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Tati quebra o barraco

Literatura brasileira,

Tati quebra o barraco

Com humor, raiva e tesão, Tati Bernardi se distancia da influência das autossociobiografias e faz uma crítica engraçada e comovente da bolha intelectual paulistana

31mar2025 | Edição #92

Uma amiga costuma dizer que o Tatuapé é tão distante da zona oeste paulistana quanto Quixeramobim. O subtexto é: para boa parte da elite intelectualizada de bairros como Pinheiros ou Vila Madalena, é estrangeira qualquer terra em que os lares não estão abarrotados de livros e onde o dinheiro, porque bem suado, é assunto mais digno do que a militância social da moda.

O sertão cearense ou a região leste da cidade de São Paulo — onde cresceu Tati Bernardi — entram nesse bolo, e os que emigram dela para aquele suposto oásis ilustrado, em busca de um lugar ao sol dos escritores, artistas e intelectuais, têm que cortar um dobrado para se encaixar entre os herdeiros da tradição. E nunca se encaixam, de acordo com A boba da corte, novo romance autoficcional de Bernardi.

A escritora Tati Bernardi na casa de sua infância, no bairro do Tatuapé, em São Paulo, um dos cenários do romance autoficcional A boba da corte (Acervo pessoal)

É, porém, um exagero colocar as coisas nesses termos. Afinal, a narradora do livro não é e nem arroga a si o posto de representante dos parvenus. O que faz é contar a história de como saiu do suburbano largo do Maranhão e chegou à desejada rua Maranhão, em Higienópolis (que fica na região central paulistana, porém tem alma zonaoestina) — uma história permeada por raiva, humor e tesão. E esses elementos são sempre pessoais e intransferíveis. Não se trata de dizer como as coisas são, mas como Tati as viveu. 

Os termos do acordo de leitura do gênero autoficcional já são conhecidos: a ficcionalização de experiências reais torna borrados os limites entre fato e invenção. No livro de Bernardi, a narração em primeira pessoa, a protagonista xará e os muitos detalhes biográficos compartilhados — somados ao que conhecemos pela farta presença da autora nas redes sociais e na imprensa — tornam difícil evitar a impressão de que estamos lendo experiências de fato vividas por pessoas concretas, ainda que os eventos sejam remixados e os personagens, rebatizados. E tudo bem, ou tudo ótimo, quando a coisa é bem feita, como neste caso.

Esse tipo de texto poderia ser mais bem descrito como ensaio autobiográfico, mas talvez isso ocasionasse problemas jurídicos para a autora e a editora. A pergunta que fica, então, é se alguém que não quer ser escritor ou nunca foi, ou quis ser convidado a ir, numa soirée de editores que são filhos de autores que são primos de jornalistas que são pais de curadores, enfim, se alguém alheio à intelligentsia paulistana poderá se relacionar com A boba da corte. O mesmo vale para alguém que não lê revistas como esta, que com frequência esquecem que há leitores que não sabem o que é Higienópolis.

A prosa de Bernardi é fluida e elegante, mesmo que a narradora nem sempre o seja

Minha resposta é enviesada, então lanço um disclaimer necessariamente narcisista (talvez esta seja uma resenha autoficcional). Igualmente meio loira, nasci no subúrbio do Rio, onde moravam meus avós, os imigrantes portugueses Maria e Manuel, donos de uma padaria; e fui uma pré-adolescente gordinha e de cabelos muito cacheados na nova-rica Barra da Tijuca da virada dos anos 90. Por isso me sinto, ou me sentia, apenas duas centenas de quilômetros mais próxima de Pinheiros do que a galera de Quixeramobim e do Tatuapé. Só que já adulta morei em Pinheiros e quis ser convidada para soirées, e consegui. Uns vinte anos depois. Fiquei contente e fingi normalidade, mas me choquei ao constatar meu perene desconforto em transitar por ali. O livro de Bernardi me pegou nas primeiras páginas, ao rir de atrizes de esquerda que fazem curso de clown, e, claro, pelo impulso detetivesco de caçar os nomes dos bois.

Mas de fofocas nosso inferno editorial já está cheio. Diferentemente, porém, de um texto que circulou há poucos meses num podcast — e que também misturava questões de classe, amor e intelectuais privilegiados —, a prosa de Bernardi é fluida e elegante, mesmo que a narradora nem sempre o seja. E na maior parte do tempo soa honesta, no melhor sentido do termo, pois reconhece que o ser humano, a começar por sua protagonista Tati, é um troço contraditório, esquisito, muitas vezes desagradável.

Vergonha alheia

Nas primeiras páginas, lemos o relato de uma festa no apartamento de Tati. Os convivas estão encantados com a comida e com Luara, a cozinheira contratada, que é negra. “Você parece uma rainha”, dizem alguns, e convidam a ela e sua assistente para jantar. Lemos, numa mistura hábil de vozes: “Você e sua filha não querem se sentar com a gente? Luara explica que não é sua filha. Achei que fosse porque é linda e talentosa como você”. O leitor se contorce de vergonha alheia, mas a coisa piora. Depois de explicarem que já comeram, em pé e com pressa para irem logo embora, as duas têm de aturar palmas iniciadas pela própria anfitriã.

