitadas de acidez, romance de estreia de Banana Yoshimoto é uma ode à cozinha como lugar de conforto
28ago2025Quem já perdeu alguém sabe: o luto não é linear, mas circular. Quando alguém importante se vai, não pensamos nele ou nela menos e menos com o passar do tempo. O sofrimento pode nos atingir meses, anos ou até décadas depois como um shinkansen, o trem-bala japonês. Essa sensação de uma dor que pode sempre voltar está em Kitchen, primeiro romance de Banana Yoshimoto, que chega ao Brasil em edição da Estação Liberdade, depois de seus Tsugumi (2021) e Doce amanhã (2024).
Publicado pela primeira vez em 1988, Kitchen alçou Yoshimoto, então estudante universitária, ao estrelato no Japão. Quase quatro décadas depois e traduzido para mais de vinte idiomas, o romance narrado pela órfã Mikage Sakurai segue atual. Ao perder a avó, último laço familiar que lhe restava, a narradora embarca rapidamente em uma depressão paralisante.
Seu único consolo é a geladeira, ao lado da qual consegue dormir e encontrar algum tipo de paz. “O lugar de que eu mais gosto neste mundo é a cozinha”, revela Mikage na primeira página. Até as cozinhas incrivelmente sujas, ela diz, são reconfortantes: é só haver um ronco de motor de geladeira. Ao perder toda a família, o ruído é tudo o que lhe resta e o que a protege da solidão.
É a chegada de Yuichi Tanabe, garoto próximo de sua avó — ficou tão abalado com a morte da idosa que a neta chega a pensar que os dois tinham um envolvimento romântico —, que permite a Mikage romper o isolamento. Gentil, Yuichi convida Mikage para ir à sua casa, onde mora com a mãe, Eriko. Lá, a garota encontra uma cozinha que a abraça, com utensílios eficazes e icônicos (um descascador de legumes alemão, frigideiras SilverStone) e porcelanas para usos específicos. Mas o pensamento não tarda a voltar: “No mundo inteiro, não existia mais ninguém do meu próprio sangue”.
Linda, divertida, exuberante e amorosa, Eriko entra na história como o sol depois de uma sequência de dias cinzentos. O fascínio que ela exerce sobre Mikage chama atenção de Yuichi, que não demora a revelar o segredo da mãe: ela “fez plástica”. Eriko, originalmente, era seu pai biológico.
Na década de 80, quando menos direitos da comunidade LGBTQIA+ eram assegurados e havia ainda mais desconhecimento e preconceito sobre a diversidade de gênero, Banana Yoshimoto criou uma família estável e amorosa chefiada por uma mulher trans. É comovente a naturalidade com que a revelação é tratada na história. Para a orfã Mikage, o abrigo físico e emocional que a família Tanabe lhe dá é central. A partir desse momento, ela não está mais sozinha, é cuidada por mãe e filho. E, como gentileza gera gentileza, passa a cuidar deles preparando os pratos mais reconfortantes da culinária japonesa, como a sopa de arroz com ovos (tamago gayu), acompanhada da salada de pepino, que lhe rende o convite para ficar na casa.
Símbolo
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Talvez comida seja o símbolo mais forte de vida. Ela está ligada à subsistência, obviamente, mas também ao prazer: comemos porque desejamos. Escolhemos algo delicioso para nos premiar, para seduzir, para celebrar. Quando estamos tristes, as sensações físicas que a comida traz podem alterar nossas emoções. Se não são capazes de nos levar de um polo a outro, ao menos amenizam o sofrimento: o conforto sensorial (visual, olfativo, gustativo e tátil) pode ser a panaceia para uma dor da alma. Ao cozinhar, Mikage sai do luto: é vida contra a morte.
Na década de 80, a autora criou uma família estável e amorosa chefiada por uma mulher trans
Na segunda parte de Kitchen, Mikage deixa a casa dos Tanabe e vira assistente de uma chef. Ao reencontrar Yuichi, prepara um banquete para ele, uma lista de pratos que parece humanamente impossível de executar sozinha em um dia. Por fim, vive uma sequência semelhante à de um thriller para entregar a ele um katsudon preparado à perfeição. A comida também tem a capacidade de unir.
Figurantes
Embora seja uma ode à cozinha como lugar de conforto, o romance deixa a desejar a quem está acostumado à literatura de gastronomia e espera mais descrições sobre as receitas que a protagonista executa. Se a cozinha e o ato de cozinhar são centrais para a personagem, os pratos são meros figurantes. Nada grave para o leitor conhecedor da gastronomia japonesa ou curioso a ponto de pesquisar os pratos, que certamente sairá com apetite aguçado.
Também causa certa dúvida o estilo açucarado do fluxo de pensamento de Mikage, que por vezes beira a cafonice, o que acontece igualmente na novela “Moonlight Shadow”, que encerra a edição de modo deslocado, até repetitivo. Meio lírica, meio esotérica, a história também tem como tema o luto de uma jovem deprimida e apresenta a possibilidade de um reencontro entre ela e o namorado, morto repentinamente em um acidente de carro, para um adeus à altura do amor perdido.
Seria o estranhamento da leitura fruto de uma diferença cultural? Da cultura perdida da década de 80? Da composição da personagem? Ou é a escrita da artista quando jovem? Possivelmente todas as respostas acima. Yoshimoto tinha 24 anos quando escreveu Kitchen, vendeu milhões de cópias, ganhou prêmios literários e foi celebrada pelo texto sincero e cativante, que olhava para um drama íntimo sem ceder ao ritmo acelerado em que vivia a sociedade japonesa — vale lembrar que, nos anos 80, o país tinha uma das economias mais dinâmicas do mundo.
Sem o devido contexto, no entanto, o açúcar enjoa. Por sorte, vez ou outra Yoshimoto adiciona pitadas de acidez à doçura (como a ideia do affair entre o jovem Yuichi e a avó de Mikage) e o romance se equilibra. No final, a história fica, as descrições do luto reverberam e é possível ter uma sensação de apetite satisfeito.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
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