Literatura infantojuvenil, Poesia,
Poesia para quem precisa
Sem facilitar ou evitar temas espinhosos, antologia para jovens leitores expressa a diversidade da produção poética nas últimas décadas no Brasil
01out2025 | Edição #98Os poemas existem para tornar a nossa passagem por este planeta mais intensa, mais digna, mais verdadeira. Conviver com nossos poemas preferidos é como conviver com nossos amigos e amigas mais íntimos.
É assim que Bruna Beber e Fabrício Corsaletti convidam para o passeio em A primeira coisa que existiu: poesia brasileira para jovens leitores, uma antologia que reúne vinte das vozes mais interessantes da atualidade para uma missão necessária: fazer com que novos leitores se aproximem da poesia e percebam que ela pode ser muito mais importante, e até mesmo mais divertida, do que pode parecer.
O primeiro mérito da antologia a ser destacado é justamente o caminho pouco comum que Beber e Corsaletti seguiram ao montá-la: os poemas não foram encomendados para falar a língua dos jovens, buscando temas e abordagens pretensamente agradáveis para esse público, o que muitas vezes resulta em caricaturas. Os organizadores, autores de poemas que bem poderiam estar na antologia, abriram os livros da “poesia adulta” e sacaram poemas que, sem facilitar ou evitar espinhos, expressam a força e a diversidade da poesia escrita nas últimas décadas no Brasil.
A lição dos poetas é que há coisas que apenas um poema diz — e não podemos viver sem elas
Os poetas participantes são de variadas gerações, nascidos entre 1933 e 1997, e têm obras publicadas entre os anos 70 e a década atual. Todos em plena atividade: Alice Sant’Anna, Ana Martins Marques, Angélica Freitas, Arnaldo Antunes, Bruna Mitrano, Chacal, Eliane Potiguara, floresta, Gregorio Duvivier, Heleine Fernandes, Josely Vianna Baptista, Laura Assis, Ledusha Spinardi, Leonardo Gandolfi, Lilian Sais, Lucas Litrento, Marcelo Montenegro, Marcia Vinci, Miriam Alves e Natasha Felix.
Para fazer a ponte entre obras tão diversas e o também tão diverso público de “jovens leitores”, a antologia se orientou por uma ideia fundamental: a poesia não precisa ser chata, tampouco inacessível, como uma conversa elevada e cifrada para especialistas. Os poetas trabalham com os materiais da vida, normalmente espinhosos, como a escravidão, o racismo, a desigualdade social, as lutas indígenas, entre outras crises e dilemas, mas demonstram que há formas inteligentes, sensíveis e até bem-humoradas para tratar deles, porque sabem que o humor não é o contrário da seriedade — na poesia ou em outra conversa qualquer.
Exemplar, nesse sentido, é o poema de Laura Assis: “Nunca estou sozinha nos corredores/ de lojas e supermercados;/ isso poderia ser uma história de amor,/ mas é exatamente o contrário”. Diante da reiterada violência de uma sociedade em que a cor da pele transforma alguém em suspeito, mesmo nas mais banais situações do dia a dia, a poeta capta os elementos essenciais do conflito e os dispõe de modo a reproduzir, em quatro versos rápidos, todo o mal-estar — e o ódio, palavra que não aparece no poema, mas o dirige — de viver sob os múltiplos ataques do racismo.
Forma perfeita
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Nas páginas de A primeira coisa que existiu, lembramos que o que une toda essa gente tão diferente que se aventura na poesia é a busca pela forma perfeita para dizer algo, isto é, a perfeição que se atinge quando as palavras são usadas de modo a o “quê” e o “como” se fundirem.
É isso que os poetas perseguem e os leitores reconhecem: o poema existe porque não há como dizer a mesma coisa de outra maneira. Mudar a forma de dizer é dizer outra coisa: é fazer outro poema. Mas a lição das lições de poesia, que os poetas da antologia exemplificam de maneira brilhante, é que há coisas que apenas a poesia diz — e não podemos viver sem elas.
O trabalho do ilustrador Gabriel Furmiga, com o colorido rebelde de seus riscos e rabiscos, deu à antologia a aparência de um caderno, ou melhor, de um livro que foi usado como caderno por uma criança. Quando um jovem leitor pega o giz de cera e decide dar mais vida aos livros que encontra, apropriando-se deles como uma obra que convida à participação, ao diálogo, à continuação, talvez esteja nos dizendo que algo novo pode começar ali. Nunca se sabe o que pode nascer dessa relação sem cerimônia com a poesia e os livros. E é justamente disso que precisamos.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Poesia para quem precisa”
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