Tati reconhece constrangida, nas páginas, o absurdo: “Todos aplaudem. Rainha Luara! Que mulher é esta! Luara e sua assistente não estão achando muita graça, não estão no teatro, não são palhaças”. E mais adiante questiona se está se tornando o tipo de pessoa que “sempre quis ser e, ao mesmo tempo, sempre quis destruir”. É difícil, afinal, manter a saúde mental quando se é o bobo da corte, mesmo que este seja o único que “conhece a fundo a podridão de todos e, protegido pelo humor, pode humilhá-los”.

O humor é um dos elementos que tornam Bernardi bem distinta de Édouard Louis, sua declarada influência. É também o humor que salva do tom de denúncia a descrição de despautérios como o do casal “branquíssimo” que tira onda por ter um filho pardo. É ainda o humor que vinga o meu tipo de esquerda progressista, que sabe que há hora de militar e hora de se divertir, e que, quando se confundem, ninguém sai ganhando (bem, talvez a extrema direita, que sabe separar as coisas). É ótima a passagem em que uma amiga interrompe um show de talentos doméstico, cujos vencedores são premiados com lindos e roxos vibradores, a fim de pedir doações para meninos presos por protestar contra uma privatização. Quem teve de ouvir discurso sobre especulação imobiliária no meio de um bloco de Carnaval no Rio sabe do que estou falando.

Não é a paixão, e sim o amor, que serve como uma espécie de moldura frágil em ‘A boba da corte’

O outro elemento que distancia o livro das chamadas “autossociobiografias” de inspiração francesa é a menor densidade da análise do contexto social, econômico e cultural — o que pode alienar leitores desavisados que procuram algo que se encaixe com mais afinco na linha da exaustivamente proclamada (e frequentemente vazia) assertiva de que “história familiar e história coletiva são uma única coisa” (Annie Ernaux) ou de que “autobiografia é literatura coletiva” (Louis). É quando constrói cenas comoventes, factuais ou não, que A boba da corte efetivamente toca o coletivo por meio do singular. Não porque essas cenas aconteceram, mas porque o leitor pode compartilhar do efeito delas por meio de um texto eficiente. Boa literatura é literatura coletiva.

Quando a narradora, com um sorriso, implora por cumplicidade diante de um discurso cafona em um casamento fino — na esperança de que, caçoando dos outros, o namorado “bem-nascido” forme com ela um “pacto verdadeiro” —, Bernardi vai muito além da passagem que descreve. O mesmo se dá quando relata a experiência dolorosa de ser rejeitada, ainda adolescente, por um engomadinho na boate, por ser “mó mina pobre”, e consegue arrematar o caso com humor, dizendo que não podia ser pobre, pois sua família “gabaritou o Censo 1994” com dois banheiros, liquidificador, geladeira… (O fato de não ter havido Censo no ano de 1994 pode ser um problema de checagem, mas também atesta o quanto há de inventado na autoficção.)

Traumas e recalques

Entre os pontos altos do romance está também a precisão com que a autora narra as estranhezas da atração erótica, permeada que é por traumas e recalques. Bernardi é pesquisadora de psicanálise, e isso aparece em A boba da corte sem que a teoria aflore artificialmente. Após narrar as experiências sexuais durante o período em que trabalhava em uma agência de publicidade, quando desejo, ambição e inveja se misturavam, conclui com concisão: “Era um lugar de muita angústia, e de muito tesão”.

Não é a paixão, e sim o amor, que serve como uma espécie de moldura frágil em A boba da corte, mas a solução é o ponto fraco do conjunto. Quando terminamos o sexto e último capítulo, que responde a uma questão proposta no início — “como escrever um livro […] que vai me separar para sempre da pessoa que ainda amo?” —, o final soa abrupto. 

Embora o sentimento seja expresso ostensivamente ao longo do capítulo inicial, o tal amado, o infeliz que não sorriu cúmplice, só volta a aparecer rapidinho nas últimas páginas para que a narradora faça sua verdadeira declaração de amor, um pouco redundante, à escrita. Isso dá uma leve sensação retrospectiva de que os capítulos centrais são um apanhado de anedotas excelentes, mas dispersas. 

Passado o susto da conclusão repentina, e superada a tentação de desvendar as fofocas, o que fica da leitura é a experiência de ter acompanhado um engraçado e dolorido minirromance de formação, imperfeito mas sincero, sobre como é duro superar o desconforto, que às vezes vira terror, de estar fora do nosso habitat natural — mesmo quando sabemos rir disso.

Quem escreveu esse texto

Ligia Gonçalves Diniz

É crítica literária e autora de O homem não existe: masculinidade, desejo e ficção (Zahar).

Matéria publicada na edição impressa #92 em abril de 2025. Com o título “Tati quebra o barraco”

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