Literatura brasileira, Os Melhores Livros de 2025,
Vamos começar tudo de novo
Romance de Noemi Jaffe traz à tona questões que a infância levanta e a coragem necessária para envelhecer mesmo sem respostas
22out2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100Como ter esperança quando já não há ilusão, recomeçar se ficamos apenas com uma “memória-buraco”, pertencer ao mundo depois que se viu o desmundo? Como escrever se todos os seus cadernos foram jogados fora?
Te dou minha palavra, de Noemi Jaffe, nos lança no interior dessas questões difíceis de ser enfrentadas. A autora o faz com a leveza de quem não perdeu a mão de menina e, ao mesmo tempo, com a maturidade das escritoras que não temem olhar “os próprios olhos sem dó, e ver a pele como pântano, rugas como rasgos, manchas, cravos, inflamações”.
O encontro da mulher madura com a menina traz à tona questões que a infância levanta sem responder e a coragem necessária para envelhecer mesmo sem respostas, ou ao menos sem solução. Envelhecer não é para os fracos; escrever tampouco.
Jaffe une a menina que trazia em si à vastidão e à devastação da memória dos velhos: seus pais, os pais dos seus pais mortos nos campos de concentração, a guerra, o exílio. Devastação que a tornava, ela mesma, um pouco velha, deslocada, sem idade ou lugar:
Desde que ela descobriu que seus pais eram sobreviventes de uma guerra contra os judeus e que sua mãe guardava numa caixa dentro do armário […] um diário que ela só podia olhar, mas não ler, já que nem ler sabia, e o diário estava escrito em i-u-g-o-s-l-a-v-o, essas vidas viraram histórias e as pessoas, personagens. A menina vivia nessas histórias e não prestava para a realidade. Sem amigos, perseguida, invejava a prima magra e boa aluna, tinha os pés chatos e desequilibrava.
Mas justo esse “desequilíbrio” permite àquela que envelhece encontrar a menina e vice-versa. Um encontro de quem não teme olhar as rugas do agora e as vergonhas de outrora. Entremeando a menina velha, a velha menina, a velha e a menina, a narradora encontra a sabedoria para o que não tem exatamente resposta:
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E quanto mais histórias contavam, maior a memória-buraco ficava, um poço sem fundo que vinha do passado deles e ia se tornando o meu.
Todas as línguas
É possível escrever “na presença de todas as línguas do mundo”, como dizia o escritor francês Édouard Glissant? É possível escrever se não nos exilamos de nossa própria língua? Se algo apátrida acaba por vir corroê-la? Se não nos tornamos estrangeiros a nós mesmos, como disse a linguista búlgaro-francesa Julia Kristeva?
Não creio que possamos ainda falar em uma literatura nacional, como se acreditava há dois séculos. Esse desterro que Jaffe narra é hoje uma das condições da narração. O mito da língua nacional, de uma só língua e um só povo, já não se sustenta, escancarados os escombros das devastações dos povos. Isso não significa que perdemos, na vastidão de todas as línguas e culturas, a singularidade do encontro com uma tal língua que deriva de todas as línguas que nos tocaram. Esse é um dos grandes encontros narrados em Te dou minha palavra. “Minha” palavra vale em todas as línguas, porque “minha”, porque “te dou”.
É nesse entremeio ou emaranhado de línguas e memórias em outras línguas que a autora não lê nem escreve que a agulha passa pelo buraco e deixa o rastro de uma língua sua. Jaffe faz dos rasgos rastros e, costurando corpo e letra, faz das inflamações gritos em línguas inaudíveis — iugoslavo, húngaro, hebraico, ídiche, alemão, até chegarem ao português “línguas e palavras como ossos, estruturando o corpo e o mundo, como se eu morasse nelas”.
A escritora une a menina que trazia em si à vastidão e à devastação da memória dos velhos
O português era a língua da poesia brasileira para a infância, a língua dos eus profundos, “do baixo e gordo Caeiro ao alto e magro Álvaro de Campos”. Já não estamos aqui no mundo das raízes fixas, da língua materna, tampouco na língua do pai. Estamos navegando, no êxodo do espaço propriamente literário. Estamos na língua que a escritora constrói para tocar o ilegível — dos campos de concentração, das pedras carregadas na cabeça, indizíveis que só falam quando inventamos o próprio de uma língua imprópria.
