Literatura infantojuvenil,

Magia e amadurecimento

O romance de formação de um jovem feiticeiro na fantasia humanista de Ursula K. Le Guin

27maio2022 - 05h14 | Edição #58

A ansiedade e a impaciência marcam nossos tempos, agravadas por esse mergulho no luto e nas incertezas trazidos pela pandemia. Um certo antídoto a esse estado de coisas pode ser encontrado na leitura de O feiticeiro de Terramar. Talvez o livro nos ofereça guaridas emocionais para lidarmos com as inconstâncias dos dias e, tratando-se de Ursula K. Le Guin, ainda com uma reflexão mais profunda sobre o próprio ato de viver. Escritora estadunidense do campo progressista, foi responsável por apresentar novos temas para a fantasia e a ficção científica. Agora, a editora Morro Branco relança os primeiros romances da série de Terramar, na qual Le Guin cunhou uma obra fantástica com diferentes camadas: na superfície, a aventura; nas profundezas, o ato de nomear um mundo.

Publicado em 1968, O feiticeiro de Terramar conta a história de Ged, um garoto com muita facilidade para a magia. Nesse universo, a arte da magia confunde-se com o ato linguístico e com o ato tradutório: sua base reside em aprender a dizer as coisas pelos seus nomes verdadeiros, algo que a autora reconstitui de tradições desde a Idade Média. Le Guin desembarca nas praias de um mundo mágico com uma ferramenta cara às ciências sociais, à filosofia e à psicanálise: a nomeação. Apontamos um problema, uma realidade, uma dor, dando às coisas os nomes condizentes.

Aprender um idioma, uma ciência, uma arte mágica demanda tempo. Erros. Tentativas malogradas. Até se transformar em possibilidades. O talento do garoto é descoberto logo na infância e Ged vai morar com um famoso feiticeiro. Entretanto, seu aprendizado é vagaroso. “Maturidade é paciência. Maestria é a paciência multiplicada por nove.”

O garoto embarca em um navio, com o sugestivo nome de Sombra, para cursar a lendária Escola de Roke, uma escola de magia. Destaca-se nas aulas, mas carrega consigo uma insegurança grande, sentimento que o consome diante das habilidades de um estudante mais experiente. A vaidade juvenil e a pretensão desmedida submergem Ged em uma catástrofe. O conselho do velho feiticeiro paira no ar: “Você nunca pensou sobre como o perigo pode circundar o poder da mesma forma como a sombra envolve a luz?”.

Os livros da série Terramar podem ser vistos como anos de aprendizado para a autora, uma das grandes magas de seu tempo

Na virada do enredo, Le Guin desfia quase uma citação fáustica, na qual a sombra integra a luz: “acender uma vela é lançar uma sombra”. O garoto, para amadurecer, terá que enfrentar algo que parece inominável. Na segunda parte do livro, ganha força ainda o tema dos duplos, conceito caro a outras obras insólitas e recoberto por estranhamentos, de O Horla, de Guy de Maupassant (1886) a Solaris, de Stanisław Lem (1961).

A autora optou por explorar o romance de formação, focalizando no amadurecimento do jovem feiticeiro. A forma narrativa provavelmente serviu como campo de provas para uma das obras-primas de Le Guin, Os despossuídos (1974), no qual acompanhamos os anos de aprendizado de um físico, que larga o planeta natal para buscar conhecimento e arriscar a própria sorte.

Mapas e mitos

Para criar o universo de Terramar, a escritora californiana desenhou um mapa: “Quem navega precisa de um mapa”, disse em 2016. O expediente é antigo. Por exemplo, em Utopia, de Thomas Morus (1516), o mapa foi utilizado para transmitir um senso de veracidade na criação do mundo secundário. Outro expediente de composição foi criar uma mitologia fictícia, como canções e lendas ao longo do livro, produzindo um efeito de ancoragem histórica daquele universo.

Essa técnica se assemelha àquela de que J. R. R. Tolkien lança mão em O senhor dos anéis (1954-55). Em sua tese sobre Tolkien, Reinaldo José Lopes escreve que esse engenho narrativo concede uma aura de autoridade, reforçando a sensação de múltiplas camadas de complexidade cultural e histórica naquele mundo.

Os três primeiros livros da série de Terramar, escritos em 1968, 1970 e 1972, podem ser ainda vistos como anos de aprendizado para a própria escritora, que se tornará uma das grandes magas de seu tempo (a série toda é composta de seis romances e contos esparsos). O pacifismo — que marcará tão fortemente A mão esquerda da escuridão (1969) e Floresta é o nome do mundo (1972) — aparece na proposta de evitar batalhas sangrentas. Nos romances posteriores da série, o feminismo também aflorará.

O universo de Terramar é referência para a literatura fantástica atual. Neil Gaiman, por exemplo, declara que a trilogia fez que mudasse seu olhar sobre o mundo, impregnando tudo com uma magia muito mais profunda, e China Miéville afirma que os livros permaneceram como uma grande influência por gerações. A obra de Le Guin goza de uma boa fase de publicações nacionais. Além da atual série, a Morro Branco já lançou A curva do sonho e Floresta é o nome do mundo, além do conto “Aqueles que abandonam Omelas”, disponibilizado gratuitamente. Entre outras publicações do mercado, a editora Aleph lançou a edição de A mão esquerda da escuridão e Os despossuídos; a n-1, o ensaio A teoria da bolsa de ficção.

A leitura das aventuras do jovem mago pode trazer um alívio ao nosso coração ansioso, apressado por respostas imediatas. O aprendizado maior, o mais profundo, nasce ao confrontarmos a nossa própria história e abraçarmos as sombras das frustrações até encontrarmos nomes verdadeiros para os nossos mundos e tesouros inomináveis.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Ana Rüsche

Doutora em estudos linguísticos e literários, é autora de A telepatia são os outros (Monomito).

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.