Literatura japonesa,
Ao mestre, com carinho
Em Kokoro, Natsume Soseki narra a relação entre um jovem e seu mentor em uma reflexão elegante e melancólica sobre tempo e amizade
13jan2026 • Atualizado em: 30jan2026 | Edição #102As narrativas contemporâneas mais simplistas costumam dividir as relações de mestre e aprendiz entre dois polos: a do mentor com seu fiel discípulo, que busca no passado respostas para dilemas atuais, ou a do choque de gerações, marcado pelo conflito e pela recusa mútua. Kokoro, de Natsume Soseki, romance que explora a relação de um jovem com aquele a quem se refere apenas como professor, escapa dessa dualidade — e, ao abordar o Japão dos anos finais da Era Meiji (1868-1912), ilustra o dilema humano das sociedades em transformação.
Essa percepção abre um campo fértil para análise do uso de diálogos em narrativas fortemente psicológicas, caso de Kokoro. Não se trata de um romance marcado por diálogos com frases longas ou vastas explicações do professor. O vínculo entre o jovem e o mestre não se estrutura como transmissão de conhecimento formal, mas como aproximação gradual de indivíduos que se reconhecem sem nunca se deixar esclarecer por completo.
Dividido em três partes, o romance publicado originalmente em 1914 tem os dois primeiros capítulos narrados por um jovem estudante do interior que se muda para Tóquio, onde conhece o professor. Ele descreve as visitas frequentes ao homem e à sua esposa, a casa em que vivem e as conversas travadas, que por vezes são contraditórias. O narrador afirma não analisar o professor e atribui a essa recusa o florescimento do vínculo. É esse tipo de observação que marca Kokoro, entendido como reflexão fantástica sobre amizades e a profundidade de entrega que essas relações podem compreender. Afinal, quem deseja se relacionar com alguém que rebate de forma constante e julgadora? Se, por um lado, narrador e professor têm um laço assimétrico, pois são de idades e graus de formação distintos, por outro, emerge uma verdade raramente exposta com tamanha clareza: relações se baseiam na suspensão do julgamento e na convivência.
A literatura de Soseki ultrapassa didatismos e se afirma como reflexão sobre a condição humana
Outro aspecto central da construção dessa relação é a quase ausência de vida intelectual nos diálogos. Embora a rotina de estudos seja um tema recorrente e o professor seja reconhecido como referência, as conversas raramente se aprofundam em questões teóricas ou acadêmicas. É justamente nessa lacuna que o professor se cristalizará não como um mestre de ideias, mas por lições de outra natureza. Os detalhes dessa trajetória, assim como o mistério que envolve sua vida reclusa e seu casamento, só se revelam plenamente no terço final da história. Um pouco à moda de Sherazade, o segredo mantém o narrador atado à figura do professor e essa curiosidade é desenhada com maestria por Soseki.
A edição brasileira define Kokoro como um romance elegante e melancólico — os adjetivos são precisos. A elegância se manifesta na contenção da narrativa psicológica, em que a intensidade não depende de um tom exclamativo, mas da costura firme dos pensamentos, falas e sentimentos, ainda que os mais exacerbados. O título do romance, aliás, é a palavra japonesa para coração, englobando mente, espírito, emoção e alma. A maneira enfática de falar de compromissos, honra, orgulho e outros temas, comum nas narrativas japonesas, está presente, mas com uma sobriedade que conserva o lirismo e não os rebaixa a um apanhado de ideias prontas e à expressão forçada. Há também muita elegância na maneira como se descrevem costumes, cidades japonesas e bairros de Tóquio, espaços internos e vestimentas — a edição brasileira conta com notas explicativas deliciosas, que contextualizam os trajes, explicando quando são usados, como são feitos e conservados.
Tempo
A melancolia do romance se ancora em um preceito clássico: a reflexão sobre o tempo — aqui, a consciência, por parte do professor, de que o dele passou. Ao estabelecer relação com um jovem estudante, ele é levado a revisitar acontecimentos decisivos de sua vida à luz da proximidade do fim. Mais fatalista do que arrependido, ele não fala em erros ou acertos, mas na força dos sentimentos, nas convenções sociais do Japão e nas ações que, inevitavelmente, produzem consequências nos outros. Em uma narrativa atravessada pela tensão entre costumes tradicionais e modernos, o professor encarna o ocaso de uma forma de viver e de se relacionar — não um fim abrupto, mas o canto do cisne de um Japão imperfeito e sem lugar definido no mundo que se anuncia.
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Há ainda um tom melancólico que cerca a relação do narrador com a figura paterna, foco do segundo capítulo. A doença do pai, homem do interior profundamente ligado ao imperador e até suscetível ao estado de saúde deste, funciona como metáfora das transformações do país, com o fim da Era Meiji e da oposição entre campo e cidade. Ao mesmo tempo, reafirma a universalidade da morte e da perda, temas que perpassam o romance e ampliam seu alcance para além do contexto japonês. Há, nas figuras do professor e do pai, uma sugestão da ideia de legado: o desejo ultrapassado de ter algum reconhecimento devido à permanência de suas ideias, o que coexiste com o ressentimento pela própria obsolescência.
Embora seja seu romance mais conhecido, Kokoro é o terceiro título de Soseki (1867-1916) publicado no Brasil. Em Eu sou um gato (Estação Liberdade, 2008), surgem motivos semelhantes, como um narrador em diálogo com figuras misantropas, mas com diferenças fundamentais: ali, o narrador felino analisa incessantemente seu amo e os diálogos são coalhados de citações de personalidades e trechos de obras que formam um aparato intelectual, artístico e literário. O contraste entre os romances evidencia o aumento da sofisticação no uso da primeira pessoa e na construção da confiabilidade do narrador, tornando a literatura do autor uma experiência que ultrapassa qualquer didatismo e se afirma como reflexão profunda sobre a condição humana.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026.
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