Dessa multiplicidade de línguas — mesmo quando nunca faladas — emerge a potência lancinante das múltiplas vozes reunidas por meio dessa voz “única” da narradora-autora.
As histórias dos nossos antepassados e os rastros desse país compósito não se deixam aglutinar na ideia privada do romance familiar, ou do monolinguismo. As múltiplas línguas que carregam dona Lili e seu Aron, mãe e pai de Jaffe, são como gretas que “arrastam consigo o frágil saber” do vivido de muitos mundos, e até mesmo da perda, ou da pedra, do mundo.
Mas o que fazemos com todos esses rastros, que intuímos vir, sem ciência ou certeza de algo que não vivemos, mas que ainda assim parece que vivemos? Herdar a memória dos nossos antepassados significa repetir os seus erros e/ou acertos? De qual herança trata a literatura quando lembra e esquece ao mesmo tempo? Eis um caminho que nos é ofertado pela autora:
Lembrar, a especialidade do meu pai, não é o contrário de esquecer. Para esquecer, lembro; esqueço o que lembro, lembro que esqueci. Se seu Aron lembrava, dona Lili esquecia.
A autora parece ter herdado a franqueza da mãe, “inapta ao teatro do mundo”, e os sonhos do pai, apta “a um mundo de coisas invisíveis: não sei contemplar, só narrar”. Não sabe contemplar porque aprendeu desde pequena a ver línguas, porque ver já era ouvir numa outra língua, incompreensível ou desconhecida, uma língua que só os olhos sem dó não temem ver. E, por não temerem, veem muito, veem longe, e ver dói.
Herança
São muitas as histórias que habitam o mundo de Te dou minha palavra. O fio que as conduz pode ser o dessa carta que a Jaffe madura responde à Noemi menina. Ao longo de todo o livro elas travam um diálogo sutil, delicado, doce e, ao mesmo tempo, duro, seco e cru: será que cumprimos os sonhos que um dia escrevemos serem os nossos? Eram mesmos nossos ou herdamos de nossos pais? Como deserdar e ainda assim honrar a memória dos que nos antecederam? Seria com a palavra que demos não ao outro, mas a nós mesmas? Quem nos tornamos quando já órfãs nos confrontamos com os nossos próprios fundamentos e não mais com os dos nossos pais? Como sonhar um país sem rastro dos pais? Como responder à herança sem necessariamente herdar?
O armário renovado, as portas brancas e, dentro, tudo arrumadinho, eu, que bagunçava as blusas amassadas com as calças. Engoli em seco e remexi no fundo das prateleiras. Onde estavam os meus cadernos e os livros da escola? “Joguei tudo fora. Importante começar tudo de novo. Para que precisa daquelas bobeiras?” […] Dona Lili nem pensou em me perguntar se eu queria aqueles cadernos, era evidente que não. Eu não soube ou não pude retrucar.
Palavras
Vamos começar tudo de novo? Jaffe não teme fazê-lo. E, como nos sonhos proféticos de sua mãe — “A cigana Lililili”, que tinha sonhos proféticos e “sabia o significado deles” —, a autora reinstaura a magia do fazer aparecer: essa magia sem nome, mas com destino certo.
Noemi também soube interpretar Lililili, e soube como começar tudo de novo: fazendo com que os sonhos proféticos de sua mãe-cigana lhe permitissem inventar outra relação entre passado, presente e futuro. A menina que um dia entendeu que “o futuro se tornou o passado dos meus pais”, agora faz desse passado uma visão profética de futuros possíveis.
Será que cumprimos os sonhos que um dia escrevemos serem os nossos?
Te dou a minha palavra é um livro que nomeia o que de fato importa na literatura e na vida: o valor da palavra. Um mundo no qual a palavra tem valor. Por isso a damos, a ofertamos, como dádiva, presente ou charada. Asseguramos que ela diga algo. Confiamos nossa palavra a um outro, o leitor, e o convidamos a partilhar o mundo que a autora intuiu ser possível. Te dou minha palavra porque sou capaz de olhar o que pude e o que não pude cumprir com os meus/seus eus profundos, habitados por tantos outros eus. O leitor é parte desse pacto, desses múltiplos eus, é ele quem recebe esses cadernos perdidos por fim reencontrados. Que presente, que beleza! Importante é começar tudo de novo! Li-li-li-li.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
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